Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Literatura

Josessandro Andrade: Mestres do Moxotó - Parte 1

Por: SIDNEY NICÉAS
O poeta Josessandro Andrade estreia no Tesão com um textaço em 3 partes sobre os mestres do Moxotó. É a riqueza literária do Sertão em destaque pra você

Foto: Elias Rodrigues de Oliveira/Patrick Tomasso/Unsplash/Arte Tesão Literário

09/02/2022
    Compartilhe:

*por Josessandro Andrade

O Sertão, como região pertencente ao Nordeste brasileiro, cuja vegetação é a Caatinga,tem no clima semiárido um incrível potencial de fertilidade, apesar da escassez de chuvas. Enquanto na região Agreste há uma maior presença de precipitações pluviométricas, mas o  solo é fraco e pouco produtivo para agricultura, O chão sertanejo é forte e rico,  e mesmo com  pouca água, possui uma fertilidade das mais abundantes. 

A propósito, uma música do Poeta Waldemar Cordeiro e do Compositor e maestro Francisquinho, nos traça esse cenário de forma poética e telúrica, em “Aquarela do Sertão”, uma obra-prima do cancioneiro-musical:

 

Sertão, sobre as pérolas finas caídas na unção do luar

Sertão, Violeiros anônimos cantam seus feitos sem par

A Viola que geme no bojo da noite estrelada,

é a Viola que fala de amor, traduz uma estrofe magoada,

um poema de antigo esplendor, meu Sertão, meu amor.

 

Vi lá nas plagas do Sertão, neste mês de devoção, Mês de maio, mês de amor

Minha Maria tão bonita, com seu vestido de chita, carne cheirando a flor,

Vai- lhe querer bem neste terra de ninguém, que padece e não se vê,

Lá se foi minha Maria, flor efêmera de uma dia, fina flor do Mussumbê

 

Foi simbora e não voltou e com ela o coração, deste pobre trovador, 

Que é mais triste que o Sertão. Meu Destino é viver só, sem amor, sem ilusão.

Cada sonho se fez pó, folhas secas no chão.

O deserto que hoje sou, e poeira amortalhou os meus sonhos tão gentis,

Enfrentando a dura sorte, como um sertanejo forte, um dia serei feliz.

 

Os longos períodos de secas contribuíram para se criar uma imagem estereotipada do Sertão nordestino, a de terra miserável, marcada pela estiagem, cujo drama teria como consequência retirantes e flagelados fugindo da seca, figuras esqueléticas a mendigarem um prato de comida, a simbólica caveira de uma vaca encravada numa estaca de cerca, escangalhando todo o cenário sertanejo, que de tão cantado e retratado em diversas obras da literatura e da música, acabaram virando um clichê falso, a servir tanto para produções eivadas de um panfletismo ingênuo, quanto para criações artificiais, onde aborda-se de forma superficial o problema. É que não enxergam a questão da concentração de terra como grande obstáculo a uma maior produtividade, uma vez que havendo uma divisão agrária, com incentivo e apoio, a situação do campo seria outra.

Hoje já começa a brotar uma nova e mais real imagem do Sertão nordestino, a de uma terra cuja paisagem social vem sendo modificada velozmente, quer seja pelos maciços investimentos sociais na região, quer seja pelos efeitos decorrentes da globalização, da produção aos bens de consumo que vieram com uma maior oferta de empregos, consequentemente ampliação de mercados e oferta de crédito fácil. Antenas parabólicas tomam há mais de uma década os tetos das casas, às vezes até de taipa. Motos tomam o lugar de cavalos no transporte e no atalho e tangida do gado. Ao mesmo tempo em que se tem mais acesso a escolarização, maior leva de sertanejos tem se tornado presa fácil do consumismo modista e da alienação da cultura de massa. Ao mesmo tempo, a interiorização das universidades, a chegada de UPAs e de SAMUs, barragens, poços, eletrificação rural, seguro-safra, contribuíram para fixar o homem no campo e melhorar a qualidade de vida dos sertanejos.

O Sertão do Moxotó-Ipanema é uma microrregião sertaneja, caracterizada pela hiperxerófila, vegetação caatigueira acentuadamente fechada, mais seca, quente e cheia de espinhos, que as demais microrregiões sertanejas. É também no Vale do Moxotó que o Sertão se revela como lugar diferenciado pela fertilidade em múltiplos sentidos. A história da colonização do Sertão do Moxotó inicia-se em 1720. Pantaleão de Siqueira Barbosa, bandeirante português, após prear índios e adentrar sertão adentro, chega às margens do Rio Moxotó, onde finca uma cruz na localidade conhecida como poço do boi, mas tarde Poço da Cruz. Observara no Estado de Sergipe que os negros que eram fugitivos tinham um perfil em comum: o de possuir mão-de-obra qualificada, negro carpinteiro, pedreiro, mestre de couro etc. Por isto não aceitavam a escravidão para o trabalho pesado, safando-se das fazendas escravocratas e, mesmo quando recapturados pelo capitão-do-mato, preferiam morrer chicoteados no “tronco” do que voltar a aceitar a vida de escravo no serviço bruto. Recebiam a alcunha de “Negro safado”, que era negro imprestável para o serviço braçal duro, sendo portanto um negro sem valor comercial. O que fez Pantaleão? Saiu comprando quase de graça estes “negros  safados”, mas de mão-de-obra qualificada, e os trouxe para as margens do Rio Moxotó, onde ali implantou um modelo diferente de colonização baseada em novas formas de tratamento para os negros: senzalas abertas, castigos físicos como o “Tronco” abolidos, os negros passaram a comer na mesa com o seu senhor e tinham direito aos domingos para o lazer, caçar, pescar, tomar banho de rio. Este modelo fez com que os negros ajudassem Pantaleão a construir uma das maiores fortunas do Nordeste brasileiro daquele período. 

Pantaleão comprou outras fazendas no Sertão e no agreste, além de Engenhos de Acúcar na zona do Mata e outros estados, espalhando assim o sangue dos Siqueira do Moxotó, misturado ao sangue negro e indígena pelos mais diversos recantos do Brasil. Falecido em 1793, foi sepultado na povoação de Jeritacó, fundada por ele. Como podemos observar, a mínima reforma social pra época implantada por Pantaleão Siqueira no seu projeto produtivo trouxe prosperidade, apesar de manter as raízes seculares da escravidão e do Latifúndio, de origem feudal, que em nosso País alicerçou-se nas capitanias heriditárias, com toda sorte de injustiças e desigualdades sociais. Da sua descendência surgiram, por exemplo, o Siqueira Campos do Forte de Copacabana; o Cardeal Arcoverde, primeiro Cardeal da América Latina; e os Mestres das ciências e das Letras: Ulysses Lins de Albuquerque, poeta, memorialista, advogado e educador; e Alcides Lopes de Siqueira, poeta, contista, ensaísta e Médico, consolidando o Moxotó como um vale fértil de poesia, literatura e vida inteligente.

Algumas peculiaridades do Moxotó o fazem uma região especial, a exemplo da Lagoa do Puiu, em Ibimirim. Metade de água doce e outra metade de água salgada; a Cabra Moxotó, raça nativa que já foi cantada até por João Cabral de Melo Neto no “Poema da Cabra!”, cabra considerada pé-dura, mas que tem o leite mais forte e uma pele extraordinária, e por ser natural desta região possui incrível resistência e maior capacidade de adequação à terra e às mais assoladoras secas. Além Disto, o  Rio Moxotó, conhecido pela fúria encantadora de suas águas em época de cheias, e da Serra de Jabitacá, que localizada no Moxotó, na sua majestosidade abraça as três ribeiras principais do Sertão: a do próprio Moxotó, a do Pajeú, pernambucanos, e a do cariri paraibano. Esta serra é fabulosa, quer pela abundante flora e diversidade de sua fauna e riquezas naturais como fonte de águas cristalinas, quer pelas histórias lendárias que carrega. Vale salientar ainda a beleza da região dos Campos, baixio da serra, habituado por possíveis descendentes de europeus. E o que dizer do Vale do Catimbau? 

”As montanhas encontram-se encostas abruptas e vales abertos. É uma região de intensa erosão. As formações geológicas são compostas de arenitos de diversas cores e tipos que datam de mais de 100 milhões de anos. Apresenta cerca de duas mil cavernas e 28 cavernas-cemitério. Considerada Área de Extrema Importância Biológica, a unidade apresenta também registros de pinturas rupestres e artefatos da ocupação pré-histórica datados de pelo menos 6000 anos. Os pesquisadores acharam 27 sítios arqueológicos no Vale do Catimbau. Com isso, o Catimbau é considerado o segundo maior parque arqueológico do Brasil, perdendo somente para a Serra da Capivara, no Piauí. Um dos sítios arqueológicos mais importantes é o de Alcobaça, localizado em um paredão rochoso em forma de anfiteatro. As pinturas rupestres nesta localidade foram efetuadas por distintos grupos étnicos de épocas também distintas, apresentando diversidade nas técnicas e estilo de pintura. Dentro do parque há diversos pontos de visita, inclusive a Pedra Furada. Acredita-se que há milhares de anos o local onde fica a Pedra Furada era coberto pelo oceano e que a pedra se furou a partir da erosão causada pelo vento e pela água das chuvas. O Vale do Catimbau possui elevações com altitude de 900 metros.” (Eduardo da Costa Aguiar, Turismo sustentável no Vale do Catimbau). 

Há ainda registros de fósseis de animais pré-históricos encontrados na Lagoa dos Marinheiros e pinturas primitivas registradas em rochas nos sítios Boqueirão e Barra, no Município de Sertânia.

O Moxotó vem obtendo um reconhecimento pela força de sua literatura, seja em poesia, seja em prosa. Nomes como o ficcionista de Sertânia Marcelino Freire; o Poeta Corsino de Brito, ”O Bardo do Piutá”; e o vate Carlos Alberto Cavalcanti (Arcoverde-PE), que acumulam projeção e prestígio Brasil e mundo afora através de premiações e publicações. É na Poesia que três Mestres constituem O Tripé da Poesia Moxotesca: Ulysses Lins de Albuquerque, “O Trovador do Moxotó”, Waldemar Cordeiro, “O  Gênio do Lirismo”, e Alcides Lopes de Siqueira, “O Menestrel do Sertão”. O primeiro e o último fazem parte dos Siqueira do Moxotó, que dentro da poesia moxotesca constituem uma Raiz ou Corrente, composta pelos mesmos e mais o filho do último, Mozart Lopes de Siqueira, Rosa Ignez, Inah Lins, Bartolomeu Brasiliano, Carlos Celso, Duval Brito, Luiz Wilson, Paulo Mariano, Walmar, Rildo Mariano, Ada Siqueira, Zito Jr., Josessandro Andrade, Leonardo Mariano, Luciano Magno, dentre outros.   

 

(Continua na próxima quarta-feira, dia 16)

 

--

Josessandro Andrade é um poeta e professor de Sertânia (PE). Publicou o Livro "Com Cheiro de mar e Quixabeira", (Moxotó, 2015), além de mais de dez folhetos de Literatura de cordel de sua autoria. Como Compositor, tem músicas em parceria com dezenas de compositores parceiros. Participação com poemas publicados em Várias Antologias Poéticas Internacionais, Conexões Atlânticas (Poetas brasileiros e Portugueses), vol.I (2017) e vol.II (2018) e Ecos do Nordeste

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook