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Opinião

Onde Está Antígona?

Por: SIDNEY NICÉAS
Comprar, recomprar, emprestar, compartilhar um livro: André Resende traz uma crônica deliciosa sobre a leitura

Foto: Reprodução/Wikipedia

09/07/2023
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*por André Resende

ONDE ESTÁ ANTÌGONA?

CONTARDO CALLIGARIS contou que costumava recomprar livros que havia lido e tinha certeza de estar perdido em algum lugar de sua casa. Em algum buraco das estantes. Disse mais uma vez, em “O Sentido da vida” (Paidós/planeta,2023).

Quando me separei – eu me casei com quem quis me casar, mas... me separei –, deixei centenas de livros de filosofia, de história e de literatura “em” casa, porque meu filho mais velho estava a caminho do vestibular e gostava da ideia de estudar filosofia. Filósofos, como psicanalistas, não se bastam lidos: precisam ter acentuada a neurose de intermitente conhecimento, que os faz cultos e/ou eruditos (uma fatia dos tais, insuportavelmente, alienada do uso do saber para não oprimir e não menosprezar os demais humanos demasiadamente humanos). Precisam ser polímatas. Uma coleção que começou aos catorze anos, ficou “em” casa, não foi mexida, depois guardada em lugar indiferente a livros e se perdeu. Tive de recomprar alguns que estavam sempre por perto.

Aconteceu com os livros que aconteceu com os times de futebol de botão de osso: em um momento e com certa idade, resolvi manter e guardar para passar para meu filhos e filhas – e jogaria futebol de botão e futebol com minhas filhas, se tivesse filhas – tive e tenho, por amor e carinho, mas dos outros -, como joguei com sobrinhas, que nem sempre queriam jogar futebol de bola ou de botão. Quando meus dois filhos já faziam barulhinho bom dentro de casa, os times de botão ficaram desinteressantes, os “games” eram nas telas e eu tive pouca paciência para eles – e segue assim –, mas jogávamos futebol na rua, na praia, em campinhos improvisados, no corredor dentro de casa e no Jardim.

Os livros chegaram, se acomodaram em uma área estabelecida, chamada ora de escritório, ora de estúdio, porque eu usava para ler, escrever e conversar, mas nunca fora chamada de biblioteca. Separado, não tive mais estúdio, nem biblioteca: escrevia no quarto – e em quarto de hotéis de São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Ares... – ou no consultório, em Recife, lia invariavelmente deitado na cama, muito cedo porque durmo perto das dez da noite. Os livros viajavam do quarto à sala, da sala ao carro, do carro ao consultório e desapareciam no meio do caminho ou reapareciam em lugares improváveis. Eles continuam se escondendo, alguns se perdem para sempre, outros entrego a pessoas com quem quero seguir conversando, construindo ideias, imaginando que podemos mudar o mundo ou pelo menos nossas cabeças. Ou ajudar nossas relações, ampliar intimidades e telepatia. Ou me aceitar como um ser que não para de buscar conhecimento, de inventar mundos. 

Atualmente, apenas uma pessoa me anima a mover os livros e dizer pega, leva, lê, cê precisa ver isso, isso me arrebatou, porque nós temos de fazer algo juntos. Não são empréstimos, são compartilhamentos, aproximações, afinidades a construir, um tipo de novelo de aproximação de imaginários e de interesses para fugirmos da caverna labiríntica e minotáurica das vastas ignorâncias e das soberbas crescentes, movidas por narcisismos marcados por compulsões devastadoras e adoecedoras.

Os livros vão e sei que vão sorrindo. Sabem do papel que cumprem em minha sede, em minha fome e em minha pressa de viver, em minha angústia de não querer me sentir sozinho (“ET phone home”) no labirinto da vida, “no vazio da imensidão do céu” e na solidão dos cafés apinhados de conversas sobre marketing, finanças e como otimizar o trabalho alienante, exaustivo e repetitivo. Mas só faço isso, de compartilhar livros, com alegria, quando vejo nos olhos da pessoa aquela escancarada falta de ar de quem diz “ai, meu Deus, preciso abrir e folhear este livro imediatamente, pois sinto, sei, imaginei nele alguma coisa que de algum jeito vai me explicar para mim, vai me acalmar de mim, vai me fazer saber melhor de mim”.

Quando não encontro, em casa, um livro, sorrio, saio e compro outro, a menos que seja desses raros, que parece que ninguém mais tem. Caso do Antígona, de Sófocles. Tive/Tenho tantas versões e traduções em outras línguas e, agora, não encontro nenhuma, em nenhum lugar da minha vida. Vou nas livrarias e sebos ao redor de onde moro, ninguém tem. Amanhã cedo, faço mais uma tentativa dentro de casa. De verdade, não preciso reler Antígona: li uma dezena de vezes. Mas eu preciso reler, ainda mais uma vez, pois estou escrevendo uma peça curta em que um casal conversa sobre limites e procura encontrar vestígios da ossada de Antígona na atual Tebas. Se não encontrar, e eu não preciso encontrar, nem reler, mas terei de seguir procurado nas livrarias e sebos. Como se fosse uma necessidade de destino.

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André Resende é escritor e psicanalista. Nasceu no Recife e mora em São Paulo. Como escritor tem onze livros publicados. Como psicanalista, faz atendimento e supervisão individuais e coordena grupos de estudos. É supervisor e editor de romances, contos, ensaios, roteiros e peças de teatro. Coordena grupos de diálogo em torno de Micropolíticas Cotidianas e Dos Masculinos há quase uma década. Está à frente da SIX Educação e do Programa Emocional e Social, que leva a escolas e faculdades atividades com teatro, sequências didáticas e atividades em grupo sobre habilidades emocionais, inteligências e estágios de moralidade. Foi idealizador e apresentador do projeto Frente da Psicanálise, espaço de interação e diálogo com artes, cultura e ciências, e coeditor da revista de psicanálise Intersecção, da instituição psicanalítica IPB.

https://www.facebook.com/andre.resende.14289

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