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Opinião

O home que sabia visagês

Por: SIDNEY NICÉAS
Zé amorim, o barbeiro-poeta, traz ao Tesão um texto sobre seus estudos a respeito da profissão que exerce e seus vários pensamentos a partir desses conhecimentos.

Foto: Arthur Humeau/Unsplash

22/12/2023
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*Por Zé Amorim

Nos poucos anos que tenho de barbearia, venho estudando a história da profissão: o barbeiro, além do tradicional corte-e-barba, já fez cirurgias, já arrancou dentes, já amolou armas e foi responsável pela primeira música urbana de entretenimento, o terno de barbeiros. No livro A barba em Portugal, Leite de Vasconcelos fala dos barbeiros que varriam o salão apenas no fim do dia, assim o excesso de cabelos sinalizava que tiveram muito movimento. Também menciona um barbeiro-cirurgião que exibia um rosário de dentes no pescoço para certificar a sua experiência. Quero com isso dizer que a profissão já passou por vários momentos e modismos.

O visagismo é a febre hodierna. Comprei o livro o Visagismo integrado e o li de cabo a rabo. O livro traz um apanhado interessante sobre a arte, a divisão de rosto, a teoria das cores, as linhas e os ângulos. Até aí tudo bem; porém, quando começam as duplas fotos com o antes e o depois, há uma clara manipulação, pois as fotos de "antes" são geralmente com luz baixa, roupas neutras e rosto inexpressivo, ao passo que nas fotos de “depois” há mais luz, roupas melhores ou coloridas, maquiagem e sorrisos. Sendo assim, há um problema sério de método. Não bastasse isso, há uma tabela com os tipos de temperamento: sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático. Fui procurar mais sobre o assunto e encontrei o artigo A teoria dos temperamentos: do corpus hippocraticum ao século XIX.

Conversei sobre a Teoria dos temperamentos (também chamada de Teoria humoral) com um colega formado em psicologia. Ele me disse que Freud chegou a estudar essa vertente, que era moda naquela época, mas, por ser uma teoria muito causalista (de causa e efeito), foi abandonada logo em seguida. Em outras palavras, é uma teoria ultrapassada que só aparece no curso de Psicologia para contextualizar a história e mostrar como se começou a pensar o psíquico e pronto, apenas isso. 

            Dia desses me apareceu um vídeo de um visagista dizendo que o cliente, por ser um leigo no assunto, precisava ser informado sobre a imagem que desejava passar. Fico pensando que leitura visual seus pais, colegas de trabalho e as projeções na Tinderlândia farão desse pobre incauto, uma vez que, assim como ele, também são leigos, pois não foram alfabetizados no visagês. É contraditório e ilógico, para não usar uma palavra grosseira. E há barbeiros que pagam por esse tipo de formação, e há clientes, às vezes até com curso superior, que pagam por esse tipo de consultoria que, além de cara, não entrega o prometido. É isso, o sujeito usa o neologismo visagista, veste uma camisa de botão ou um blazer, chama o queixo de mento, executa um corte na tesoura, apresenta uma teoria anosa como nova e acha que passa autoridade. 

            Ver o profissional como um artista? Tudo bem; função estética? Tudo certo; proporcionalidade? Também. Agora, criar identidade a partir do temperamento do cliente, aí não dá! Não dá para se arvorar em preceitos da Teoria humoral, enterrada há mais de século. Tenho sido bombardeado com propaganda de cursos de Vigarismo, quero dizer, Visagismo. Não venderia isso para os meus clientes. Aliás, penso que a maioria deles não embarcaria nessa viagem. 

         Vamos imaginar um mundo hipotético em que os leigos fizessem a adivinhação tão sonhada pelos visagizados: bastaria o ditado “as aparências enganam” para pôr em xeque essa visagemancia. Mas há um adágio latino de que gosto ainda mais: BARBA NON FACIT PHILOSOPHUM. Assim como a barba não faz o filósofo, o cabelo (ou o seu corte) não faz o intelecto, não faz o criativo, não faz o ritmo, não faz a vontade ou a emoção. Em suma: é mais fácil o filósofo não fazer a barba do que a barba fazer o filósofo! 

 

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

 

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

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