Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Opinião

O sentimento dos versos

Por: SIDNEY NICÉAS
Iaranda Barbosa chega ao Tesão com uma resenha sobre Pulsão de Língua, de Daniel Glaydson.

Foto: Reprodução/miradajanela.com

27/10/2023
    Compartilhe:

*Por Iaranda Barbosa

 

Palavra-som-imagem. Assim se apresenta a tríade que sustenta os experimentalismos verbo-voco-visuais de Daniel Glaydson, em Pulsão de Língua, um inquietante livro de poemas, devido às provocações relacionadas tanto às experiências sensoriais quanto às sociais. 

Cada poema nos leva a reflexões e à busca por referentes empíricos, subjetivos, filosóficos, históricos, existencialistas. O exegeta é intimado a fazer parte do processo criativo, a renunciar ao senso comum, a abandonar a zona de conforto. Nesse sentido, os versos de Daniel Glaydson se inserem com perfeição nos chamados movimentos deslocadores, pois somos por eles impelidos a estabelecer relações associativas entre os mais diversos temas e a sentirmos o pulsar de língua, sobretudo, quando nos deixamos levar pelas combinações semânticas e morfossintáticas que o poeta explora. Ademais, são pulsantes os processos fonológicos, as quebras da ordem sintática, a criação de estruturas semânticas, a intertextualidade e a interdiscursividade, elementos esses que nos levam a fabricar e fomentar no imaginário novas imagens: 

 

Chegou o momento de lembrar da fome

e da sede, porque ouviu-se uma orquestra

de estômagos e intestinos e das peles labiais

ressecadas e brancas, quebrando ao chão.

 

então foi preciso chamar os peixes,

trocar com eles uma ideia, encantá-los

e comê-los. e aprendeu-se a mergulhar

para colher as verduras submarinas.

[...]

 

Evidentes ou subentendidos, os apelos visuais rodopiam em meio às rupturas dos padrões canônicos, provocando olhares pontuais e profundos, intensificados pelas combinações sonoras, inclusive, das semelhanças e diferenças advindas de outras línguas que se fundem na composição poética:

 

No Início era a Tradução.

Im Anfang war die Übersetzung,

poderia ter escrito João

― ΕΝ ΑΡΧΗ ἦν ἡ μετάφρασις, απόδοση,

en arché ên he metáphrasis, apódose,

performance

― ou Fausto: na Infância era a Transcriação.

 

A combinação de elementos é o combustível para o sentimento dos versos, expresso na intensidade e nas acentuações, diluído na métrica, saltitando no ritmo, bailando na harmonia, flutuando na musicalidade, habitando cruzamentos da espacialidade, da sonoridade, da sintaxe e do imaginário. Afinal:

 

O texto é só

a partitura do pensamento tatuada

em tua nuca.

 

As questões sensoriais, em determinados poemas, são exasperadas por estrofes que a priori aparentam ser caóticas, mas que ao longo da leitura vão ganhando sentido e formando um corpo pulsante, fazendo com que o leitor, literalmente, se aproxime da obra:

 

[...]

esta mão deformada

tem seu próprio abismo

e cordilheira

 

mutilados pela raiz

afi ncamo-nos ao solo

compartimentados

 

são quinze andares de papéis com nomes

e fotos e dados e números dos desaparecidos

 

acessar sistema de registro de frequência para bater o ponto

ao chegar ao sair para cagar para almoçar ao voltar ao morrer

 

e no entanto mais que as formigas

mais ao sul que ao norte laboramos

 

ordena-se catalogação digitalização disponibilização

higienização armazenamento redistribuição rearquivamento

 

só a cigarra responde:

soispedaçosdumengrenagendisfuncional

soispedaçosdisfuncionaisdumengrenagemperfeita

[...]

O poeta também brinca, joga, trabalha com as possibilidades que a tecnologia permite, ao explorar as tipografias e os símbolos gráficos, ombro a ombro com os alfabetos latino, grego, sérvio, cirílico:

 

¤ domar a loucura para procriar a lou-cura ou

procriar a loucura para domar a low cure

 

ф sou cavalgador de discos, a penas

inventore de palimpsestos ruidosos que tendem ao inaudito

 

Ŋ ¿ você ainda quer tanta infância ?

 

Ђ acompanhado das ruínas e de sua irrelevância

persegue-me toda via o terror do desabamento

 

ф ¿ se eu quero tanta infância ?

¡ fôssemos nativas,

com ti, nua ríamos !

¤ Riremos, remos !

eil-os.

 

Daniel Glaydson ouve o cantar das musas e das sereias, é trovador, cordelista, rapsodo, menestrel, contador de histórias e brincante das palavras. Em Pulsão de Língua a poesia faz festa e viaja milênios através da epopeia, da ode, do épico, do contemporâneo e do popular, sem perder de vista, inclusive, a crítica social e política, presente de modo cirúrgico na tessitura de versos onde o telúrico e o feérico se encontram e se expressam de modo pulsante nas inúmeras idiossincrasias presentes na retina do poeta.

 

Iaranda Barbosa é professora, escritora e crítica literária. Doutora em teoria da Literatura pela UFPE, é autora da novela histórica Salomé (Mirada, 2020), obra finalista do Prêmio Literário Maria Firmina (2021). Também foi curadora e uma das autoras da Antologia das Mulheres Pretas (Mirada, 2021) e de Artemísias: vozes de libertação (Mirada, 2021). Possui tanto textos críticos quanto literários publicados em coletâneas e colabora com o Blog Tesão Literário, de Sidney Nicéas. No perfil pessoal do Instagram, quinzenalmente, realiza o Resenharia. destinado à análise de obras de mulheres vivas. 

https://mirada.minestore.com.br/produtos/salome-iaranda-barbosa 

https://www.instagram.com/iarandabarbosa/ 

https://www.facebook.com/iaranda.barbosa 

https://mobile.twitter.com/iarandabarbosa 

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook