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Literatura

“O Brasil merecia uma Literatura mais justa”

Por: SIDNEY NICÉAS
É Natal, mas o Tesão vai além: confira hoje a matéria-entrevista com D. B. Fratini e seu certeiro Bofetada e Êxtase

Foto: Arte/Tesão Literário

25/12/2022
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*por Sidney Nicéas

Questionar é a grande ferramenta para a transformação. E nada melhor do que a arte para nos fazer mergulhar em nós e gerar novas (?) maneiras de ver a realidade. A submersão na subversão às vezes parece caminho inevitável. Ler Bofetada e Êxtase (Editora Autografia, 2022), do escritor mineiro radicado em São Paulo D. B. Fratini, costuma provocar esse mergulho numa quase doença coletiva, capaz de fazer do mundo contemporâneo uma redoma estranha onde seres humanos tentam não se esquecerem do que são. Suas personagens trazem um quê de cinismo, ceticismo, crueldade e loucura (não a clínica), ingredientes que são trabalhados algumas vezes subvertendo qualquer romanticismo, sempre jogando um espelho na cara do leitor - situações extremas parecem normalizadas hoje em dia.

A visceralidade presente em Bofetada e êxtase parece refletir um país afetado por um patriotismo nonsense, uma sociedade confusa, pessoas e seus dramas que resultam numa mistura de Frankenstein e Dr. Jekyll: a mulher recatada especialista em facas numa relação abusiva, o velho que já apertou a tecla do foda-se há muito, a criança que se recusa a limpar a bunda com o papel higiênico com bandeiras do Brasil, o casal cujo poço na propriedade espelha o vazio que os unia, a criança abusada que mostra o quanto de inferno existe nisso aqui que muitos acham ser o céu. Imagina no que isso tudo resulta? “Essas histórias acontecem com muita facilidade; é uma realidade dura e pouco romântica. Não posso dizer que a vida seja uma porrada só. As opções estão cada vez mais difíceis: a serenidade; o bem-estar; os grandes valores da condição humana estão desaparecendo. A ignorância virou uma espécie de qualidade. Estamos mais egoístas; retrógrados; ignorantes; malvados e doentes”, define.

Não bastassem os incômodos movendo os dedos do autor - que se refletem também nas excelentes ilustrações de Rogério Bessa Gonçalves -, Fratini ainda teve que se submeter a um mercado editorial igualmente impiedoso: ele reclama de inúmeros problemas com a editora, especialmente na distribuição da obra. “Fui espoliado, muito maltratado e enganado por um contrato leonino. Não sei muito bem como analisar processos de edição no Brasil: a coisa por aqui é sempre meio esculhambada; aquele tipo de editor responsável e intelectualmente habilitado é raríssimo; os escritores estão perdidos e não sabem mais que caminho seguir; a figura de agentes literários é um sonho inalcançável; e quando você resolve ser independente, cai em arapucas terríveis”, revela.

Indo além dos problemas alegados, Fratini ainda se mostra bem cético em relação à classe de escritores no Brasil, pouco afeitos à função social do escritor num país ainda bem afetado pelo analfabetismo e com sérios problemas na formação de leitores. “No Brasil, por mais que tentem enganar, os artistas da Literatura trabalham por obrigação íntima. O escritor perdeu sua função social, política e cultural. Não existe "papel" possível para um escritor num país de analfabetos úteis. Restou a arte. Escrevemos para uma parcela minúscula da população formada por leitores muitas vezes rancorosos da própria raridade. Então, ficamos competitivos, sem consciência de classe; antipáticos uns com os outros e invejosos”, sentencia.

Nessa seara em que ele mesmo atua, a leitura acaba sendo, sempre, a saída para respirar. Todavia, Fratini não deixa de criticar a miopia seletiva existente no meio literário nacional. Leitor ávido, queria que houvesse um maior senso de justiça diante do que se produz atualmente no país. “Não sei viver sem a leitura. No momento leio meus colegas de independência, muitos livros sensacionais, artistas incríveis e desconhecidos. Dou uma dica: uma das melhores produções de Literatura Contemporânea do Brasil é feita hoje por escritores independentes do Rio Grande Norte. O Brasil é enorme e merecia uma Literatura mais justa”.

A gente bateu um papo com D. B. Fratini, que revelou mais sobre a obra, as dificuldades editoriais enfrentadas, a situação do escritor brasileiro, a política, a leitura. Confira abaixo na íntegra. Ao final, saiba como adquirir Bofetada e êxtase e como contatar o autor.


TESÃO LITERÁRIO- Os contos de Bofetada e Êxtase são mesmo o que o próprio título da obra propõe. Viver é mesmo uma porrada?

D.B. FRATINI- Os contos procuram espelhar sentimentos, emoções e sensações de pessoas lançadas em situações extremas. Não posso dizer que a vida seja uma porrada só. As opções estão cada vez mais difíceis: a serenidade; o bem-estar; os grandes valores da condição humana estão desaparecendo. A ignorância virou uma espécie de qualidade. O livro procura espelhar a maldade exigida, aquela que é sempre o pior caminho: o pedágio da loucura.

TL- Em tempos em que ser humano não parece mais viável, seus personagens transitam entre um cinismo cético e a loucura social. Seria exagero nosso afirmar que o  livro é uma espécie de manifesto?

DBF- Trata-se de uma obra ficcional, não sou um escritor ligado aos lances autobiográficos. Todo livro pode ser considerado uma espécie de manifesto artístico, o autor lida diretamente com sua consciência crítica a partir de suas investigações do cotidiano. Essas histórias acontecem com muita facilidade; é uma realidade dura e pouco romântica. Você fala em cinismo cético e loucura social e eu penso no feijãozinho com arroz de todos os dias, aquilo restou na borra do filtro da hipocrisia. 

TL- Em contos como ‘O Poço e o Javali’, ficamos com a impressão de que, enquanto seres sociais, nos perdemos há muito tempo. Estamos nos tornando criaturas difíceis de manter relações saudáveis? Nesse sentido, seremos (somos) muito mais virtuais do que reais?

DBF- Não penso que estamos perdidos enquanto seres sociais: estamos mais egoístas; retrógrados; ignorantes; malvados e doentes. As relações saudáveis existem, raras, mas existem. A esfera virtual é uma fuga, estão todos representando um teatro idealizado, na Internet o real e o imaginário se mesclam e tudo parece ordinário e comezinho. A velha história do abandonar para não ser abandonado agora é imprescindível com as redes sociais, um negócio bastante tedioso. Para sair do poço é preciso rasgar o corpo e a alma e procurar a verdade é ainda pior: o canto do bode degolado; a tragédia só encontra sua finalidade quando o ser se liberta dos efeitos catárticos da própria miséria existencial.

TL- O último conto da obra, ‘O Abismo dos Anjos’, mete o dedo nas tripas até revelar a doença sexual humana, que não respeita sequer nossos pequeninos. O que esperar do amanhã?

DBF- A pedofilia ainda é uma questão pouco estudada; uma doença incurável (?), não dá para pensar no pedófilo como se pensa num tarado freudiano, aquele com desvios de caráter. Nossas crianças estão lançadas num novo círculo comportamental e não adianta culpar as mídias eletrônicas. A perda de valores é generalizada e os pequenos são obrigados a perder a fantasia muito cedo. Os tigres estão aí e as presas cada vez mais fáceis. Minha visão sobre o assunto é apocalíptica e complicada. Não encontro outra saída para a desgraça além do extermínio. É preciso radicalizar a solução.

TL- ‘Daniel e o Cu na Pátria’ mexe de maneira inteligente com o momento do país. A imagem do papel higiênico com bandeirinhas do Brasil é impagável. A arte será sempre o nosso respiro?

DBF- Não inventei o papel higiênico estampado com a bandeira do Brasil, a coisa existiu, e não era assim uma recreação como o papel higiênico dos patriotas americanos que até hoje existem. Vivi a Ditadura Militar: lembro do toque de recolher às 22 horas na Rua das Laranjeiras no Rio de Janeiro; lembro dos cortes de energia elétrica inexplicáveis; lembro das bancas de jornais esmagadas por tanques; e os generais de voz pastosa recitando suas ignorâncias em rede nacional. Uma piada nefasta. Minha personagem ingênua não admite limpar as próprias fezes com a pátria, uma metáfora teatral. A arte é vital. Foi o que restou para o século empesteado. Penso mesmo que sem o poder da arte a humanidade não conseguirá resistir ao terceiro milênio. E sou um velho otimista. Agora a bandeira do Brasil virou uma espécie de alucinógeno para adoradores de OVNIs e ETs; vou fazer o quê? É muito engraçado.

TL- Aproveitando o gancho político, quais caminhos você acredita serem possíveis para tornar o Brasil, de fato e de direito, um país cultural justo, dentro da sua própria continência?

DBF- Educação! Sem Educação não existe crescimento algum. A Educação é fonte de saúde, de paz, de bons negócios, de cultura, de respeito às diferenças. Assinar o nome não é saber ler e escrever. Os investimentos na Educação são prioritários, quem tem educação lava as mãos antes de comer e não se contamina, o bem-educado pode roubar, mas não vai matar o assaltado. A figura do professor precisa ser valorizadíssima no Brasil, o novo governo tem que formar e remunerar bem seus mestres. E vamos radicalizar: sem Educação de boa qualidade o país será perdido para uma elite de escravocratas satânicos.

TL- Ficando na seara da escrita, qual papel você consegue atribuir ao escritor hoje no cenário nacional?

DBF- Não queria responder essa pergunta. Sempre arranjo desafetos quando a questão aparece. Mas, vou dizer algumas coisinhas. No Brasil, por mais que tentem enganar, os artistas da Literatura trabalham por obrigação íntima. O escritor perdeu sua função social, política e cultural. Não existe "papel" possível para um escritor num país de analfabetos úteis. Restou a arte. Escrevemos para uma parcela minúscula da população formada por leitores muitas vezes rancorosos da própria raridade. Então, ficamos competitivos, sem consciência de classe; antipáticos uns com os outros e invejosos. As grandes editoras só pensam no pecúlio, as independentes são panelas de pressão. A Literatura Brasileira é esmagada há muitos anos por negociantes de porcarias importadas. E nunca existiu sequer um traço de união entre os artistas das Letras. O trabalho do escritor é realmente solitário, mas a confecção do livro é feita por equipes. Não vejo nada pela frente, escrevo por obrigação íntima, nesse sentido a profissão do escritor é um buraco negro sem saída por aqui. Não existimos, resistimos.

TL- Seu perfil no Instagram traz sempre imagens e textos sobre artistas visuais, normalmente pintores de épocas e nacionalidades diferentes, muitos deles pouco difundidos. A imagem também tem um papel forte na sua escrita. Como você lida com isso na sua produção literária?

DBF- Uso o Instagram para exercitar a memória. Fui mestre de FECA (Fundamentos Estruturais da Composição Artística) durante muitos anos. Minha ligação com as Artes Plásticas é simbiótica. Escrevo sobre artistas geniais e tento mostrar suas obras, estão mortos e meio esquecidos, mas pulsam na minha memória. Os famosos foram adulterados pela mídia (é uma pena). A pintura é uma arte essencial e pode ser muito massacrada quando ganha o caráter decorativo das modas passageiras, grandes artistas viram clichês nas mãos de publicitários. A dramaturgia foi o meu começo com as palavras e posso dizer que escrevo de uma maneira um tanto teatral, lido muito com arquétipos. Sou meio aristotélico (?). Amo as falhas trágicas e a ironia dos cafajestes. Minha primeira peça estreou em 1987 no Teatro Mambembe em São Paulo (tanto tempo…). Mas, meu trabalho se transformou e amalgamou tudo isso. Penso que é natural.

TL- Sua experiência com a publicação de Bofetada e Êxtase não tem sido das melhores. Como você analisa os processos de edição no Brasil?

DBF- Uma experiência terrível com uma editora caça-níqueis. Fui espoliado, muito maltratado e enganado por um contrato leonino. Entreguei os originais de "BOFETADA E ÊXTASE" para avaliação em doze casas editoriais e o livro foi aceito por todas. O problema ficou por conta da capa e das ilustrações sensacionais de Rogério Bessa Gonçalves, um dos gênios da Nova Pintura do Brasil, a única editora que aceitou o projeto na íntegra foi a pior. Não sei muito bem como analisar processos de edição no Brasil: a coisa por aqui é sempre meio esculhambada; aquele tipo de editor responsável e intelectualmente habilitado é raríssimo; os escritores estão perdidos e não sabem mais que caminho seguir; a figura de agentes literários é um sonho inalcançável; e quando você resolve ser independente, cai em arapucas terríveis. Gil Vicente escreveu: "Sobre quantos mestres são a experiência dá a lição". Vamos experimentando. Sou otimista e sempre espero o pior. Estou finalizando um romance para 2023 e desacostumei de carinhos. Quem sabe recebo uma graça? Um milagre?

TL- Como você tem lidado com a leitura? Como tem dividido o tempo entre a correria das coisas e o mergulho lúdico literário?

DBF- Leio muito. Não sei viver sem a leitura. No momento leio meus colegas de independência, muitos livros sensacionais, artistas incríveis e desconhecidos. Não cito nomes para não transformar a entrevista num calhamaço. Dou uma dica: uma das melhores produções de Literatura Contemporânea do Brasil é feita hoje por escritores independentes do Rio Grande Norte. O Brasil é enorme e merecia uma Literatura mais justa. Os responsáveis deveriam respeitar a tradição e apostar todas as fichas nas novidades. Tradução e colonização em certos casos são sinônimos diabólicos. É preciso sustentar aquilo que é nosso de verdade e com fé.

TL- Ler é…

DBF- Imprescindível.

 

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Para Comprar o Livro

Bofetada e Êxtase pode ser adquirido no site da Editora Autografia.

Contato com D. B. Fratini:

https://www.instagram.com/dbfrattini/ 

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