Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Literatura

Nomes secretos do homem

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor e psicanalista André Resende chega ao Tesão com um texto sobre nomes, sobre o seu nome.

Foto: Arte/Ana Calzavara

12/08/2023
    Compartilhe:

*por André Resende

NÃO É CERTO QUE EU SERIA MAIS FELIZ se meu nome fosse João ou Jorge. Ou uma composição com os dois. Ou algo como Jorge, João. A vida não está previamente dada.  Simplesmente, não está. Mas o nome que vamos levar conosco durante a jornada da vida é muito importante na construção da pessoa que somos e designa de alguma forma as marcas que nos significam sermos como somos, se assim podemos dizer: nosso destino. Nosso destino psíquico, um labirinto de solidão cercado de todos os outros que nos fazem. 

   Depois de um tempo de vida, falado e refletido sobre a vida, considerei que eu seria mais feliz se meu nome fosse Jorge. Ou João. Nunca houve qualquer percepção de que a felicidade faria mais sentido se assim fosse, mas foi como eu consegui aceitar a existência. André Luís, meu nome, invenção de meu pai, nunca me disse nada. Nem me diz, ainda, mesmo que não implique em mim uma negação. É fato que sou há algumas décadas André Luís. Ou, simplesmente, André. À medida que o nome André Luís, filho de Emanuel, parecia dizer alguma coisa que não me fazia sentido, costumo dizer: nada a ver. Não tem nada a ver que eu seja André Luís com base no extrato de onde meu pai foi buscar uma linha histórica com o nome dele, Emanuel. Um vínculo com seu pai, João: "Pai, me fizeste Emanuel e agora amplio nosso vínculo com André Luís (só não garanto que suportarei esta aliança)." Minha mãe foi criada por uma ateia e em sua formação poderia acreditar em fantasmas e entidades espirituais, mas daí a pôr meu nome de André Luís, nada a ver.

   Como escritor, e para o resto das relações sociais e profissionais, sou André. E se digo que sou André, por dentro de mim, digo: porém, sou Jorge, no entanto, sou Joao. Jorge, João. Sou André sem Luís a pedido de um editor de jornal que, em sua arbitrária sabedoria de mexer na vida alheia, ordenou que os leitores (as) não precisariam de um autor com nome composto, seguido de sobrenome (s).

   Jorge e João são os nomes de meus avós. Os nomes secretos por dentro de mim. João, pai de meu pai. Jorge, pai de minha mãe. Não que eu tenha convivido com eles e tenha vivas memórias deles. Não convivi. Não tenho. 

   Jorge, pai de minha mãe, morreu quando ela tinha seis meses de vida. Duas irmãs dele, costumavam contar que ele gostava de assoviar de manhã cedo, dentro do banheiro, acentuando as últimas notas musicais e inventando melodias cheias de melancolia, como eu, e cantarolava, acompanhando as músicas no rádio, como eu, e gostava de conversar a todo instante, como eu, e tocava violão, como eu. Nos diferenciamos em duas compulsões de Jorge: querer estar fora de casa todo dia, na expectativa de ter mais vida pública que em casa, e de beber cachaça um pouco a mais do aceitável.

   Era improvável que um sujeito com o nome de Emanuel, mesmo com pretensões espíritas, implicando aí que não bebia nada com álcool - bem diferente de minha mãe -, preferisse pôr no filho o nome equivocado de André Luís e se esquecesse de pôr o nome de seu pai, João, no primeiro neto. Mas foi que ele fez, com consequências em meu destino psíquico, muito mais que eu ser aquariano com touro e sagitário e de ter crescido em uma família liderada por mulheres comunistas, trabalhadoras, ateias e chefas de família - os nomes secretos de mulheres por dentro de mim. Emanuel não teve planos para André Luís. Que um pai não indique seus planos e seus sonhos ao (à) filho (a) é um tipo de solidão enlouquecedora, um vazio existencial, mas pode ser uma oportunidade para o sujeito, ao brincar com seu nome, de sonhar, é possível, que caiba em si outros nomes, assemelhados, aproximados, desprovidos de história íntima, porém, pessoais, de uma ética pessoal inserida em uma moralidade mais ampla, compartilhada com outros nomes de homem que não entram, nem como secretos, nem como representantes amorosos e afetivos das conjunturas familiares e sociais.

  Da mesma forma que Jorge, o nome João me faria muito bem. Não é certo, mas me alegraria e seria muito mais feliz se meu nome fosse, de fato, Jorge ou João. João ou Jorge, não um nome secreto por dentro de mim. E, como ato de negação como afirmação, não tem nada a ver com memórias vividas. Meu avô João pouco vi, mas ele era um homem de voz mansa e sempre sorria (apesar de ter um revólver debaixo da cama - e quem com um revólver debaixo da cama tem alma mansa?). Como o rosto de meu pai, o rosto de meu avô João parecia sorrir, tinha olhos castanhos, como os olhos de meu pai, de meu irmão, meus olhos – minha mãe tem olhos verdes com castanhos, como Jorge.

   Jorge e João são meus nomes masculinos secretos. Digo a meus filhos que por dentro de nossos nomes, somos Jorge e somos João. Não um com o outro, nem os dois juntos: somos Jorge e somos João. Os nomes mais lindos que eu deveria ter estampado em documentos, capas de meus livros, cartazes de minhas peças de teatro, nos textos digitais e na hora que alguém quisesse me chamar de meu amor (nessa altura da vida, melhor não haver erro: sou André). 

   Talvez meus filhos não queiram alcançar esse destino psíquico porque os destinos psíquicos se comunicam, mas não são herdados, nem compartilhados, nem transferidos – pelo menos de forma plena e irrazoavelmente aceitável como missão de vida e de compromisso histórico, no tortuoso ambiente dos “complexos familiares” e das mesquinharias da parentada. Que eu pudesse ouvir meu nome Jorge ou João soprado para mim, de uma maneira que me sentisse seguro e feliz, vivendo com meu nome, pernambucanamente, herdado, na esperança de haver aí uma transmissão de legado e de modelo moral. De um boêmio e de um homem com revólver debaixo da cama? Eles estão comigo, em mim, não como nomes dos homens familiares. Estão como elegias que se tornam possibilidades de melhorar o olhar do homem que sou para mim, para as pessoas e para o mundo (mas isso não é certo que seja possível).

--

André Resende é escritor e psicanalista. Nasceu no Recife e mora em São Paulo. Como escritor tem onze livros publicados. Como psicanalista, faz atendimento e supervisão individuais e Coordena grupos de diálogo em torno de Micropolíticas Cotidianas e Dos Masculinos há quase uma década.

 

https://www.facebook.com/andre.resende.14289 

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook