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Literatura

Luís Boumann e a escrita como terapia

Por: SIDNEY NICÉAS
Com TEA em Hiperfoco, Luís lançou um livro aos 11 anos e mostrou o poder terapêutico da literatura

Foto: Divulgação

09/10/2022
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*por Sidney Nicéas

Você já deve ter ouvido falar sobre a Biblioterapia, método que, desde o século passado, estimula a leitura para desenvolver a cura de diversos males, da Depressão às angústias existenciais. Ou sobre a Escrita Terapêutica, que receita a escrita como método para melhorar a autoestima e até a saúde física. Ambas são extremamente válidas e costumam ser desenvolvidas por recomendação médica, todavia, há casos “avulsos”, cuja leitura e escrita acabam acontecendo de forma natural e derrubam qualquer barreira. Isso pode ser comum para quem tem TEA - Transtorno do Espectro Autista e o Hiperfoco oriundo do mesmo, como o pequeno escritor Luís Boumann. O resultado, no caso de Luís, foi a escrita do livro A Vida de Edward - Diário de um Garoto Normal (Cria Criança Editora), lançado este ano, o primeiro de uma série.

Diferentemente da Escrita Terapêutica, que propõe uma espécie de escrita de diário como receita, Luís, hoje com 11 anos de idade, foi além: ele partiu da leitura para a escrita criativa, criando uma obra de ficção e dando vida a um universo particular. “Luís é um aluno típico, atualmente no 6º ano, que tem dificuldades em algumas matérias, como a maioria da sua idade, que precisa de disciplina e rotina de estudos. A escrita para ele entra na parte do lazer. Quando está inspirado, fica incrivelmente focado (embora tenha TDAH também) e produz numa velocidade espantosa. Ele escreveu de uma vez só 7 livros da série de Edward em seis meses e já está no oitavo. Estamos na luta para acompanhar o ritmo dele na edição mas não alcançamos, ele está muito à nossa frente”, explica Paula Boumann, mãe de Luís.

O começo de tudo foi com Diário de um Banana, série infanto-juvenil de enorme sucesso mundial. Luís conheceu e mergulhou na leitura com todas as forças que o Hiperfoco, que faz com que desenvolva um interesse profundo por um assunto restrito, pode proporcionar. “O interesse era tamanho que ele, na época um menino de 09 anos, lia um livro em um final de semana. De tanto recontar as histórias de maneira repetitiva (outra característica dele), uma amiga perguntou: "porque você não cria sua própria história?". Daí ele despertou interesse, pegou o "jeitão" desse tipo de leitura e com um caderno velho da escola criou o Edward e os demais personagens”, conta Paula.

Para ela e o pai, Francisco Boumann, o interesse pela leitura e pela escrita foram uma oportunidade ímpar para lidar com o TEA e a TDAH. “Quando ele fez a primeira história, leigos como somos, fomos procurar a opinião de pessoas mais capacitadas, então recebemos incentivo das terapeutas dele, de alguns amigos ligados à cultura, e também fizemos uns experimentos com alguns familiares, todos aprovaram. Assim, depois de encontrar uma editora que só trata com autores mirins, realizamos o trabalho de edição, junto com Luís o tempo todo, e nasceu a publicação, quase um ano depois da escrita. Luís já tem mais 8 histórias da série prontinhas nos caderninhos de rascunho dele para iniciarmos a edição, assim como já tem a história de Edward toda desenhada na cabeça dele. É incrível o que ele pode produzir ainda”.

Paula não esconde a alegria em constatar o poder da leitura literária, mais ainda quando ela faz ponte para a escrita. “Eu não tenho dúvida nenhuma que o fato de Luís escrever é o reflexo de um menino que sempre leu muito. O primeiro presente que ele ganhou ainda na barriga foi um livro. A gente oferecia livro a ele até no banho, ele pedia livros como presente. Hoje ele não é um aluno “nota dez”, mas o melhor desempenho dele é em redação. As redações dele são incríveis, têm muito conteúdo. A leitura tem um efeito acumulativo muito virtuoso, é fácil perceber até pela maneira que a pessoa se expressa verbalmente”, fala com orgulho.

Outro aspecto interessante nessa história é que Paula e Francisco não são leitores vorazes de Literatura, mas sempre procuraram despertar no filho o interesse pelos livros. “Nossa formação básica não é de leitores, somos da área de exatas. Porém, sempre quisemos que Luís experimentasse os livros desde cedo. Lemos com ele desde sempre, eu (a mãe) um pouco mais do que o pai. Porém o dom de produção textual de Luís é totalmente genuíno, particular e espontâneo e por isso sempre o incentivaremos e faremos o possível para levá-lo onde ele quiser com este propósito. Ele já afirmou que quer ser escritor e a gente sempre diz: você já é!”.

 

EXPLICANDO TUDO…

Vale demais tentar compreender melhor os efeitos da leitura e da escrita no ser humano, mais ainda quando diagnosticados transtornos clínicos. No caso de Luís Boumann, a condição do Hiperfoco, que não é tão benquista no meio médico, justamente por limitar as opções da criança em relação ao convívio social, acabou sendo positiva para os pais. “O hiperfoco não é visto pelos profissionais assistentes como algo positivo, a princípio, nem que deva ser incentivado, mas pelo contrário, que os interesses da criança devam ser amplos e irrestritos. Porém, no caso específico de Luís, que é uma criança que tem dificuldades de comunicação com seus pares e de manter relações duradouras, este projeto significa para nós, que o assistimos, um instrumento para ele se conectar melhor através da escrita com as crianças de sua idade”, explica.

Paula vai além. “É importante ressaltar que o hiperfoco é uma característica do TEA (Transtorno do Espectro Autista) e que às vezes pode ser confundido com superdotação, mas só quem tem uma criança com TEA sabe quão difícil é lidar com os interesses restritos. Até porque o TEA não é só hiperfoco, mas sim tem muitos outros aspectos que precisam de ajuste e, particularmente, cada família vai encontrando sua maneira de lidar com essas “diferenças”. Claro que a gente gostaria que o hiperfoco fosse sempre algo “útil” para ele, do ponto de vista pedagógico. Nem sempre é possível. Então, enquanto pais, nos resta observar e incentivar o que ele tenha de melhor”, revela.

Ao explicar melhor como tudo se deu com o filho, Paula acaba revelando como participar da vida da criança ajuda no processo. “Luís apresenta hiperfoco desde muito pequeno, os interesses dele vão mudando ao longo do tempo. Por um momento o hiperfoco dele foi marcas de carros, trens… Foi quando, num determinado momento, ele desenvolveu hiperfoco pela série de livros “Diário de um banana”, a ponto de ler com tamanho interesse que é capaz de citar a página e o livro que contém um determinado fato. Este foi o melhor hiperfoco que o incentivamos até hoje, a maioria dos interesses restritos nos incomoda. Mas este fez com que ele canalizasse um interesse restrito ao seu favor e produzisse uma coisa maravilhosa como resultado”, conclui.

Segundo a psiquiatra Laila Almeida, o caso de Luís se enquadra bem na característica definida como superseletividade do estímulo. “Apesar de provocar uma atenção mais restrita, a hipersensibilidade sensorial costuma produzir uma excelente atenção aos detalhes, fazendo com que o indivíduo com Hiperfoco possa desenvolver bem determinados talentos naquela área específica. Escrever um livro é um ótimo exemplo. E não será surpresa se Luís vier a se tornar um escritor profissional”, explica a médica.

 

A VIDA DE EDWARD - E DE LUÍS

Edward é um menino de 10 anos que tem um irmão mais novo que é um pestinha, outro mais velho que tem uma banda de rock, um super amigão e uma família como tantas outras, cheias de situações engraçadas e atrapalhadas. Luís mistura um pouco de fantasia, situações reais e outras que trouxe de suas leituras, e junta tudo nesse universo dele. “Quem me deu a ideia para escrever o livro foi uma amiga minha chamada Priscila. Eu fazia umas histórias para ela antigamente, mas aí ela falou que não estava gostando tanto. Aí ela disse: Faz as suas próprias histórias. Eu recusei, só que mesmo recusando, depois de um tempo fui escrever o livro”, conta o autor mirim Luís Boumann.

É interessante notar o poder de observação de Luís da realidade que o cerca, assim como das histórias que lê. Tanto que, ao perguntarmos sobre em quê o mundo de Edward se difere do nosso mundo, ele respondeu sem cerimônias: “Basicamente nada. Diferir é meio que diferenciar o negócio, sabe? E eu basicamente achei o mundo de Edward muito parecido com o nosso, da vida real. Tanto que até falo que o livro se passa na vida real”.

A ficção, assim, funciona para ele como parte da realidade, descoberta cedo do real poder desse tipo de literatura. “Olha, Não sei a sensação exata (quando cria essas histórias), mas me sinto bem feliz e bem pensativo também. Antes de escrever o livro: vida normal. Depois de escrever o livro: vida normal, porém, com um destaque a mais, que é o meu livro. O mundo sem ler e escrever é um mundo chato”, finaliza com sabedoria.

 

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