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Literatura

O dia em que conversei com Deus, com as bênçãos de dona Lucia

Por: SIDNEY NICÉAS
Com fotos comprovando o acontecimento, Mituti chega para o mês de outubro com uma crônica que conta o dia em que conheceu Luís Fernando Veríssimo.

Foto: Arquivo Pessoal Ricardo Mituti/Arte Tesão Literário

03/10/2023
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*Por Ricardo Mituti

No dia 26 de setembro, o maior cronista vivo do Brasil completou 87 anos. Refiro-me ao mestre Luis Fernando Verissimo.

Da minha parte, claro, não poderia deixar a data passar em branco. Afinal, a efeméride é meu segundo Natal. Por isso, dedico esta crônica a ele e à esposa, relembrando um dos momentos mais inesquecíveis e felizes da minha vida: o dia em que conversei com Deus – o meu e o da Martha Medeiros, conforme ela própria admite, com a sagacidade que lhe é peculiar, na crônica “Dê livros de Natal”, presente no recém-lançado “Conversa na Sala”.

Verissimo foi o autor em foco da edição 2016 do Pauliceia Literária, festival de literatura que acontecia em São Paulo. Como homenageado, conversou sobre sua carreira por mais de uma hora com o curador do evento, o jornalista Manuel da Costa Pinto, e com o jornalista e escritor Humberto Werneck, mediador do papo.

O cronista gaúcho parecia disposto e à vontade, apesar da idade já avançada à época. Ainda que seja um introvertido inveterado e assumido, Luis Fernando Verissimo fez piadas inteligentes – do tipo “crônica é tudo aquilo que você diz que é crônica” –, deu e provocou risadas e, com sua inteligência acima da média, deliciou a audiência que lotou o auditório do prédio da Associação dos Advogados de São Paulo, no centro da capital paulista.

Como você já deve imaginar, não fui capaz de sentar minha ilustre bunda na plateia e contentar-me somente em assistir ao bate-papo. Ao contrário, fiz plantão na entrada do prédio, à espera de Deus. Estava decidido a pedir uma foto, caso percebesse disponibilidade da parte dele. E assim o fiz tão logo o vi, acompanhado da esposa, a simpaticíssima dona Lucia. Pedi desculpas a ambos pela perseguição e fui recebido com docilidade pela dupla. Feita a foto, adentrei o auditório, feliz feito pinto no lixo.

De caso pensado – e sem pudor –, acomodei-me estrategicamente próximo à cadeira reservada à senhora Verissimo. Já tinha obtido a informação de que Deus não autografaria após a apresentação. Assim, enquanto muita gente se encaminhava para a fila de autógrafos na calçada, ao final do papo, eu grudei em dona Lucia e saquei da mala meu exemplar do hilariante “Todas as Histórias do Analista de Bagé”.

Vi que Verissimo tinha sido levado para uma saída lateral e já deixara o auditório. Por isso, pedi à esposa de Deus (sim, meu Deus é casado) para que ela própria tentasse conseguir o autógrafo para mim. Eu a esperaria no andar térreo, por onde o casal teria de passar, obrigatoriamente, ao deixar o prédio.

Dona Lucia foi, de novo, de uma simpatia ímpar. Mas pediu desculpas e disse que ficaria meio complicado atender minha solicitação naquele momento. Muita gente a rodeava com intenção similar à minha. Acatei as palavras dela, claro – apesar da frustração. Agradeci novamente pela foto, por ter-me ouvido e me despedi dela com um beijo no rosto. Deixei o auditório pela porta principal, mas ainda fiquei por alguns minutos ao lado da catraca de acesso aos elevadores. Parado, feito ás de paus. À espera de um milagre, talvez.

A senhora Verissimo, então, apareceu do outro lado da catraca, acompanhada por outra mulher – também ela uma fiel –, por um rapaz da produção do Pauliceia e por mais algumas pessoas. Foi quando dona Lucia me viu lá, à toa, e me chamou. Pediu para o segurança liberar minha entrada e disse, abanando a mão: “vem, vem, vamos subir comigo”.

Por alguns segundos, não acreditei que aquilo estava acontecendo. Dona Lucia me credenciou – e autorizou-me – a estar com Deus.

Tive vontade de agarrá-la, mas achei melhor me conter. Seria um vexame, no mínimo. Mas o fato é que não parei de agradecê-la no trajeto entre o térreo e o sétimo andar, o Olimpo onde Verissimo estava à espera da esposa.

Quando dona Lucia abriu a porta, vi o Criador sentado, quieto, sozinho. O burburinho das outras pessoas que também estavam naquele espaço vinha do lado oposto da sala. Ninguém falava com ele. Era a deixa que eu precisava. Só não fui pedir a benção naquele mesmo instante porque a senhora Verissimo credenciou aquela mulher que a acompanhava no térreo, além de mim. Dei prioridade a ela – porque, embora devoto, sou um gentleman (acredite você ou não!).

Depois de um breve diálogo, um aperto de mãos e uma despedida rápida, a mulher deixou a sala. Minha hora havia finalmente chegado. Aproximei-me – de novo – de Deus. Ele continuou sentado, mas eu o reverenciei. Cumprimentei-o, abracei-o e, confesso, emocionei-me. Eu o agradeci por ter-me levado ao Jornalismo, mesmo que ele não soubesse. Mas, sobretudo, agradeci-o por ter-me apresentado à Literatura como ofício.

Tivesse Martha Medeiros já escrito a crônica “Mil Coisas” àquela época, e eu teria dito a ele que o talento dos grandes escritores é transformar o corriqueiro em matéria para reflexão. Sim, porque é impossível passar incólume pela genialidade de Verissimo, mesmo quando ele faz humor – com a agudeza de espírito que é sua marca registrada.

O que fiz, no entanto, foi entregar-lhe “Todas as Histórias do Analista de Bagé” para que o autografasse e pedi autorização para fazer mais fotos. Registrei o autógrafo, o abraço, o livro e a conversa. Verissimidivinei – e peço desculpas pelo neologismo, mas não há outra palavra capaz de traduzir, literalmente, o que ocorreu naquele instante quase metafísico.

Saí da sala cinco ou sete minutos depois de ter entrado. Eternamente grato à dona Lucia e em êxtase sobrenatural. Pinto no lixo era pouco. Muito pouco, aliás. Saí leve. Ungido. Abençoado.

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, criador da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária e coapresentador do programa Leia a Bula. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestre em Ciências pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), com pesquisa na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, na linha "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde"

 

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