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Opinião

O conto da IA

Por: SIDNEY NICÉAS
Geórgia Alves retorna ao Tesão com um texto interessantíssimo sobre o uso de inteligência artificial como ferramenta nos dias atuais.

Foto: Hitesh Choudhary/Unsplash

15/08/2023
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*por Geórgia Alves

       Grande Machado de Assis! 

Ainda outro dia pude ver – diante dos olhos – e não no espaço interno da mente, na minha capacidade de intuir – versão muita distinta de Machado de Assis daquele que me apresentaram as fotografias. Com esta capacidade de gerar informações minha sensibilidade criativa, sobre o mesmo Machado de Assis que escreveu, com tanto humor e sofisticado estilo , o conto “To be or not to be”, vi diante dos olhos a imagem que expectava em meu peito. 

Cabelos em desalinho caindo soltos sobre a testa larga e olhos pouco mais ressacados que os meus. Olheiras fundas de lago no Prado, acolhendo uma íris tanto mais claras que revelaram fotos em preto e branco. E vou dizer, somente agora que já está a dois parágrafos comigo, como pude ver com os olhos de fora este Machado descolado. Agradou tanto mais e tanto mais gerou empatia nos meus exigentes estudantes.

Sim, meus caros dois ou três leitoras e leitores, afinal, dei-me ao esforço do uso da Inteligência Artificial. E este nome “uso” não pode sequer ser aqui dourado. Longe de ser pílula azul ou vermelha, o conto da IA é pílula que vem sendo dourada. Digo sem blasfemar , foi por experimento puro. 

Você que já discorda, então, aqui nos comentários, responda: O que a IA promete é falso ou verdadeiro? Pelo bem dos juízos, é melhor logo crer que a inteligência artificial em seu promissor esforço de nós prover uma vida mais leve e incomensurável redução de carga de trabalho, não é, ainda, afirmativa nem verdadeira nem falsa.

Exato. Sua intuição bem o diz.

O que sua sensibilidade antecipa e seu juízo prediz é o que pretendo afirmar sobre o conto da IA: Trata-se de juízo indefinido. Um mergulho raso no estudo da Lógica, mesmo Lógica Simbólica – e aqui vai um aperto de abraço em meu professor Vicente Masip – e veremos a indefinição deste juízo sobre o conto da IA, ainda que o desejemos afirmativo. 

Em princípio, a IA recolhe informações e pincela características estéticas por um esforço lógico e mecânico, dando uma resposta para este ou aquele campo da forma, sem desenvolver um método. Mas escolher uma lógica simbólica e pode se dizer simbiótica, desde que o bio aqui seja mera robótica.

Para quem se lembra do conto da Aia, não é exatamente feliz o destino da IA. Se assim como a aia ela precisa sacrificar o próprio impulso mecânico de sacrifício do próprio “filho”, ainda é a mente humana ou a mãe biológica da criança que prevalece. Ou seja, o conto da IA é para sua promessa um juízo que depende de nossas humanidades. E aqui é que está a mesma questão de quando ainda pintávamos nos tetos e paredes das cavernas com uso de pigmentos e o auxílio de tochas. 

De nada adianta se quem opera a IA não tiver Leitura, Cultura e souber fazer escolhas com assertividade de um sensibilidade que nem é só humana. É transcende ou imanente. Quem sabe ambos. Em “A separação consumada” Erich Feuebarch escreve “É sem dúvidas o nosso tempo que prefer a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade. A aparência ao ser. É sagrado.”. 

Acrescenta: “Ele considera que a ilusão é sagrada e a realidade profana. E mais, aos seus olhos o agrado aumenta à medida que o sagrado (de)cresce. E decresce a tal ponto que, para ele, o cúmulo da ilusão fica sendo o cúmulo do sagrado” (Prefácio da 2ª. Edição da “Essência do Cristianismo “). O que sossega meu peito é escrever este texto ouvindo a voz grave de um Jorge Du Peixe cantando versos de Jorge Ben Jor: “Os alquimistas estão chegando. Estão chegando os alquimistas “. E Fábio Trumer dizendo que, desse jeito outro de pensar “serei leal”, pois se eu cansar dos teus gestos IA, direi.

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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