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Opinião

Os olhos dos outros

Por: SIDNEY NICÉAS
O professor Flávio Brayner traz um texto sobre a capacidade que temos de enxergar uma “realidade” a partir de nossos próprios olhos.

Foto: Azmaan Baluch/Unsplash

10/01/2024
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*por Flávio Brayner

Creio já ter me referido, aqui mesmo neste blog, a uma passagem de Paulo Freire (Pedagogia da Esperança) em que ele se refere a uma visita que fez a uma universidade chilena, acompanhado por um professor, em que, na visita, Freire colocou a mão no ombro do amigo, o que lhe provocou um visível incômodo. Nosso educador então se perguntou “o que havia na cultura daquele homem que o impedia de ver num, simples tocar, um gesto de amizade?”. Anos mais tarde estava na Tanzânia quando, visitando uma escola, seu anfitrião entrelaçou seus dedos com os de Freire, o que lhe provocou um grande constrangimento e, na primeira oportunidade, colocou as duas mãos no bolso da calça! Algum tempo depois, ele mesmo se perguntou: “O que há na minha cultura que me impede de ver um gesto amistoso apenas diferente do que estou acostumado?”.

Qual a capacidade que temos de enxergar uma “realidade” a partir de nossos “próprios” olhos? Parece que o problema é que não enxergamos com os olhos, mas com a cultura que nos antecede e nos foi imposta através dos diferentes dispositivos de subjetivação, a escola, inclusive. A CULTURA, como a língua para Barthes, seria “fascista”, não porque ela nos impõe uma visão, mas porque nos obriga a ver e a falar a partir de predicados que não nos “pertencem” (heteronomia).

Acabei de ter uma experiência interessante nesse sentido: a UFRPE organizou um seminário internacional em que esteve presente a professora da Universidad de Mar del Plata (Argentina), Inès Moujan, que proferiu uma bela conferência sobre educação e decolonialidade. Ao entrar no Salão Nobre da Universidade Rural, onde o seminário foi aberto, e onde se encontra um imenso mural de Lula Cardozo Ayres sobre as condições de trabalho, de homens e mulheres, nas plantações de cana-de-açúcar nordestinas, a professora Inès observou: “Não há nenhum negro neste mural!? Mas não foram eles, os negros escravizados, que produziram a economia açucareira?”. Confesso que fiquei surpreso comigo mesmo por nunca ter observado essa “ausência”, ou “omissão”, ou “esquecimento”... ideologicamente (culturalmente) dirigindo meu olhar para NÃO VER! Ainda mais surpreso porque nas minhas aulas cansei-me de tratar o tema da IDEOLOGIA, de Destutt de Tracy a Althusser, de Marx a Gramsci, de Lukàcs a Marcuse... e sou surpreendido por um olhar cultural vindo DE FORA!

Lévi-Strauss (Tristes Trópicos) já nos tinha advertido a respeito desta “antropologia interior”, de como a experiência com uma outra cultura permite enxergar a nossa, quer dizer, de quantos “pré-conceitos” somos feitos e constituídos. O preconceito funciona como se, ao nomearmos as coisas do mundo, de substantivá-las, nós já acrescentássemos automaticamente sua adjetivação, seus supostos predicados: já suponho o “índio” como “preguiçoso”; o “negro” como “inferior”; a “mulher” como “emotiva” ..., exemplos hoje sem nenhum sentido mas que marcaram a história de nossos mais arraigados preconceitos. Mas é assim que uma ideologia funciona: tenho a clara impressão de que o que estou vendo e nomeando não apenas representa o que a realidade “É”, mas sobretudo que esta nomeação é fruto de uma consciência individual, de minha opinião pessoal, da autonomia de meu pensar, mas isto só funciona porque sou impedido de avaliar esta visão das coisas com olhos que não sejam aqueles fornecidos pelos dispositivos subjetivantes.

Isso significa que precisamos dos outros, dos “olhos dos outros”, não por solidariedade ou simples compartilhamento, mas porque, sem a alteridade eu não posso me constituir como IDENTIDADE, muito menos como identidade crítica, quer dizer, ser ao mesmo tempo EU MESMO e um OUTRO que avalia, pensa e julga o que sou e, sobretudo, o que fizeram de mim.

Naquele momento, naquele Salão Nobre, na companhia da professora Inès Moujan eu percebi que ver (sentido) não é a mesma coisa que enxergar (cultura) e, por mais preparados que estejamos para as armadilhas ideológicas de uma cultura, é preciso outros olhos culturais para que possamos enxergar. Aliás, com sua presença aqui entre nós, a professora Moujan abriu uma porta junto ao Consulado da Argentina no Recife, com a Consulesa Julieta Grande, para estabelecermos acordos bilaterais de cultura e educação entre nossos países: nada como o olhar do outro sobre nossa cultura, e espero que coisas realmente “grandes” estejam por vir!

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Flávio Brayner é Cidadão Pernambucano, Mestre em História pela UFPE, Doutor em Educação e Pós doutor em Filosofia pela Sorbonne (FRA), Professor Titular Emérito da UFPE e ex-secretário adjunto de educação do Recife (2009-2010).

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