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Literatura

O hospedeiro

Por: SIDNEY NICÉAS
Maciel Melo traz em seu texto uma expressão poética e reflexiva sobre a vida, experiências pessoais e a natureza humana.

Foto: Bjorn Pierre/Unsplash

01/02/2024
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*por Maciel Melo

Sou seu hospedeiro; ela é minha inquilina. Dentro de mim, ela pode se achar e se perder pelos atalhos do meu interior de bandeira em punho, de espada em riste, sem temer a morte, sem zombar da sorte, sem bater continência, sempre alerta, mantendo a postura e mudando o jeito da posição de sentido. Falo de minha poesia. Já rompi mares, amansei procelas, fiz das tempestades um remanso e ancorei num cais desenhado numa folha de papel, quando ainda precoce, via a vida bem pra lá do horizonte. Mas hoje, a calmaria me assusta; tudo deserto, o medo nas ruas, nenhum barco à vista; o amor e o ódio formam dunas de dúvidas e amontoam-se às margens de um rio seco.

Até que enfim descobri que o deserto não é só calmaria, a solitude não é solidão, viver só não é ser único e estar em turma não é ser multidão. Soltei a âncora, icei as velas e deixei os ventos me levarem. Driblei a inveja, aparei as arestas e não sossego enquanto o último pingo d’água não transbordar o pote do meu nascedouro. Às vezes me pergunto por que Deus inventou de criar a incompatibilidade de gênios. Por fora, a beleza estética embala o mais sublime dos sentimentos: o desejo; por dentro, a indecisão da alma vagueia em mares distantes, muito além da imaginação. Me isolo, me deito, me levanto; perambulo pela casa; a noite demora uma eternidade, não consigo dormir.

Os pensamentos voam longe, vão lá nas profundezas dos grandes sertões e voltam pelas veredas de Guimarães trazendo rosas para enfeitar a minha humilde sala de estar. Nasci lá, nos rincões das beiras dos rios. Lá, não havia luz elétrica. O Brasil ainda engatinhava quando fui gestado por uma paraibana. Nasci raquítico, pirralho, magro; a carne era por dentro do osso. Minha mãe fez um rosário de contas pendurou no meu pescoço; depois, uma rezadeira me benzeu com três galhos de arruda e cá estou malazarteando a vida.

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*Maciel Melo é poeta compositor, músico, ator e escritor, com três livros editados: “A poeira e a estrada, O refúgio das interrogações, O menino que sonhava passarinho”, e um ainda no prelo, a ser lançado em breve com o título: “A marca da cicatriz”. Maciel é hoje uma referência da música nordestina; autor de sucessos gravados por grandes vozes do país ( Elba Ramalho, Fagner, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Quinteto Violado, Flávio José, Xangai entre tantos outros). É o compositor do clássico “Caboclo Sonhador”, e outros sucessos como: Que nem Vem Vem, Tampa de Pedra, Terra Prometida, Caia por cima de mim, Isso vale um abraço, Jeito Maroto, Dê cá um Cheiro, Pra ninar meu coração, O velho arvoredo Retinas, Rainha, Dama de Ouro, esta inserida na trilha sonora do filme Lisbela e o prisioneiro, além de ter atuado como ator na novela Velho Chico, folhetim das nove da rede globo.

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