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Literatura

Isa Colli no Tesão: “Pais leitores, filhos leitores”

Por: SIDNEY NICÉAS
Escritora e editora da Colli Books, Isa Colli conversou com o Tesão Literário sobre a magia do livro

Foto: Alle Vidal

29/05/2022
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*por Sidney Nicéas

Quando os tempos são turvos, é sinal de que estamos errando. Essa máxima vale para qualquer área da vida, ainda mais quando o assunto é a formação cidadã num país; Educação, Cultura, Livro. Pensar os problemas do nosso Brasil pede um olhar para as questões de base. Conversar com a escritora capixaba Isa Colli é compreender que é lá, na raiz, que vamos encontrar soluções para tornar a realidade mais límpida.

Isa atualmente mora na Bélgica, mas mantém a Colli Books no Brasil com bastante vigor. A editora aposta justamente nas questões mais relevantes para a educação infanto-juvenil, publicando as obras que ela escreve e também de outros autores, focando numa ampla formação cidadã fincada na literatura. A Colli Books tem dado muito certo, também apostando, inclusive, na formação de professores.

“A colheita tem sido muito boa. Não somente eu, mas os outros autores também trabalham com temas voltados à sustentabilidade, aos valores e também focados no empreendedorismo, além de outras questões que são abordadas pelas escolas em sala de aula. Nossos títulos são cuidadosamente pensados para levar entretenimento, cultura e conhecimento aos leitores, alunos e professores, com temas voltados à responsabilidade social, que procuram atender aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, como erradicação da pobreza, segurança alimentar, educação, saúde e melhoria da qualidade de vida”, afirma.

A experiência como editora só ratifica o que é sabido por todos - até mesmo pelos políticos, que fingem não saber -: o caminho para mudar a realidade do país passa pela melhoria da educação e pela cultura do livro. E isso em várias frentes, desde o exemplo dos pais em casa até uma educação de qualidade, passando por uma política séria para formação de leitores. “Na Bélgica, a literatura faz parte da cultura popular. Por aqui é comum encontrarmos pessoas lendo nos transportes públicos, nos parques... Porque ler faz parte do cotidiano das pessoas. Isso se dá ao fato de a literatura ser inserida cedo na vida do belga”, explica.

Já muito cedo Isa Colli compreendeu o valor da leitura e de uma formação de base. Foi dentro de casa mesmo, através de uma mãe contadora de histórias, que experienciou a magia que os pais podem promover para seus filhos. “Ainda me lembro das estórias que minha mãe me contava e o quanto isso influenciou na minha trajetória. Os filhos são espelhos dos seus pais ou responsáveis. As crianças tendem a se inspirar naquilo que veem. Então, uma casa com pais leitores certamente terá filhos leitores também”, relembra.

Para quem duvida que tais questões são secundárias, ainda mais aquelas pessoas que acreditam que armar a população é solução (e que isso nada tem a ver com a questão da educação), Isa vai na contramão. “Eu sou totalmente contra a política de incentivo ao armamento. O caminho para transformar nossa nação é por meio da educação”, realça, ao mesmo tempo em que frisa a escolha por fundar uma editora mesmo em tempos de recessão: “Muitos dizem que eu tomei uma atitude ousada ao abrir minha própria editora, em 2018, num momento de crise econômica mundial, que provocou o fechamento de várias editoras e livrarias. Mas eu segui em frente e realizei meu sonho. Hoje tenho autonomia e liberdade para escolha dos livros que vou publicar e ainda dou oportunidade para outros autores, novos e consagrados. Sou movida pelos sonhos e pelo sentimento de ajudar o próximo”.

Por e-mail, Isa Colli conversou com o Tesão Literário e passeou pelos temas já expostos na matéria, além de outros. Confira abaixo a entrevista na íntegra e, ao final, os contatos com a autora e a editora. Vale demais conferir. 

 

TESÃO LITERÁRIO- Conta pra gente: como tem sido a experiência de escrever, publicar seus livros pela própria editora e ainda publicar títulos de outros autores? Em se tratando de Brasil, isso é quase como ‘bater o escanteio e ter que fazer o gol de cabeça’?

ISA COLLI- Olha, é quase isso. Fazendo uma comparação com o futebol, eu posso dizer que jogo em quase todas as posições. Mas tenho uma equipe de colaboradores maravilhosa que me dá todo suporte necessário para tocar a editora de maneira eficiente. Muitos dizem que eu tomei uma atitude ousada ao abrir minha própria editora, em 2018, num momento de crise econômica mundial, que provocou o fechamento de várias editoras e livrarias. Mas eu segui em frente e realizei meu sonho. Hoje tenho autonomia e liberdade para escolha dos livros que vou publicar e ainda dou oportunidade para outros autores, novos e consagrados. Sou movida pelos sonhos e pelo sentimento de ajudar o próximo. E agora, graças a Deus, estamos chegando a cada vez mais cidades, sendo adotados por um número crescente de escolas. Até mesmo durante a pandemia, quando as vendas escolares e para lojas físicas ficaram um pouco prejudicadas, nós compensamos com o aumento das vendas online. Para quatro anos de vida, posso dizer que estamos na flor da idade! (risos)

TL- Você escreve totalmente alinhada com a proposta da editora, investindo pesado na formação de crianças e jovens, e também no professor, passeando sempre por temas de interesse coletivo, como inclusão, sustentabilidade etc. Esse caminho tem dado os frutos esperados?

IC- Tem dado os frutos esperados. A colheita tem sido muito boa. Não somente eu, mas os outros autores também trabalham com temas voltados à sustentabilidade, aos valores e também focados no empreendedorismo, além de outras questões que são abordadas pelas escolas em sala de aula. Nossos títulos são cuidadosamente pensados para levar entretenimento, cultura e conhecimento aos leitores, alunos e professores, com temas voltados à responsabilidade social, que procuram atender aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, como erradicação da pobreza, segurança alimentar, educação, saúde e melhoria da qualidade de vida. Um exemplo de resultado positivo é o livro Luke, o Macaco Atleta, que fala de alimentação saudável e obesidade infantil. Este título foi citado como experiência modelo no Fórum Internacional de Segurança Alimentar, do Pacto de Milão, realizado em 2019, no Rio de Janeiro.

TL- Vivemos tempos em que muitos pregam o armamento como solução para resolver a violência no país. Como você enxerga essa questão, já que esse problema passa, de modo geral, pela falta de base, que é a Educação e a Cultura?

IC- Eu sou totalmente contra a política de incentivo ao armamento. Armas têm de estar na mão dos profissionais da área de segurança e não ao alcance da população de maneira descontrolada.

TL- As pesquisas sobre o livro no Brasil mostram que adolescentes e adultos, regra geral, sofrem potente desestímulo à leitura. Como transformar a nossa nação numa pátria de leitores? Aliás, se for possível fazer um paralelo com a Bélgica, por exemplo, onde você reside atualmente…

IC- O caminho para transformar nossa nação em uma Pátria de leitores é por meio da educação. Não tem outra forma: é estimular a leitura desde os primeiros anos da educação infantil, incentivar as famílias a criarem rotina de leitura em casa, promover passeios às feiras literárias e, para as crianças de escolas públicas, distribuir periodicamente vouchers para que elas possam comprar livros em livrarias e nos eventos literários. Na Bélgica, a literatura faz parte da cultura popular. Por aqui é comum encontrarmos pessoas lendo nos transportes públicos, nos parques... Porque ler faz parte do cotidiano das pessoas. Isso se dá ao fato de a literatura ser inserida cedo na vida do belga.

TL- Na mesma pegada da pergunta anterior, percebemos que a ludicidade da criança sofre enorme ataque quando esta começa a crescer e ingressar na vida adulta. Esse é um problema com solução em curso ou a questão é mais grave do que imaginamos?

IC- Acho que o problema tem solução sim. Temos de fazer um esforço coletivo para manter viva a ludicidade conforme as crianças vão crescendo. A ludicidade colabora para uma boa saúde física e mental, facilitando o processo de socialização, comunicação, construção de conhecimento e o desenvolvimento pleno do processo de ensino-aprendizagem. Ou seja, o estímulo à fantasia e à brincadeira não deve ser limitado à infância.

TL- A Colli Books faz um trabalho bastante voltado para as escolas. Como você enxerga o trabalho das escolas particulares com a leitura e o livro? E as públicas? Diante da sua experiência, há ou não um abismo entre os dois sistemas nesse quesito?

IC- As escolas particulares costumam ter um planejamento mais sistematizado em relação aos projetos literários, já prevendo todos os livros que serão usados ao longo do ano letivo. Nas escolas públicas isso não é uma regra, mas também há muitas instituições que fazem seus planejamentos incluindo os projetos literários, inclusive com realização de feiras do livro. A questão é que as escolas públicas dependem da iniciativa dos gestores municipais e estaduais, que precisam planejar e executar a compra de livros, já que nesses casos há a necessidade de se passar por processos de licitação. 

TL- Como você avalia a formação dos professores brasileiros?

IC- As novas tecnologias educacionais têm cumprido um papel importante na formação de muitos profissionais. E os professores brasileiros têm aproveitado a oportunidade de se licenciar à distância para melhorar formações específicas em determinadas áreas, o que tem sido um ganho extraordinário para a educação.

TL- Voltando para a Literatura, focando no mercado, como o Brasil pode virar o jogo nessa crise que a cadeia do livro se meteu? E, pra você, como os governos podem agir pelo setor?

IC- Penso que o Brasil pode virar o jogo investindo nas vendas online, sem deixar de lado as lojas físicas. Também é preciso retomar as feiras literárias que foram interrompidas na pandemia, adotando agora o sistema híbrido, que permite a participação presencial e virtual de pessoas de qualquer parte do planeta. Algumas feiras já estão voltando nesse formato com bons resultados. Quanto aos governos, acredito que é preciso se pensar na redução de impostos, incentivo às compras governamentais e maior acesso a emendas parlamentares para alavancar o setor.

TL- O que Isa Colli acha de um país que tem mais farmácias do que livrarias?

IC- É uma pena que não tenhamos livrarias espalhadas por cada esquina deste país.

TL- Você é filha de uma mãe que contava muitas histórias. Qual a real influência dos pais na formação leitora dos filhos?

IC- Ainda me lembro das estórias que minha mãe me contava e o quanto isso influenciou na minha trajetória. Os filhos são espelhos dos seus pais ou responsáveis. As crianças tendem a se inspirar naquilo que veem. Então, uma casa com pais leitores certamente terá filhos leitores também.

TL- Ler é?

IC- Viajar a um mundo imaginário... é acumular aprendizado e experiência de vida. Ler é enriquecer o vocabulário, desenvolver a memória e a imaginação. Ler é fazer as viagens mais incríveis do universo. Ler é a melhor coisa que existe no mundo.

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Contato com Isa Colli: https://www.instagram.com/isacolli_oficial/ 

Contato com a Colli Books: https://www.collibooks.com/ e https://www.instagram.com/collibooks/ 

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