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Opinião

O enigma da virgem dos rochedos

Por: SIDNEY NICÉAS
A professora e escritora Geórgia Alves apresenta ao Tesão um texto sobre a “Virgem dos rochedos”, uma das obras mais famosas de Da Vinci, e seu mistério.
22/12/2023
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*por Geórgia Alves

Modesta e humildemente gostaria de dizer: O extraordinário nos aconteceu. Digo nós porque não teria motivação de investigar sozinha artista a dimensão deste filho de Anchiano. Para começo de conversa falamos de alguém que é, não morreu. Continua sendo, graças à sua obra, cientista, inventor, matemático, botânico, anatomista e intelectual de mais alta e elevada comprovação diante de seus jogos que, a bem dizer, é justo o que lhe traz a esta série de estudos em 2023. 

Aliás, acredito que este dramalhão inicial condiz com a travessia deste ano desafiador.  Um ano em que, a plenos pulmões, houve de nossa parte a efetiva participação na bienal de Pernambuco. E ainda lançamento de livro, o que significa certo esvaziamento. Quem namora entende, a Literatura é uma Arte que mexe com a gente e faz sentir de um tudo. 

É para aprendizagens, expurgos, interação e seja como for, não vou fugir do assunto, só preciso de dizer em bom nordestinês: este ano foi pau. Um ano pau para saber que sabão não se come e que não se pode obrigar ninguém, é. Em resumo, ano cacete. Em grande medida difícil, ainda muito indigesto. Indo direto ao ponto, quero falar sobre o enigma da virgem dos rochedos. Nossa descoberta. Minha e meus alunos. 

A virgem dos rochedos é um quadro de Leonardo Da Vinci. A tela, de madeira, pintada a óleo por ninguém menos que o maestro florentino. Aliás, não uma uma, mas duas. Existe, além da tela exposta no Museu do Louvre, versão que – dizem – apenas o mestre pôs as mãos. Não há auréolas sobre os anjos e santos que protagonizam a cena. O quadro mede 189 centímetros e meio de altura e um metro e vinte de largura e este, sobre o qual nos debruçamos, repousa sobre o teto da National Galery, em Londres. 

Durante o semestre, passados encontros literários e humanos, demasiadamente, na bienal, vimos estudando-o. O que acontece é que no suspiro de istmo de tempo onde pensei repousar a mente cansada das 365 decisões por minuto, em sala de aula e nestas atividades, meu cérebro foi de me encantar, surpreender depois de 450 anos de convivência. Brincadeira. Elaborava a prova final do bimestre, dirigida aos estudantes agora experimentados no Ensino Médio, e do nada, aperto a lateral do dispositivo.

Aquele que torna a tela celular superfície, espelhada, após o impulso inspirado e intuitivo firmei-a diante do computador da escola. Bem no miolo. Acontece que neste momento, observando o resultado da imagem duplicada, metade espelhada do quadro, vi o inacreditável. O extraordinário Leonardo, surpreendeu, de novo. Ele que sofreu horrores apartado da mãe, sendo filho ilegítimo, na sociedade da época, talvez um martírio traduzido nas mãos em prece do São João Batista menino ali retratado, diante do tranquilo e seguro menino Jesus, protegido por seu anjo de feições femininas. 

Para dizer que não contei com ajudas, Alfredo Bosi, historiador e autor do livro “Arte e conhecimento em Leonardo Da Vinci”, que me fez observar a obsessão do artista em refletir as teses platônicas que dividem o pensamento e a experiência humana entre o campo do ideal versus o real. No caso deste lugar das elevadas ideias, uma criança jamais estaria de joelhos sobre rochedos de pontas agudas e desacompanhada. 

Resta-lhe apenas o conforto da mão de Maria sobre o ombro esquerdo. 

Não que o gesto solucione seus problemas, mas sem dúvidas, mais que no campo divino, humanamente aliviando o fardo que é obrigado a carregar no peito: a imensa solidão de não ter mãe. Muito pior que isso, de ter e ser obrigado a se manter afastado, apartado dela, talvez uma virgem não desposada, sem anuência pelas ordens religiosas para a convivência com o filho do pródigo comerciante, pai ilegítimo de Da Vinci. 

Pois que a história se complica muito agora. Caterine, mãe de Da Vinci, ou Leonardo di Sir Pietro Da Vinci, região da Toscana, nascida em Anchiano, terra onde nasceu o pintor florentino, de Florença, era escrava de nobres. Então, não é só que Leo fosse filho bastardo. O pai era Nobre, mas seu casamento não era legítimo pelas leis da igreja da época. Então, eis que este gênio, polímata, ou seja, dotado de várias habilidades e competências, como a gente diz na escola, não nascera pelas mãos dos ditames de Roma e da doutrina escrita em suas normas e dogmas por Pedro e Paulo.

Este gênio escrevia espelhado e, descobrimos no Recife, escondeu figuras enigmáticas entre uma e outra metade do quadro da virgem dos rochedos. Ou seja, resumindo, talvez nós, expostos neste artigo, fizemos o que nenhum livro, youtuber ou especialista na obra nos expôs. O tal espelhamento do miolo do quadro da virgem dos rochedos. Foi no dia sete de novembro que o experimento começou, às dez e treze da manhã na escola em que dou aulas de Arte. Fica no bairro do Espinheiro, ou Encruzilhada, nem saberia que nome melhor nos represente, sejamos, talvez, os primeiros a descobrir a artimanha do artista. 

Que assim seja. Eis um dos motivos do meu amor por escola pública. Há este sopro de inspiração e motivação para realizar o improvável. 

Ainda que não seja exatamente impossível.  

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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