Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Cultura

Kely Nascimento: “Amor é escolha”

Por: SIDNEY NICÉAS
A atriz Kely Nascimento conversou com o Tesão sobre a micro-série Eu Escolhi Amar e seu trabalho social

Foto: Divulgação/Arte Tesão Literário

04/09/2022
    Compartilhe:

*por Sidney Nicéas

A arte traz um componente que se conecta diretamente com o humano: a sensibilidade. Sentir é tarefa somente para os que têm Inteligência Natural - pelo menos ainda, num mundo que vai mergulhando no desenvolvimento da Inteligência Artificial. A atriz paulistana Kely Nascimento é o retrato perfeito dessa máxima. Comandando o Instituto Renascimento em São Paulo, Kely fez do seu propósito de vida a própria vida. Tendo lançado recentemente a micro-série Eu Escolhi Amar, ela faz da arte e da doação (em sua expressão mais ampla) mantras de ação.

Antes de falar da série propriamente dita, vale destacar o trabalho primoroso que Kely vem fazendo através do Instituto Renascimento, entidade sem fins lucrativos fundada por ela e o marido Norton Nascimento, falecido em 2007 em decorrência da Hepatite C. Norton, que muitos consideram o primeiro galã negro da televisão brasileira, teve uma luta pela vida que acabou definindo o trabalho, e a vida, de Kely. Antes da Hepatite C, Norton teve um sério problema cardíaco e precisou de um transplante de coração. Foi após conseguir um novo coração que ele e Kely decidiram criar o Instituto Renascimento e utilizar a arte como instrumento principal para falar sobre doação de órgãos, prevenção, tratamento de doenças e a importância da família como cuidadora.

“O Instituto Renascimento era um sonho que eu e o Northon tínhamos para facilitar o entendimento das pessoas sobre doação de órgãos através da arte. Continuei com o trabalho mesmo após o falecimento dele e já são 15 anos fazendo arte no melhor sentido da palavra: para falar sobre amar e doar”, explica, lembrando que são vários os temas e ações realizados pela entidade, que tem a missão de levar conhecimento através de cores, sonhos e esperanças a muitas pessoas nos mais diversos lugares, combatendo a desinformação. “A falta de informação sobre doação de órgãos ou qualquer outro tema importante para nossas vidas é o que atrasa o quanto poderíamos ver as estatísticas mudadas. É nítido que o trabalho das muitas instituições que todos os dias trabalham pela conscientização tem mudado muito esse quadro. E a maior parte dessas instituições é de voluntariado. Ou, seja, o amor pelo próximo é uma escolha”.

Em relação à micro-série Eu Escolhi Amar, que agitou as redes do Instituto no mês de agosto, ela nasceu do desejo de transformar dor em amor, pesadelo em sonhos, medo em coragem, desistência em esperança. A micro-série, que mostra em 12 pequenos episódios as nuances e fatos que mais ocorrem em relacionamentos abusivos, partindo de encontros com vítimas dessa situação, faz parte de um projeto amplo, que aborda de diversas formas artísticas a superação de um abuso, na infância ou fase adulta. A micro-série vem dando o que falar.

“Recebemos muitas mensagens pelas redes sociais do Instituto de mulheres que não entendiam que estavam vivendo um relacionamento abusivo. E que, quando assistiram, de uma maneira tão simples como foi colocado na série, enxergaram sua realidade e estavam refletindo como mudar a situação, mesmo sabendo que não vai ser fácil. Se uma única mulher enxergasse isso, já teria valido ter feito o que fizemos”, explica, satisfeita com o resultado.

Eu Escolhi Amar, cujos episódios podem ser conferidos no canal do Youtube do Instituto Renascimento, é apenas um dos vários projetos desenvolvidos pelo Instituto. No escopo da entidade há ações com mulheres em penitenciária, curtas-metragens sobre doenças raras e a necessidade de inclusão, peças teatrais que trazem a temática da doação de órgãos como foco, dentre outros que tocam, sempre, em temas importantes de saúde física, emocional e espiritual. A magia do trabalho cênico, seja no Teatro ou no Audiovisual, destacam sempre o renascimento, afinal, dor e amor são ingredientes indispensáveis para uma forma de melhor compreender a vida, e a si mesmo. 

“Eu acho que a dor é uma grande porta pra avaliarmos o que realmente faz sentido na vida. Grande parte de nós entende que amor é sentimento. Eu entendo que o amor é uma escolha. Escolha de todos os dias construir mais compreensão, perdão, admiração, sonhos e lealdade. A escolha pelo amor tira do coração o egoísmo, porque o amor é doação. Acredito que quando nos afastarmos do romantismo vendido pelos filmes e novelas e entendermos que o amor existe pelas nossas atitudes, haverá menos sofrimento”, afirma Kely.

Essa é a segunda vez que Kely Nascimento aparece no Tesão Literário: a primeira foi no programa para web, pela TV Pimenta, em março de 2018, onde conversou sobre várias coisas e, especialmente, sobre a peça Começar Outra Vez, que aborda a doação de órgãos (assista a entrevista com Sidney Nicéas aqui). Agora, mais de 04 anos depois, a volta vem aqui no Blog, ampliando e reverberando mais desse trabalho que é (ou deveria ser) exemplo para artistas, governos e entidades que atuam para transformar vidas - afinal, o mundo precisa sempre é de amor. “Eu gosto de escrever e falar sobre o amor porque acredito que somente o amor é a escolha para fazer, pelo menos com os mais próximos que vivemos, um mundo melhor”. Kely sabe o que diz. E faz.

Para compreender ainda mais tudo isso que você leu até aqui, vale conferir abaixo a entrevista que fizemos com Kely Nascimento na íntegra. Ao final, você tem as redes do Instituto Renascimento para entrar em contato, contribuir ou se aprofundar ainda mais nesse belíssimo trabalho.


TESÃO LITERÁRIO- 15 anos sem Northon Nascimento… Como tem sido continuar o legado seu e dele com o Instituto Renascimento, sempre com projetos fiéis à natureza da instituição?

KELY NASCIMENTO- O Instituto Renascimento era um sonho que eu e o Northon tínhamos para facilitar o entendimento das pessoas sobre doação de órgãos através da arte. Continuei com o trabalho mesmo após o falecimento dele e já são 15 anos fazendo arte no melhor sentido da palavra: para falar sobre amar e doar.

TL- Como tem sido a luta para manter o Instituto Renascimento ativo? Como é possível também ajudar?

KN- Não é tarefa fácil manter uma instituição sem fins lucrativos funcionando. Existem custos mensais independente de estarmos em produção ou não. Quando as contas do Instituto apertam (rsrsrs), eu mesma sou a mantenedora através de trabalhos que faço que não são através do Instituto.

TL- A dor é uma grande porta para se aprender a amar, porta esta que deveria ser desnecessária? Por que temos tanta dificuldade em aprender somente pelo amor?

KN- Eu acho que a dor é uma grande porta pra avaliarmos o que realmente faz sentido na vida. Grande parte de nós entende que amor é sentimento. Eu entendo que o amor é uma escolha. Escolha de todos os dias construir mais compreensão, perdão, admiração, sonhos e lealdade. A escolha pelo amor tira do coração o egoísmo, porque o amor é doação. Acredito que quando nos afastarmos do romantismo vendido pelos filmes e novelas e entendermos que o amor existe pelas nossas atitudes, haverá menos sofrimento. 

TL- A micro-série Eu Escolhi Amar repercute as “pequenas-grandes” violências cotidianas comuns a muitas mulheres. Qual impacto vocês já conseguiram mensurar após a veiculação dos 12 episódios?
KN-
Recebemos muitas mensagens pelas redes sociais do Instituto de mulheres que não entendiam que estavam vivendo um relacionamento abusivo. E que, quando assistiram, de uma maneira tão simples como foi colocado na série, enxergaram sua realidade e estavam refletindo como mudar a situação, mesmo sabendo que não vai ser fácil. Se uma única mulher enxergasse isso, já teria valido ter feito o que fizemos. E eu agradeço a Deus por ter conseguido alcançar muito mais do que uma mulher com esse trabalho que tem um único objetivo: encorajar mulheres que estão vivendo uma relação de abuso a acreditarem que podem começar outra vez. Esse projeto foi feito sem qualquer tipo de patrocínio, mas com a generosidade de toda equipe que participou pelo desejo de ser um participante efetivo da causa, e não somente participar com frases de efeito em redes sociais.

TL- Como foi gravar esses episódios e representar questões, infelizmente, ainda tão presentes na vida de muitas mulheres?

KN- Não foi fácil. Mesmo eu sendo atriz há muitos anos, mesmo podendo contar com a generosidade e sensibilidade do Ricardo Teodoro, o ator que trabalhou comigo, com a competência da Thatiana Moraes, que dirigiu todo o projeto, não foi fácil porque enquanto eu gravava, eu sabia que eu estava numa cena, mas que muitas mulheres estavam vivendo essa realidade dentro de suas casas. 

TL- O Instituto promove há vários anos uma oficina de teatro no Presídio Feminino de Franco da Rocha. Conta qual o legado desse trabalho, especialmente olhando em retrospectiva.

KN- Em 2004 eu e o Northon começamos o projeto na Penitenciária Feminina de Franco da Rocha. Depois de um tempo, as reeducandas foram transferidas para Campinas, onde seguimos com o trabalho. Desde então, o projeto segue para despertar, através da arte, nas mulheres privadas de liberdade, um olhar diferente para as situações difíceis que elas viveram e que têm medo de viver novamente quando cumprirem a pena. Fazer com que elas se enxerguem como pessoas de valor e que não precisam voltar para a criminalidade, que existe caminho, se elas realmente quiserem viver uma transformação. 

TL- Por que a ressocialização não é moeda corrente nas políticas públicas prisionais? E por que a arte não recebe o devido valor governamental também nesses processos?

KN- Confesso que não entendo das políticas públicas prisionais. Mas do que tenho percebido durante todos esses anos é que qualquer movimento dentro de uma penitenciária precisa ser muito bem elaborado e muitas vezes necessita de efetivo que não é suficiente nem mesmo para o básico. É tudo burocraticamente muito trabalhoso e as pessoas envolvidas nas aprovações têm visões muito distintas. Porém, conheci unidades penitenciárias com diretores muito dispostos e que receberam muito bem a proposta do Instituto Renascimento, tanto para as oficinas como para as apresentações dos espetáculos sobre doação de órgãos (COMEÇAR OUTRA VEZ) e sobre o de prevenção a hepatites virais e HIV (DOCES LEMBRANÇAS).

TL- Falando em arte, a produção teatral do Instituto Renascimento sempre está atrelada a temas de conscientização, como a doação de órgãos. Como você enxerga esse tema hoje? Ainda há muito para conscientizar?

KN- Existe um provérbio que eu gosto muito e sempre digo que em qualquer questão, o povo sofre por falta de conhecimento. A falta de informação sobre doação de órgãos ou qualquer outro tema importante para nossas vidas é o que atrasa o quanto poderíamos ver as estatísticas mudadas. É nítido que o trabalho das muitas instituições que todos os dias trabalham pela conscientização tem mudado muito esse quadro. E a maior parte dessas instituições é de voluntariado. Ou, seja, o amor pelo próximo é uma escolha. Ainda temos muito pra aprender, caminhar e informar para que as pessoas que estão na fila possam ter mais esperança de uma nova vida. Embora o Brasil seja um dos principais países transplantadores e com o procedimento ofertado pelo Sistema Único de Saúde, sabemos que, para as mais de 50.000 pessoas que estão na fila aguardando por uma doação, isso só fará sentido quando chegar a vez delas. E infelizmente, existe um percentual que não resistirá a espera.

TL- O Instituto também tem um projeto chamado Cia. de Arte Rara, que visa trabalhar as artes cênicas com pacientes de doenças raras. Como tem sido essa experiência?

KN- A Cia. de Arte Rara nasceu depois do primeiro projeto para falar sobre doença rara que o Instituto foi convidado para realizar. Porém, tudo isso aconteceu na loucura da pandemia e estamos retomando este ano as atividades que precisam ser presenciais com esses participantes, já que eles são raros. 

TL- O curta-metragem Ave Rara, que trata do Raquitismo XLH na fase adulta, foi muito bem recebido por crítica e público. Esse é só o início de mais trabalhos abordando questões semelhantes? O que vem por aí?

KN- O Ave Rara tem sido muito bem recebido pelo público e pelas instituições de saúde, que enxergaram nele um instrumento muito especial para informar, desmistificar e quebrar preconceitos sobre pacientes com doenças raras. Depois dele produzimos A HISTÓRIA DE CADA UM, que aborda Amiloidose Hereditária, que também é uma doença rara; CENAS DA VIDA, que fala sobre Transtorno Maníaco Depressivo (Transtorno Bipolar); e estamos no meio de uma produção sobre uma outra doença rara chamada Doença Ocular da Tireóide. Os curtas ainda não estão disponíveis abertamente ao público porque estão participando de festivais de cinema, onde algumas exigências de veiculação são exigidas. Mas, a partir de outubro já será possível assisti-los. É só acompanhar as redes sociais do Instituto Renascimento (instagram @instituto.renascimento / Youtube: Instituto Renascimento) e o nosso site: www.institutorenascimento.org.br que sempre tem tudo atualizado. 

TL- Olhando para o Brasil de hoje, qual a receita para se ter esperança?

KN- Dizem que tudo o que escrevo tem as palavras "lindo, colorido, mágico, amor, fé, doar, sonhar”... E eu brinco que existe William Shakespeare, Nelson Rodrigues e Kely Nascimento (rsrsrs), cada um com sua forma de se expressar e compartilhar com o mundo suas crenças e valores. Eu gosto de escrever e falar sobre o amor porque acredito que somente o amor é a escolha para fazer, pelo menos com os mais próximos que vivemos, um mundo melhor. E se, cada um de nós conseguir mudar um pouquinho desse pequeno universo particular, consequentemente (quase de uma forma pirâmide hahahah) essa transformação vai acontecendo. Pouco a pouco, dia a dia, sabendo que vamos errar e é isso, erros e acertos, mas sempre perseverando e acreditando que existe um Deus de Amor para fortalecer e acolher nosso coração sempre que precisarmos. 

TL- Amar é?

 KN- Uma escolha de ser doador todos os dias, sem esperar nada em troca, porque pra ser amor precisa ser incondicional. 

 

--

PARA SEGUIR E ASSISTIR À MICRO-SÉRIE EU ESCOLHI AMAR

https://www.youtube.com/user/InstRenascimento  

PARA SEGUIR O INSTITUTO RENASCIMENTO

https://www.instagram.com/instituto.renascimento/  

PARA SABER MAIS SOBRE O INSTITUTO RENASCIMENTO

http://www.institutorenascimento.org.br/  

 

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook