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Opinião

O sentido de Evolução em sociedade (ou alguma coisa pode ser amor, mas nem parece)

Por: SIDNEY NICÉAS
A escritora Geórgia Alves fala sobre o filme Folhas de Outono, apresentando suas opiniões e visões a partir dele.

Foto: Reprodução/ Terra.com.br

06/02/2024
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*por Geórgia Alves

Em "Folhas de Outono",  não há como deixar de lado que a vida em sociedade, tomada pelo trabalho, pela falta de uma ordem e de um sentido evolutivo, está adoecendo qualquer um, em um modelo fracassado de querer dar certo. O modelo de sociedade fundada pela "padronização do imaginário" e pelo "imaginário padronizado" capitalista (ou pelo socialismo histórico) nunca pôde garantir mais nada para a maioria das pessoas, muito menos construir um "plano de vida" estável, em um modelo "evolutivo de sociedade". Faz tempo que este modelo faliu e só se segura porque há um mundão de gente que aceita ser governada como temos sido governados, aceita ser endividada como somos endividados e aceita trabalhar nos modelos de submissão e de servidão que persistem, como modelos de prosperidade e de esperança, apenas mudando de nome e de forma. De uma maneira que se deixa para lá e aceita que é isso mesmo: é viver para se submeter. Que não há que, como e de quem esperar a construção de uma sociedade que sinalize possibilidade de evolução social, sem que isso deva ser um plano de construção de riqueza a partir da acumulação de capital como conquista individual, em geral, prometida e associada à ação individualizada do trabalho. Dentro disso, alguma coisa pode ser amor, ainda que não pareça, promete o filme " Folhas de Outono", para manter a utopia de haver saída para a vida insuportável e adoecida que se vive e, assim, manter o discurso de fazer a diferença através de um ímpeto pessoal de vencer socialmente e à revelia da "sociedade-beco-sem-saída". Estamos aceitando que os Estados e governos sejam controlados por gente apenas comprometida em manter os papéis em dia e em cumprir as dívidas dos Estados com os bancos, sem dar à sociedade uma ordem política e econômica para além das aparências. Não temos como criar um modelo evolutivo de sociedade, não nos padrões prometidos, nem existe como gerar empregos para todas as pessoas, nem como estabelecer relações comerciais de alto impacto entre países, aumentando a arrecadação, então, por exemplo, passamos de uma para três vezes na semana a arrecadação indireta com o jogo da Mega-sena, presa fácil para milhões de desempregados e endividados, em um país que não pode, nem tenta com afinco, garantir estabilidade e prosperidade para as gerações.

Uma historinha sobre tentar e realizar é atribuída a Otto Glória, em outros tempos, técnico da Portuguesa de Desportos. O centroavante do time tentava mostrar ao técnico que tinha suado bastante durante o jogo em que a Portuguesa havia perdido. Otto teria dito, algo mais ou menos assim: não estamos no negócio de suar a camisa para ganhar o jogo, mas no negócio de fazer gols, mais gols que o outro time.

Penso isso na hora de ver as democracias e os governos, diante de qualquer ciclo de debate sobre os temas fundamentais, hoje, para dar harmonia ao Planeta: parecem que estão querendo mostrar quem estão suando a camisa (uns nem tentam), mas gol, gol mesmo, nada. Uma vez que governar é um impossível, parece que se governa para fazer algo que crie estabilidade econômica em larga escala e oriente a um modelo evolutivo de sociedade, mas apenas corre, e correr é mais fácil e faz parte do espetáculo. Enquanto isso, não apenas vivemos, mas assistimos às sociedades chegarem a colapsos anunciados e evidentes. O sentido de evolução da sociedade e em sociedade se esgotou. As cidades estão feias, sujas, violentas, entupidas de gente sem senso de direção, sem saber como escapar dos grilhões do trabalho. É importante falar da redução dos fatores poluentes e destruidores da natureza, já. Mas é urgente falar dos modelos "involutivos" e "paralisados" de trabalho e  de sociedade. Por nós, adultos agora, por nossos filhos (as), modelados por uma educação que não contagia quase ninguém e mais parece um navio apagado em noite sem lua, sem saber para onde vai.         

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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