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Literatura

“Não existe ninguém mais desinteressado pela vida do que o dono de uma estante vazia”

Por: SIDNEY NICÉAS
 Conversamos com a escritora Martha Medeiros, que dispensa apresentações e lançou recentemente Conversa na Sala

Foto: Cícero Rodrigues/Arte Tesão Literário

01/11/2023
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Por Ricardo Mituti

Em 2024, a gaúcha Martha Medeiros completa 30 anos de atuação como cronista. E mesmo com a impressão de já ter coberto toda a pauta da existência, como diz, bem humorada, para manter-se como um dos mais importantes nomes em atividade do gênero no Brasil ela é capaz de encontrar assunto numa simples palavra que ouve ou lê em algum momento do dia. “Tenho um radar que está ligado 24 horas”, admite.

A autora acaba de lançar “Conversa na Sala” (L&PM Editores), compilação de 120 crônicas escritas entre 2018 e 2023. Nele, leitores e leitoras mais atentos notarão, entre outros vieses, a paixão de Martha pelos livros, presente em vários de seus textos.

Em entrevista exclusiva ao Blog Tesão Literário, neste portal Ver Agora, a escritora afirma que, se precisasse optar entre ler ou escrever, ficaria com a primeira opção. “[Ler] é uma oportunidade de a gente colocar mais vida dentro da nossa vida”, declara. “Tenho uma frase que digo sempre: não existe ninguém mais desinteressado pela vida do que o dono de uma estante vazia. Tu te interessa pela vida? Então não é só uma questão de praticar esporte, se atirar de montanhas. Leia! Porque tem milhões de outras coisas que você não vai conseguir fazer, mas que tu vai conseguir sentir, através do livro. É um universo inteiro. Não sei como as pessoas ainda não descobriram que essa é a grande invenção revolucionária do mundo.” 

E já que o verbo de ordem é ler, leia abaixo a entrevista com Martha Medeiros. Para a íntegra do papo, acesse-a AQUI no podcast do Tesão Literário.

 

TESÃO LITERÁRIO- Certa vez, num evento em São Paulo, o cronista Luis Fernando Verissimo – a quem você chama de Deus numa das crônicas de seu mais recente livro, o “Conversa na Sala” – em tom bem humorado, disse o seguinte: “crônica é tudo aquilo que você diz que é crônica”. Afinal, cabe tudo numa crônica?

MARTHA MEDEIROS- Cabe tudo numa crônica. Isso é incrível. Acho até que é por essa razão que ela é tão popular; porque é um texto curto e uma zona de respiro dentro de um jornal que traz, geralmente, notícias muito dramáticas, más notícias. A crônica, então, é aquele momento no qual o autor ou a autora coloca sua opinião pessoal e acaba criando um vínculo com o leitor, porque está falando de cotidiano. Na crônica eu posso fazer uma denúncia, escrever poeticamente, falar em tom mais confessional, ser política, fazer uma resenha sobre um filme, contar alguma dor minha, particular, que eu queira compartilhar com os leitores... enfim, acaba virando mesmo uma conversa na sala, e eu digo isso entre aspas porque é o título do meu novo livro. E é incrível, porque a gente está precisando disso, desse diálogo. A crônica consegue essa mágica, de ser um diálogo entre o colunista e o leitor.

 

TL- “Conversa na Sala” reúne crônicas escritas durante a pandemia. Como foi produzir nesse período sem abordar a todo momento a própria pandemia e questões políticas?

MM- Esses cinco anos foram muito importantes para o mundo, mas, pessoalmente, também foram anos muito importantes para mim. Foi dentro desse período que eu fiz 60 anos. Inevitavelmente, a gente acaba fazendo balanços e tudo mais. Também por isso, esses últimos cinco anos foram muito significativos. Quanto à pandemia, eu a sofri pelo que acontecia com os outros, porque para mim, pessoalmente, não foi tão complicado, já que estou acostumada a trabalhar em casa. Gosto de ficar em casa e em isolamento. Então eu me adaptei. Agora, foi difícil, realmente, falar de outro assunto. Principalmente entre 2020 e 2021, porque simplesmente o mundo não falava de outro assunto. Tu pareceria até uma alienada se fosse falar [sobre outros assuntos]. Eu me lembro que teve um show dos Rolling Stones, online. Então eu peguei uma música deles e fiz uma reflexão sobre ela. Depois, fiz uma crônica falando de festa de um, porque as pessoas estavam dançando em casa, e como isso também era importante. Então eu acho que, em vez de ficar dramatizando, tentei pegar alguns aspectos interessantes, bons, que tinham a ver com nossa conexão com a gente mesmo. Eu acho que nunca, antes, a gente teve uma oportunidade tão grande de olhar para dentro. A pandemia, se teve um benefício, pelo menos, foi esse, de fazer com que a gente se reconectasse com a gente mesmo e descobrisse, afinal, quem sou eu, o que eu quero e como vai ser daqui para a frente.

 

TL- Em “Conversa na Sala”, entre outros temas, você fala da relação apaixonada que mantém com os livros e no quanto acredita no poder transformador que eles possuem. Sendo você uma escritora que tem predileção pela crônica, o que te inspira a escrevê-las: os autores e autoras que já leu, os temas do cotidiano ou a necessidade de externar seus afetos e sentimentos?

MM- Tenho diversos motivos para escrever. Mas sempre digo uma coisa: se eu tivesse que optar entre só ler ou só escrever, eu optava por só ler, porque sou uma apaixonada pela leitura mesmo. Com sorte, acabei caindo no mundo da literatura e posso contribuir, também, escrevendo. Mas, juntando as duas coisas, e principalmente a leitura, eu acho que [ler] é uma oportunidade de a gente colocar mais vida dentro da nossa vida. Porque por mais que a gente tenha uma história de vida bacana, ou mesmo sofrida, é uma história única que a gente tem. No momento que a gente lê, a gente consegue se colocar na pele de pessoas que vivem coisas que nós nunca iremos viver, que uma vida só não basta para viver. Eu não sei o que é viver num país em guerra, por exemplo. A leitura me ajuda a ter empatia com o que está acontecendo agora no mundo. Eu não sei o que é ser dependente de drogas, o que é perder um filho, o que é ser uma pessoa que se apaixona por outra do mesmo sexo... enfim, tem tantas coisas, tantas histórias, que a literatura tem esse benefício espetacular: ela combate preconceitos. Na hora que tu consegue ter empatia, te colocar no lugar dos outros e saber como as pessoas sentem, são coisas tão complexas, tão profundas, que só mesmo a literatura vai te dar. Não tem outro jeito de expandir o teu conhecimento sobre o mundo que não seja através da literatura. Tanto que eu fico muito impressionada com o fato de as pessoas não lerem, que não queiram ler. Porque eu digo, “nossa, tudo bem, tu pode ser feliz sem ler, mas como tua vida fica mais engessada; tu não sai da bolha”. Eu sou uma defensora apaixonada da leitura, e por sorte eu também escrevo, e através da escrita também consigo fazer um processo de autoconhecimento e entender mais a mim mesmo.

 

TL- Sobre seu processo criativo, quais são suas estratégias para encontrar os temas das crônicas que você tem a obrigação de entregar – especialmente para os jornais com os quais colabora? Há momentos do famoso bloqueio criativo? E, se há, como você lida com eles, considerando-se os prazos sempre apertados de entrega dos textos?

MM- [O bloqueio criativo] Acontece todos os dias (risos). É muito natural e até engraçado, porque ano que vem vou fazer 30 anos de crônica. Trinta anos que eu escrevo colunas sem falhar uma única semana, e a impressão que tenho é que já escrevi sobre tudo. Imagina, são 30 anos da minha vida, de fases diferentes da minha vida. Uma fase em que eu estava mais ligada à maternidade; outra que eu estava vivendo uma separação; agora mais madura, vivendo outras questões. Parece que eu já cobri toda a pauta da existência (risos). Hoje em dia está mais difícil do que antes de encontrar um assunto que eu pense, “não, isso aqui é interessante”. Antes, quando comecei, tudo era novidade. Agora, realmente, passados esses 30 anos, é um pouquinho mais difícil. Mas eu tenho um radar que está ligado 24 horas. Por exemplo, atualmente estamos vivendo um período de guerras, o mundo está barra-pesada, mas também acho que tem tanta gente escrevendo sobre isso que eu procuro sempre buscar outras reflexões. E essa reflexão pode surgir de uma frase que uma amiga minha me disse durante um happy hour, quando eu estava vendo um filme e o que eu senti vendo aquele filme, uma frase que eu vi num livro e que eu acho que merece um desenvolvimento... pode surgir de tudo... nem eu sei dizer. Só sei que meu radar está ligado. E eu também tenho a famosa cadernetinha, em que anoto tudo que eu acho que pode ser interessante – e hoje nem é só a cadernetinha; anoto no celular, mesmo. Às vezes é uma palavra.

 

TL- Em termos mercadológicos, há quem diga que a crônica é um gênero menor; que para ter sucesso na literatura é preciso escrever romances. O que você pensa sobre isso?

MM- Eu não gosto de rotular as coisas como maior ou menor. Sou uma adoradora do romance. Eu adoraria ser uma romancista. Já cometi alguns livros de ficção (risos) que sei que não têm boa técnica. Até “Divã” [seu primeiro romance, publicado em 2002], que teve uma super-repercussão quando lancei – até fiquei surpresa... mas reconheço que não sou uma grande romancista. Só que eu gosto de escrever e vou morrer tentando ver se consigo melhorar. E sei que tenho mais domínio da crônica. Mas não fico pensando assim: “vou escrever um romance porque é o romance que vai me dar um nome no mundo literário”. Não! Acho que a gente fazendo bem o que a gente faz está ok; não é maior, nem menor. Antônio Maria [cronista pernambucano falecido em 1964], por exemplo, é absolutamente genial. O próprio Luis Fernando Verissimo se consagrou com a crônica. Ele também escreveu romances, tem pequenos poemas, mas ninguém duvida que ele é, realmente, um grande cronista e se consagrou nesse gênero. Então eu não dou muita bola para isso. A crônica parece menor porque ela tem um prazo de validade menor. Mas o que importa é o que ela deixa nas pessoas que a leram. Não é ela, o texto em si, mas o quanto ela pode tocar as pessoas, o quanto ela pode modificar as pessoas. E, nesse aspecto, acho que a crônica é grande demais, porque ela pode ser realmente transformadora. Eu, que estou há 30 anos nesse gênero, recebo depoimentos que são emocionantes, de pessoas que te leem e que mudam seu jeito de pensar e de viver, inclusive, através da tua influência literária. É uma troca de ideia e de experiências que faz com que os leitores realmente repensem o seu caminho e se transformem. Se isso aí não é grande, eu não sei o que é (risos).

 

TL- Na crônica “Avalanche de Existência”, presente em “Conversa na Sala”, você escreve que é pela leitura que começa a revolução de nos transformarmos em alguém que valha a pena. A pergunta que te faço é aquela de 1 milhão de dólares, clichê, mas necessária, sendo você uma das principais vozes das letras no Brasil: como fazer o brasileiro ler mais e se interessar mais pelos livros?

MM- Esse bate-papo que estamos tendo pode ser um grãozinho de areia, mas acho que ele pode ser estimulante. Acho que é isso: vamos falar sobre livros. Porque a gente fala tanto de cinema, sobre música, e isso tudo parece tão fácil. Daí a gente fala em livro e parece que estamos falando de uma coisa sacra, uma coisa difícil. O que eu procuro fazer, sempre, é popularizar o livro; é dizer que livro é uma coisa divertida. Sei que ele é muito mais que isso, mas pelo menos [isso] faz com que as pessoas se deem conta que a leitura é um grande entretenimento também. Para escrever melhor também é importante a leitura. Aliás, a leitura é importante para tudo! Trazer o livro para dentro de casa é outra coisa importante. Por exemplo, os pais darem livros para seus filhos, para desde criança já se habituarem com o objeto livro. A gente se formata como ser humano pela literatura infantil, também. Outra coisa: visitar livrarias e bibliotecas. Importante é se aproximar do livro, e não se distanciar, como se fosse uma coisa chata e difícil. Porque o livro, infelizmente, durante muito tempo carregou essa fama de ser algo só para intelectuais, de não ser para todo mundo, de demandar muito tempo, de ser um objeto caro, e tantas outras coisas contra os livros. Acho que todos nós, que somos amantes dos livros, devemos fazer uma contracampanha dizendo não, o livro é a melhor coisa do mundo. Sem livro a tua existência fica muito mais mediocrizada. Tenho uma frase que eu digo sempre, que eu adoro: não existe ninguém mais desinteressado pela vida do que o dono de uma estante vazia. Adoro essa frase e a acho importante, porque tu te interessa pela vida? Então não é só uma questão de praticar esporte, se atirar de montanhas. Leia! Porque tem milhões de outras coisas que você não vai conseguir fazer, mas que tu vai conseguir sentir, através do livro. É um universo inteiro. Não sei como as pessoas ainda não descobriram que essa é a grande invenção revolucionária do mundo (risos).

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Escute aqui a entrevista na íntegra no Podcast Tesão Literário

https://www.instagram.com/realmarthamedeiros/

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