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Literatura

O que salvamos do fogo contemporâneo no Modernismo…

Por: SIDNEY NICÉAS
Dia 22, 22 obras da Semana de 22: Geórgia Alves marca essa “virada numerológica” para falar sobre o Modernismo brasileiro

Foto: Reprodução/Ambrosia/Arte Tesão Literário

22/05/2022
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*por Geórgia Alves

Outro dia me peguei com uma das mãos erguida ao vento no pátio da escola. O motivo? Quem são meus cinco? Dentre os Modernistas, a quem daria a primeira palma da mão? Impossível encontrar, senão em mais de um século, coerente resposta. Pois que não se é dado pensar o Modernismo sem cair nos efeitos dramáticos e dialéticos do quê de “universal versos o nacional”. 

Por mais que metrificasse em valores uma e outra obra e vida ativa no campo das Artes, não escaparia do problema de encontrar problemas em solucionar magnificências entre palavra e imagem. Então, estando dedicada mais aos estudos das imagens, opto por campo onde sinto tanto menos desconforto. 

A primeira mão se ergue com nomes mencionados no título deste ensaio – de modo que quem discorde pode abandonar sem perda de tempo – não sem antes mencionar que Paulo Menotti Del Picchia deveria constar, enquanto primeira geração, mas sou por demais fã pela simplicidade de Alfredo Volpi. Ainda não fosse tudo que vi e li sobre a obra, por vida, é quem se vê aqui eleito.

Já se arranjou muita confusão em numerar o inumerável, enquanto feita dessa matéria humana, falível, preciso dizer que a contribuição de Anita só poderia mesmo ter sido questionada por desorientado integrante da elite brasileira que segue de costas para a realidade, como caso do neto de Visconde. 

O fato é, seu objeto de fúria, uma mulher, não por acaso, sensível e de fato uma artista em essência, acabou despertando entre os demais a fúria que seria revertida em uma semana para as novas vozes nas Artes Visuais, Literatura e na Música, como se sabe realizada por três dias no Teatro Municipal de São Paulo.

Tudo começou, infelizmente, quando se viu perdendo o apadrinhamento do tio no retorno ao Brasil, em 1916. É esta mesma artista que fará sua segunda exposição em 1917, no dia 13 de dezembro, na expectativa de ser compreendida em público mais amplo que a família e, para a grande guinada posterior que viveria, teve seu quadro A Boba duramente criticada pela “ala conservadora da elite cultural de São Paulo”, para não citar nem invocar nomes. 

Teve muitas das obras devolvidas, outras destruídas, o que levou a artista a uma tristeza profunda e isolamento. Retomando estudos apenas dois anos depois, para finalmente merecer o abraço de Di Cavalcanti – também de seu mentor e professor alemão, George Fischer Elpons – Tarsila, Menotti del Picchia além do Oswald de Andrade. 

Anita participa da Semana de Arte Moderna, em 1922, com 22 trabalhos. Na dança de seus melhores números, segue para Paris com bolsa de estudos do Pensionato, por cinco anos. Período mais longo fora do Brasil. Imagino seu gozo no vapor Mosella, rumo à França, extraordinária virada. E quando do retorno a este outro Brasil? O mar da história é agitado. E sempre há uma lição quando se chega em terra firme. Ainda tem gente que se pergunta se há algo de diferente em ser artista homem ou mulher. 

Aos meus olhos, somente a qualidade estética sobrelevada produziria quadro como Torso ou O Homem Amarelo ou A Estudante Russa. Nem é preciso mencionar o problema da coordenação motora, é por motivos mais artísticos e óbvios que começo salvando Anita do fogo. 

O que, infelizmente, não aconteceu com a tela Samba, do extraordinário Di Cavalcanti, que teve a chance de conviver com Henri Matisse, Pablo Picasso e Georges Braque. Emiliano Augusto criança aprendeu a tocar piano e se interessava no mais remoto de sua existência por cores, por refazer as formas do mundo na pintura. 

Extraordinária sua obsessão por mostrar ao Brasil o que era incapaz de ver. Filiado ao partido comunista, não nomeado adido cultural por causa do golpe, mais um no país dos golpes, aquele contra João Goulart. É mencionar o nome de Di e recebo ligações na madrugada, quem sabe de sua importância? 

Nada comparado nem ao creme do Kremelin entre artistas ativistas. Pelo menos foi reconhecido, a exemplo de nosso Raimundo Carrero, pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte. Precisarei de mais tempo para desenvolver paixão semelhante pelos outros dedos. Prometo voltar apontando para eles. Por hora, guardo em sinal de alguma vitória, aos demais recolhidos aos traços da palma.

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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