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Odaliscas Confusas: Mario Viana e as tais das máscaras...

Por: SIDNEY NICÉAS
Usar máscara pegou de vez? Confira a nova e sempre deliciosa crônica do escritor-roteirista de novelas Mario Viana

Foto: Michel Corvello/Fotos Públicas

13/10/2020
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*por Mário Viana

Aqui em casa, rolou uma flexibilizaçãozinha, porque ninguém é de ferro. Foram três dias numa pousada a 180 quilômetros do lar, naquilo que nós, urbanos, chamamos de meio do mato. Pacote completo: a serra se estendia até onde a vista chegasse, seiscentos mil tipos de pássaros cantavam o tempo todo, o cheiro de mato e de terra molhada irromperam quando a chuva caiu – sim, choveu e foi ótimo. Seria tudo muito parecido com os tempos de outrora se não fossem as máscaras.

Tão fundamental quanto uma lingerie em ordem, a máscara veio pra ficar. Caminhando sozinho pela estrada ou repousando no chalé, ok, você pode abdicar dela. Mas basta qualquer situação que convoque outro ser humano para ela acoplar-se novamente ao rosto. Nas áreas públicas da pousada você se sente uma odalisca em meio ao harém. Só falta aprender a dança dos sete véus.

No café da manhã, o desafio era se servir usando máscara e luvas plásticas – que deveriam ser descartáveis, mas quem consegue tirá-las da mão antes que o café esfrie na xícara? A cada vez que precisava tirar a luva, eu me perguntava como a Rita Hayworth fazia aquilo parecer tão fácil no filme Gilda.

Nem sempre se cumpre os protocolos ao pé da letra, é preciso confessar. Se você pedia o serviço de quarto, era automático abrir a porta e… No susto, você se sente saindo nu da piscina, com todas as pendências expostas. Antes até que o funcionário perceba, você corre para cobrir o rosto – eis o nosso novo código de pudor. Por mais sincero que seja o sorriso, uma boca exposta hoje em dia revela-se indecente.

É até engraçado observar como as pessoas se comportam em seu momento odalisca. Nos banheiros, por exemplo, máscaras sempre em modo on dão a ideia de que nos livraremos dos odores. Fake. Mas nos restaurantes, você pode tirá-las quando estiver à mesa. Acontece que os mais ansiosos começam a se desfazer da máscara assim que avistam o restaurante! É preciso que o garçom relembre – com jeito, pra não espantar o freguês – da necessidade protetiva.

Aí vem a adaptação de verdade. Tente compreender o cardápio por sua própria conta, sem muitos questionamentos. As respostas do garçom passam por pelo menos três barreiras até chegar aos nossos ouvidos: a máscara, o face shield e a distância. Se o garçom fala com algum sotaque, danou-se. “Como?”, “Hein?” e “O quê?” são as frases mais comuns entre a clientela. É muito aprendizado, Deus do céu.

Para quem tenta seguir as regras do isolamento – sem paranoias, claro -, a flexibilização é a grande oportunidade de usar peças do vestuário que estavam quase aposentadas no fundo do armário. Sabe aquele par de tênis? E a camiseta comprada numa das últimas viagens antes “desse inferno” começar? Ressuscita tudo, que hoje tem plateia. Só dá uma testadinha antes, diante do espelho. Confere se roupa e corpo continuam falando a mesma língua.

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Mario Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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