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Opinião

Luta Cruz: a revolução dos pelos

Por: SIDNEY NICÉAS
A escritora e professora Iaranda Barbosa apresenta seu ensaio baseado e inspirado no trabalho da cantora e ativista afro-chilena Luta Cruz.

Foto: Reprodução/www.romantica.cl

13/09/2023
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*Por Iaranda Barbosa

Luta Cruz: a revolução dos pelos

Doçura, sensibilidade, meiguice, delicadeza, beleza, fragilidade. Estariam estas características relacionadas à mulher negra? Mais ainda: a uma mulher negra com barba e pelos no peito, nas axilas, nas pernas, na virilha? Ou seriam suja, violenta, sexual, escrava, exótica os termos mais associados, devido à herança racista e misógina da qual somos fruto? É ancorada nesta e em outras problemáticas que a cantora, compositora e ativista afro-chilena Luta Cruz nos apresenta o Manifiesto antirracista:

 

Los mismos ojos de mi hermana

Son los mismos ojos de mi madre

Ambas apuntadas por igual

 

Negras

Sucias

Cimarronas

Violentas

Sexuales

Esclavas

 

Y pienso

¿Tengo tiempo para preguntarme acaso si soy negra cuando me golpean en la calle?

 

¿Cuando me exotizan?

¿Cuando me preguntan cuanto cobro?

¿Cuando quieres tocar mi cabello?

¿Cuando crees que no entiendo lo que me dices?

 

Y aun así te tolero

Y te acercas a mí para seguir aprovechándote

Disfrutan mucho nuestro silencio

Adoctrinan nuestra identidad

Toman nuestra música y la venden al mejor precio

Siguen creyendo que estamos solos

Y todo lo de afuera estuvo adentro mientras sonaba la voz de mi madre que me recordaba en diferentes ocasiones

Tienes más oportunidad por ser clara, mulata, negra clara, morena, curiche, birracial

Y el espejo me gritaba

¿quieres un lunar en el rostro?

¿Uno sexy, como la Marilyn?

Marilyn Monroe

La mujer de todas las épocas

 

Y yo con mi cabello liso y rubio y un maquillaje blanco mirándome al espejo me preguntaba

¿soy ahora blanca

 

Os versos de Luta Cruz nos proporcionam uma visão panorâmica de entraves, dilemas, inquietações, violências e atravessamentos que as mulheres negras vivenciamos ao longo da vida. Mãe e filha padecendo das mesmas discriminações devido ao tom de pele mais retinto. A irmã birracializada transitando no limbo: por um lado, na rua, escura o suficiente para ser bonita ou respeitada, por outro, em casa, clara demais para se autodenominar negra. Identidade silenciada, cultura apropriada, corpo invadido. As problemáticas se intercruzam no manifesto e nos impelem a refletir sobre a encruzilhada na qual se encontram mestiças, retintas e tantas outras que compõem o colorismo e a multirracialidade latino-americana e que pouco, ou quase nunca, disfrutam de privilégios e espaços de poder.

Foi em meio a esses conflitos que artista em tela enfrentou contextos de violência advindos de relacionamentos abusivos compostos por agressões físicas e psicológicas. De acordo com a própria cantora, os abusos do primeiro relacionamento causaram perplexidade devido ao fato de que quem a agredia era a companheira que, apoiada pela mãe, endossava o discurso de exotismo ao expor Luta Cruz aos amigos e familiares, classificando-a pejorativamente como negra e peluda. Logo, a homoafetividade não é garantia de blindagem para o preconceito nem tampouco para a misoginia. Com relação ao segundo relacionamento, agora heteroafetivo, a afroativista revela que, além de situações semelhantes às anteriores, nas quais as mulheres da família estavam envolvidas, ela era impedida de participar de festas e comemorações familiares, devendo, dessa maneira, ficar reclusa em uma casa vizinha e comer em um prato separado. 

É imprescindível ressaltar que precisamos evitar julgamentos e juízos de valor referente à normalização e à naturalização com a qual Luta Cruz encarou até determinado momento as atitudes violentas. É importante que compreendamos o contexto no qual ela estava inserida e como se deu a construção de sua personalidade em um país que apenas em 2019 reconheceu o povo negro como povo tribal afro-chileno e que, também em 2019,  foi palco da morte de uma imigrante haitiana em condições suspeitas de negligência em um hospital público do Chile, após ser dura e injustamente acusada, pela opinião pública e por órgãos estatais, de abandonar a filha recém-nascida.

Foram esses ambientes e contextos violentos que reafirmavam ininterruptamente a negritude e os pelos de Luta Cruz que a fizeram refletir sobre a sua corporalidade, ancestralidade e sobre o hirsutismo. Reconhecer-se em um corpo que não era do outro, mas dela mesma. Um corpo cuja beleza estava composta por características que ela foi forçada a negar devido aos padrões sociais que a fizeram sofrer ao tentar se enquadrar nos modelos de feminilidade, entre eles, depilar-se.

A rebeldia, sui generis à artista, insurgiu com força e, juntamente com o acolhimento de grupos de mulheres, entregou a Luta Cruz a bússola e o mapa que a direcionaram à consciência de uma negritude localizada num ponto de interseção: embora o “outro” se sentisse legitimado a agredir, ela estava fortalecida o suficiente para enfrenta-lo. O agora livre crescimento dos pelos promoveu a fertilização da negritude, fazendo Luta Cruz se olhar no espelho e encontrar o próprio valor, enxergar-se mulher, senhora de si, artista, ativista, ser humano. O despertar da ancestralidade retirou o véu de Ísis, incentivando-a a enfrentar os agressores. Reconhecer-se negra descortinou o amor aos próprios pelos. Ao mesmo tempo, a liberdade de mostra-se peluda surgiu com a necessidade de acolher outras mulheres e fortalecê-las.

A revolução de Luta Cruz se inicia dentro do corpo-negro-peludo-empoderado e se reflete no rosto feminino com barba e bigode. A voz, a performance e a escrita seriam, a partir de então, as armas utilizadas para resgatar a cultura, a história e as narrativas roubadas pela branquitude. A cantora revoluciona ao organizar festivais com artistas latino-americanos de maioria afrodescendente e movimenta estruturas até então desconhecidas para muitas pessoas. Os trabalhos começam a colher frutos significativos, como vencer o prêmio Queen Awards 2023, na categoria Melhor Artista Projeção de 2023, promovido pela Chilean Queens Playlist. 

Revolucionária, essa mulher peluda nos mostra que o feminismo, ou melhor, o afrofeminismo na América Latina possui demandas muito específicas e questões coloniais ainda muito evidentes nas estruturas dos países, haja vista a condição de objetificação e animalização vivenciada por Luta Cruz nos referidos relacionamentos, e, claro, em diversas situações cotidianas. Os mecanismos de opressão e as tentativas de genocídio dos corpos negros seguem atuantes, sustentadas por instituições, pelo mito da democracia racial e pelas estratégias de apagamento da população negra, isso inclui o genocídio lento diário e gradual, sobretudo, dos mais pobres. Logo, os episódios de violência se fazem presentes nos ambientes laborais, educacionais, na assistência médica. Ou seja, nos espaços públicos e privados.

Nas conclusões dessas breves linhas sobre Luta Cruz é importante trazer à ordem do dia que situações como as experienciadas pela artista infelizmente ainda são comuns em pleno século XXI. O fato de ser uma mulher jovem, bonita, inteligente, instruída e com família não impediu, e ainda não impede, que ela sofresse racismo porque ele está tão presente na estrutura social que a perigosa naturalização faz com que não o percebamos ou o normalizemos. Trazer histórias como as da afrofeminista é lançar um salva-vidas para aquelas que, na iminência de se afogar, consigam colocar o nariz para fora, respirar, chegar à margem e construir sua própria revolução.

Iaranda Barbosa é professora, escritora e crítica literária. Doutora em teoria da Literatura pela UFPE, é autora da novela histórica Salomé (Mirada, 2020), obra finalista do Prêmio Literário Maria Firmina (2021). Também foi curadora e uma das autoras da Antologia das Mulheres Pretas (Mirada, 2021) e de Artemísias: vozes de libertação (Mirada, 2021). Possui tanto textos críticos quanto literários publicados em coletâneas e colabora com o Blog Tesão Literário, de Sidney Nicéas. No perfil pessoal do Instagram, quinzenalmente, realiza o Resenharia. destinado à análise de obras de mulheres vivas. 

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