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Literatura

Museu escatológico

Por: SIDNEY NICÉAS
O barbeiro-poeta Zé Amorim traz mais uma de suas divertidas crônicas, dessa vez falando sobre os poetas de banheiro e seus versos.

Foto: Reprodução/angra.rj.gov.br

01/09/2023
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*Por Zé Amorim

Recentemente, li uma crônica de Giovana Madalosso intitulada Os poetas de banheiro não podem morrer. Não podem e não morrem, os poetas de banheiro não são imorríveis, mas — através de seus textos que, na memória coletiva, se perpetuam — são imortais. A erupção do Vesúvio destruiu Pompeia, porém a pornopompeia resistiu com frases, poemas e afrescos dedicados a frescos, a mulheres, a passaralhos, a Príapo e a fornicações. Hoje os grafites pompeânus e suas latrinidades viraram atração turística.

As inscrições de banheiro já foram objeto de estudo dos poetas Paulo Leminski (procurem palestra dele no YouTube sobre o tema) e Glauco Mattoso, que catalogou alguns poemas quando publicava o Jornal dobrabil. Especialistas no assunto sabem da importância e da criatividade presente nesse tipo de arte, nesses rabiscos de poetas anônimos. Alguns desses textos poderiam muito bem ser rubricados por Catulus, Gregório de Matos, Bocage ou Aretino. 

Os banheiros foram, e ainda são, um Museu Escatológico. Alguns são gratuitos, outros pagos, e sempre que há a limpeza (que nunca fica impecável) troca-se a exposição imediatamente, uma vez que é uma galeria com dinâmica ímpar. As paredes dos banheiros são um palimpsesto ad infinitum reescrito por pornetas, poeteiros e poetoides. É nos banheiros que, às vezes, temos o primeiro contato com a literatura pornolírica, pois poucos são os aedos versados em coprolalia. Os banheiros são fonte de inspiração para vanguardas, Marcel Duchinha, ops, Duchamp que o diga. Esses poemas anônimos viraram long sellers, e os mais famosos fui obrigado a reproduzir no banheiro da minha barbearia.

Acredito que o mais conhecido de todos é um poema descritivo: "Na hora do trono,/a emoção é profunda:/ a merda bate na água/ e a água bate na bunda". Quem não conhece? Outro clássico é um poema realista e metrificado: "Aqui/ toda coragem se acaba,/todo valente faz força,/ todo covarde se caga". E não é verdade? O próximo é um poema bastante inventivo e dotado de neologismos, ou seja, um poema feito por alguém muito desocupado. Vejam só: "Invaginemos! Supunhetamos./ Se de repentelho o mundo se acabaço/. Que siririca de nós?/ Nádegas./ Que injuspiça, que pênis!".

Outra pichação importante é um aviso em forma de quadrinha: "Fezes não é tinta,/ dedo não é pincel./Se quiser vir à patente,/por favor, traga papel". Já ia me esquecendo de um dístico que marcou época: "Escrevi e saí correndo:/pau no cu de quem tá lendo". Há ainda os que estudam conjugação verbal enquanto defecam: "Eu cago/ Tu cagas/ /Ele caga / Nós cagamos / Vós cagais / Eles cagam". Viva a língua portuguesa! Outros são poetas contidos, de poucas palavras, porém, ainda assim, contribuem para expansão do idioma pátrio: "CUCETA". Outro digno de lembrança é um dístico dedutivo com versos heptassílabos: "Pelo grito e pelo berro,/esse cu já levou ferro".

Esses dias descobri um grafite novo, ao menos para mim, com o lema da Revolução Francesa atualizado: "LIBERTÉ, ÉGALITÉ, TOILETTÉ". Tá certo, nenhum direito a menos. Obrar é preciso!  

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

 

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

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