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Opinião

“Nessa configuração de mundo é impossível ser feliz”

Por: SIDNEY NICÉAS
Conversamos com o professor Junior da Paz, um dos líderes da Plena Pace, que trabalha a Felicidade como meta humana

Foto: Elyse Chia/Unsplash

09/04/2023
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*por Sidney Nicéas

O último dia 20 de março foi o Dia Internacional da Felicidade, data criada em 2013 pela ONU inspirada pelo Reino do Butão, que fica entre a China e a Índia e que instituiu a Felicidade como um dos índices para o seu PIB (Produto Interno Bruto) e para medir o bem-estar socioeconômico do país. Essa é uma data que costuma incomodar quem vive incomodado com a desigualdade, a miséria, o desperdício, a mania de poder da humanidade. E nada melhor do que trazer o tema à lume neste Dia de Páscoa – independente de religião. Por isso conversamos com o professor Junior da Paz, da Plena Pace, um cara que vive a tentativa permanente de construção da felicidade como meta humana – a Plena Pace é uma entidade criada para ajudar as pessoas a transformarem suas vidas e encontrarem mais felicidade, buscando inspirar uma mudança de vida por meio do desenvolvimento existencial e da educação corporativa.

“Viver num mundo utilitarista, onde o que tem preço vale mais que o que tem valor, realmente não é fácil. Contudo, vivemos entre dois mundos. A meu ver a felicidade é um estado mental, muito mais que uma circunstância. O que mais me encanta é que a concepção científica da felicidade apenas ratifica o que as grandes correntes da filosofia e da espiritualidade dizem desde a antiguidade. O papel da ciência vem validar as grandes "verdades universais".

Junior da Paz é professor, historiador, bacharel em direito, empreendedor educacional, artista, produtor e cantor, com trinta anos de experiência profissional. Terapeuta de desenvolvimento existencial e especialista em life design. Pós-graduando em psicanálise, dirige instituições filantrópicas há décadas, atendendo pessoas em seus desafios de vida. Desenvolve os trabalho na Plena Pace com Acácio de Carvalho, Mariana Vasconcelos e Michela Macêdo.

Confira abaixo a entrevista na íntegra, feita por e-mail. Ao final, saiba como entrar em contato com Junior da Paz e a Plena Pace.

 

Junior da Paz, da Plena Pace

TESÃO LITERÁRIO- A primeira pergunta é inevitável: como ser feliz num mundo tão violento e desigual, onde dinheiro e poder são mais valorizados do que as pessoas?

JÚNIOR DA PAZ- Viver num mundo utilitarista, onde o que tem preço vale mais que o que tem valor, realmente não é fácil. Viver num mundo desigual, onde as pessoas são reconhecidas pelo tem, não pelo são, de fato é um grande desafio. Nessa configuração de mundo é impossível ser feliz, desde que o foco seja o mundo de fora. Contudo, vivemos entre dois mundos. A meu ver a felicidade é um estado mental, muito mais que uma circunstância. Há quem diga que felicidade é a diferença entre a expectativa e a realidade. Existem os que declaram que felicidade é um instante que vale a pena ser vivido. E encontramos os que asseveram que felicidade não é uma estação, é a maneira como se viaja. Preferimos, aqui na Plena Pace, reconhecer que felicidade é uma expectativa mental que pode ser construída a partir da estruturação de hábitos de vida saudáveis, conforme estabelece a neurociência e a psicologia positiva. É possível viver intimamente numa postura mental positiva, apesar do caos no mundo. Trata-se da relação entre dois mundos: o de fora e o de dentro. Trata-se de reagir positivamente à vida como ela é.

 

TL- Temos uma geração nascida no virtual e notamos muitos problemas psicológicos oriundos, ao que parece, principalmente, da falta de uma visão existencial sólida. As religiões falharam? A filosofia, idem? O Deus idealizado pelos homens está ‘ultrapassado’?

JP- O excesso de interação com o mundo virtual tem forjado uma geração distanciada das oportunidades de desenvolvimento das habilidades sociais indispensáveis à sensação de pertencimento inerente ao homem, como empatia, resiliência, compaixão, altruísmo, esperança etc. Pela primeira vez na história a geração atual possui um nível de conhecimento e sabedoria menor que a geração passada. Um gravíssimo problema instalado, de proporções inimagináveis. As religiões e as filosofias não foram capazes de prevenir essa tragédia, não por serem incapazes de dar respostas, mas por terem sido tratadas de forma superficial, como teorias apenas, sem serem ensinadas através de um processo prático, base da verdadeira sabedoria (do Grego, saber fazer). Hoje, no mundo, a espiritualidade (essência das religiões e filosofias) está em alta no mercado externo, mas em baixa no mercado interno. Tem-se uma avalanche de discursos, pregações, sermões, tratados, opiniões, conceitos, teses, mas o comportamento humano não tem correspondido ao discurso, num verdadeiro descompasso entre palavra e comportamento. Nesse sentido, o Deus da idealização humana, dos templos, das placas, faixadas, estampado nas camisetas, está distante da concepção de Deus enquanto essência humana, da ética, respeito e amor, presentes nas relações sociais.

 

TL- Em relação à pergunta anterior, o tema felicidade pode ser parte desse caminho? Como abrir corações para esse conceito?

JP- Se tratarmos o tema felicidade como razão, sentido e propósito de vida, acredito que sim, pode ser parte desse caminho. Na maior pesquisa já feita sobre felicidade chegou-se à conclusão de que nem todas as pessoas ricas, famosas, saudáveis e jovens são felizes. Mas todas as pessoas felizes trazem duas características em comum: firme propósito de vida e relacionamentos saudáveis e duradouros. Podemos, então, começar pela identificação, amadurecimento e prática do propósito de vida. Isso dá razão e sentido à existência. Dá vontade e motivação para viver. Disciplina e foco naquilo que tem que ser feito, sobretudo na virada de chave com a criação de hábitos saudáveis. O coração só pode ser aberto de dentro para fora.

 

TL- A partir da experiência do Plena Pace, como você tem percebido a resposta das pessoas?

JP- A Plena Pace surgiu em meu caminho como a realização de um projeto de vida. Ajudar as pessoas sempre foi um de meus propósitos. Percebi desde cedo que isso me deixava mais feliz, me fazia sentir uma especial alegria interior. Acredito que as pessoas percebem isso, a espontaneidade de nossas ações terapêuticas. Todos os que de alguma forma passaram pela Plena Pace, nas diversas frentes terapêuticas que estruturamos até hoje, demonstraram satisfação ao se sentirem acolhidas e incentivadas a identificarem os seus propósitos de vida e a aprenderem a gerenciar melhor as suas emoções. A grande resposta que nos deixa cada vez mais certos de que estamos no caminho certo, é ver as pessoas mais felizes diante de nós.

 

TL- O Plena Pace atua em organizações. Num planeta sôfrego pela intervenção humana (impulsionada principalmente pela industrialização), como tem sido esse trabalho no mundo empresarial?

JP- Talvez seja esse o nosso trabalho mais desafiador. Se ajudar na transformação de uma consciência humana é tarefa complexa, imagine trabalhar na mudança da consciência coletiva de uma organização que, em geral, está mais antenada com a ideologia exploratória do capitalismo? É bastante desafiador! Temos, por exemplo, um curso voltado para as organizações sobre FELICIDADE NO TRABALHO. Como diria o filósofo, transformar a jornada de trabalho num verdadeiro happy hour (hora feliz), e não no sad hour (hora triste), como o processo de industrialização e o mercado de trabalho estabeleceram, é um dos pontos de reflexão.

 

TL- Recentemente, a ONU colocou o ano de 2030 como risco-limite para um colapso planetário, caso as coisas continuem como estão. Como ter esperanças no futuro?

JP- Esperança é uma das forças pessoais da psicologia positiva mais importantes para a revolução planetária. Mas a esperança, assim como todas as outras virtudes capazes de transformar o mundo, precisa ser praticada. Elas só têm vida se praticada, incorporada ao comportamento. Nesse sentido, nos inspiramos em Paulo Freire quando estabeleceu que a esperança vem do verbo esperançar, e não do verbo esperar, como se convencionou. A esperança se caracteriza por uma postura ativa, de quem trabalha pela mudança, pela reconstrução. Com efeito, a esperança ativa é um caminho viável para as mudanças que o mundo precisa. É claro que ao lado dela precisamos de uma boa dose de empatia sobre a natureza e da disciplina na criação e aplicação de políticas públicas transformadoras. Não há mais tempo para postergar.

 

TL- O Plena Pace objetiva o “ser humano holístico, integral e nas suas múltiplas dimensões existenciais”. Como atingir essa meta quase utópica? É o caso do caminho ser mais importante do que a chegada?

JP- A condição de ser integral e carregar em sua existencialidade as diversas dimensões (física, mental, social, espiritual, cognitiva, profissional etc) faz do ser humano uma concepção extraordinária, portadora de uma complexidade impressionante. Aqui na Plena Pace partimos desse pressuposto. Nosso trabalho está concentrado na construção da sabedoria (saber fazer) como base, cujo amadurecimento repercute decisivamente na tomada de consciência de que somos donos de nossa jornada terrena e precisamos assumir o controle sobre nós mesmos. O caráter utópico desse princípio está atrelado ao utilitarismo que coisifica a natureza humana. Na contramão, trabalhamos um indivíduo independente e interdependente, ou seja, com autonomia sobre si e em harmonia com o outro, valorizando o processo, não a chegada. Costumo ilustrar com o exemplo da montanha. Se chegar ao cume fosse a felicidade, bastaria pegar um helicóptero e em poucos minutos se chegaria no topo. Mas todos preferem o prazer de escalar, mesmo com a dor, desafio, medo, perigo e tudo o que caracteriza uma escalada.

 

TL- “Pensar, falar e agir de um mesmo modo” também são objetivos do Plena Pace. Como vocês têm trabalhado a coerência nas pessoas, especialmente em tempos de redes sociais, onde o virtual tem se sobressaído, onde pessoas se escondem atrás de telas para cometerem atos dos mais absurdos?

JP- Trabalhar a construção de uma existência coerente é uma das frentes de atuação mais complexas aqui na Plena Pace. O processo cognitivo, em seu funcionamento subjetivo, tem a capacidade de captar o mundo pelos sentidos, fazer associações com todo o acervo de conhecimentos adquiridos, usar os símbolos do mundo real e aplicar o senso crítico, gerando um produto chamado pensamento. À primeira vista, não haveria dificuldade em se alinhar pensamento, palavra e atitude. Contudo, há o processo de escolha na área do comportamento, que recebe uma influência determinante da formação do indivíduo, desde a primeira infância. Além disso, há uma intensa influência do mundo ilusório das redes sociais, que tem causado uma ruptura entre a concepção de virtualidade e realidade. É como se a pessoa pudesse existir apenas na perspectiva virtual. Nosso trabalho estimula o indivíduo a perceber que é no mundo real que a vida acontece e faz sentido, e que a coerência é a maneira mais segura de se estabelecer relacionamentos saudáveis e duradouros.

 

TL- Felicidade é ciência, disciplina acadêmica concorrida, meta para o contingente quase absoluto da humanidade. O que mais nesse processo de compreensão neurocientífico da felicidade te encanta?

JP- Na realidade, o que mais me encanta é que a concepção científica da felicidade apenas ratifica o que as grandes correntes da filosofia e da espiritualidade dizem desde a antiguidade. O papel da ciência vem validar as grandes "verdades universais". O maior neurocientista da atualidade, Richard Davidson, iniciou o seu pós-doutorado movido pela intuição de que o cérebro teria a capacidade de se transformar a partir de sua característica de plasticidade. Achava que, se o cérebro pode ser reprogramado para melhor e o comportamento humano também, o mundo pode ser transformado numa casa melhor para ser viver. Nessa época ele recebeu a visita de sua santidade, o Dalai Lama, que sugeriu que ele começasse por estudar a mente dos meditadores. Foi aí que Davidson se encantou com a capacidade transformadora do cérebro. A partir daí, as teorias da psicologia positiva se consolidaram ainda mais, já que sugerem que o comportamento humano pode ser treinado, criando novos hábitos saudáveis a partir da reprogramação cerebral. Não por acaso, portanto, felicidade é disciplina acadêmica concorrida.

 

TL- Para você, ser feliz é?

JP- Viver intensamente um momento que vale a pena ser vivido. Cuidar para que as expectativas estejam abaixo da realidade. Perceber que a felicidade não é uma estação, mas a maneira como se viaja. Entender que o encanto está no processo, não na chegada. Praticar um firme propósito e cultivar relacionamentos saudáveis e duradouros. Felicidade não se define, se sente. Ser feliz é viver intensamente, com as dores e os prazeres, as vitórias e os fracassos, buscando reagir de forma positiva a todas as circunstâncias. Ser feliz é o desafio de todos nós.

 

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