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Página infeliz da nossa história: a prisão de Miguel Arraes em 1º de abril de 1964

Por: REDAÇÃO PORTAL
Um relato sensacional do momento da prisão do governador de Pernambuco, escrito por quem participou desse capítulo da História do Brasil, o Dr. Ivan Rodrigues.

Foto: Reprodução Internet

01/04/2021
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A data de hoje marca os 57 anos de um dos dias mais infelizes da história do Brasil. Em 1º de abril de 1964, militares invadiram o Palácio do Campo das Princesas na tentativa de forçar o então governador Miguel Arraes de Alencar, a renunciar ao mandato. Eleito democraticamente pelo povo de Pernambuco, Arraes se recusou a acatar a ordem, tendo sido preso e deposto do cargo que lhe foi conferido pelo voto popular.

O Brasil vem enfrentando nos últimos meses, tentativas constantes de ataques à democracia e à Constituição. Algumas autoridades, legalmente constituídas que deveriam manter o juramento de defesa do estado democrático de direito, muitas vezes são os incentivadores e até motivadores, desses ataques.

Para que a História não seja esquecida, o Ver Agora traz um excelente relato de alguém que participou do momento histórico. O texto, originalmente publicado pelo jornal Folha de Pernambuco em 2014,  do Dr. Ivan Rodrigues, na época presidente da CIlpe e também preso pelo golpe militar, é uma contribuição de quem presenciou a altivez e o espírito público do Governador Miguel Arraes, que com coragem bradou aos seus algozes: “O senhor não tem autoridade para me depor. Sou Governador do Estado eleito pelo povo de Pernambuco e somente ele pode me depor. Ou então o senhor quer dizer que estou preso e isso o senhor pode fazer pela força.”

"PRIMEIRO DE ABRIL DE 1964 (Quem foi que inventou o 31 de março ?)

Por Ivan Rodrigues

Como parte das manifestações promovidas para relembrarem o dia Primeiro de Abril de 1964, fui o palestrante de um evento realizado no Instituto Miguel Arraes, em que relatei os fatos ocorridos naquele dia e mais alguns relativos à minha ligação por mais de 40 anos com o grande líder que foi Miguel Arraes. 

“Relutei muito para decidir se deveria escrever essa palestra ou, de improviso, correr o risco de me trair pela emoção e dizer algumas inconveniências. Preferi escrever e faço aqui um relato sucinto da ocorrência que mais me impressionou naquele dia 1º de abril de 1964 e outras acontecidas no decorrer da minha vida, sempre ligadas a Dr. Arraes. Vou direto à primeira:

Desde a véspera, 31 de março, surgiam boatos desencontrados e realçados pela precariedade dos noticiários existentes, como sempre arrebanhando a opinião pública através de uma imprensa predisposta a servir ao poder dominante, ao sabor de suas conveniências. As conversas se prolongavam, em ritmo sempre vibrante e variado, sobre revolução, contra-revolução, golpes de estado, participação “yankee”, disposição de lutas, covardias e empáfias.

Começo a perceber gente arrumando malas e víveres em seus carros e saindo como apressados viajores. Imagino que devo fazer alguma coisa, tomar alguma atitude, romper uma passividade que me incomodava. Passei na empresa que dirigia, assinei alguns papéis mais urgentes e dirigi-me de imediato ao Palácio do Campo das Princesas.

Percebo logo uma intensa movimentação de tropas militares em seu entorno, sem interferirem, entretanto, no ingresso das pessoas ao Palácio. Até aquela hora todo mundo entrava ou saía sem dificuldades e ali encontro centenas de pessoas que não mais consigo relembrar com segurança e não quero cometer a injustiça de omiti-los.

Assisto a chegada do Comandante do Distrito Naval, Almirante Dias Fernandes que, trancado com Dr. Arraes no seu gabinete juntamente com Pelópidas Silveira e Celso Furtado, trazia uma proposta indecorosa em nome de um suposto Comando, que asseguraria a permanência do Governador à frente do Executivo desde que manifestasse apoio irrestrito à quartelada que já se anunciava. Proposta recusada, como todos sabem. Porém, enquanto se realizava a reunião, as tropas do exército ocuparam a Praça da República com ninhos de metralhadoras estrategicamente colocadas visando o Palácio e sustando a entrada de qualquer pessoa daquela hora em diante. Depois, as comunicações foram cortadas e fomos desligados do mundo exterior. O corpo da guarda palaciana foi ocupado pelo Exército e ninguém mais saia do Palácio.

A uma certa altura, aproxima-se pelo terraço dos fundos o Coronel Dutra de Castilho, até então Comandante do 14º Regimento de Infantaria, e manifesta a intenção de falar pessoalmente com o Governador.

Dr. Arraes desce do primeiro andar e vai ao encontro do Coronel nos limites do terraço dos fundos. Com uma inevitável curiosidade, fico junto e acompanhei o incidente em todos os seus detalhes. Estabelece-se então o diálogo, surrealista para os dias de hoje, mas que considero definidor, com extrema clareza, da situação vivenciada pelos interlocutores e de suas posições antagônicas.

Não conseguiria transcrever literalmente, mas vou tentar reproduzi-lo com a máxima fidelidade possível, sendo de notar que, em um fim de noite após o cumprimento de sua exaustiva agenda, quando ficávamos prosando até tarde, conferi com Dr. Arraes todos os detalhes.

Inicia-se a conversa e percebia-se, com absoluta nitidez, que o Coronel estava visivelmente emocionado e, em nenhum momento, deixou de tratar Dr. Arraes por “excelência”. Diz o Coronel:

“Venho comunicar que V. Excelência está deposto.”

Responde Dr. Arraes:

“O senhor não tem autoridade para me depor. Sou Governador do Estado eleito pelo povo de Pernambuco e somente ele pode me depor. Ou então o senhor quer dizer que estou preso e isso o senhor pode fazer pela força.”

Retruca o Coronel:

“De forma alguma, Excelência. Pelo contrário, lhe daremos todas as garantias cabíveis.”

E aí Dr. Arraes responde-lhe serenamente e de forma profética: 

“NÃO PRECISO DE SUAS GARANTIAS. SOU O GOVERNADOR DE PERNAMBUCO E EXERCEREI O MEU MANDATO ATÉ O ULTIMO DIA, ESTEJA ONDE ESTIVER.”

Feito e dito isso, Dr. Arraes encerrou o episódio e retornou ao Palácio.  Este diálogo não necessita explicação, nem exige analista ou cientista político para interpretá-lo. De um lado, o poder da força, da imposição, da tutela, sedimentado em especulações delirantes dos militares sequiosos do poder.

De outro lado, a afirmação democrática de um governante altivo, impávido, destemido e legitimado por uma eleição submetida às regras republicanas e reagindo às demonstrações de força, comandadas pelas corporações obscurantistas, politicamente orientadas por um “udenismo” desesperado diante das sucessivas derrotas eleitorais.

Pouco tempo depois, subiu ao primeiro andar um capitão do exército (vejam como a patente foi baixando), determinando que daquela hora em diante somente permaneceriam no Palácio o Governador e os seus familiares. Os demais teriam um pequeno prazo para deixar o Palácio.

Aí acontece a parte mais constrangedora do episódio: o Governador Miguel Arraes postado em frente do elevador do primeiro andar, despede-se e aperta a mão, um a um, de todos os presentes que foram obrigados a retirar-se do Palácio naquele momento.

Ainda um fato importante deve ser destacado pois, a despeito de ter ocorrido antes de 1964, foi fator determinante para a eclosão do golpe de 1964. Assisti, em novembro de 1963, no Salão das Bandeiras do Palácio do Campo das Princêsas, naquela longa mesa que ainda hoje existe, a assinatura do famoso Acordo do Campo. De um lado da mesa os usineiros e senhores de engenho (hoje denominados plantadores de cana) e do outro lado os camponeses maltrapilhos, com Dr. Arraes sentado à cabeceira da mesa dirigindo os trabalhos.

Esse acordo que completou 50 anos recentemente e, de forma lamentável, sem qualquer registro ou comemoração por iniciativa dos sindicatos e centrais sindicais rurais, foi um marco regulatório nas relações de trabalho no campo, com repercussão no Brasil e cultuado no mundo inteiro pelas instituições trabalhistas.

Dr. Arraes nunca foi perdoado pelos patrões, não pelas razões econômicas que lhes foram favoráveis, mas por terem de sentar à mesma mesa com os trabalhadores, fato sociologicamente inadmissível para eles, que consideravam o evento uma suprema humilhação. 

E tanto foi assim que, após a tramitação dos fatos descritos e ocorridos no Palácio no dia 1º de abril, fui conduzido ao Quartel General do Exército com outros companheiros e, recebidos pelo Cel. Bandeira, fomos encaminhados presos para o 7º R. O. em Olinda numa operação de remoção comandada pelo usineiro José Lopes de Siqueira Santos, da Usina Estreliana, com uma metralhadora à tiracolo e dando ordens aos militares do exército.

O incidente reflete verdadeiramente a autoria da inspiração, das manobras e da execução do golpe militar. Pelos antecedentes do aludido usineiro e pela autoridade que ostentava no comando da operação, imaginei que não chegaríamos ao destino previsto e quando fomos enfileirados no Corpo da Guarda daquela unidade militar, raciocinei: “Graças a Deus estamos presos”.

Costumo dizer que sou um privilegiado na medida em que fui distinguido pela oportunidade de testemunhar episódios que registram a marca de um grande patriota e líder político brasileiro. A sua história e grandeza precisam ser conservadas para exemplo das gerações que o sucederem. Estou aqui cumprindo um dever que considero fundamental para esse registro, antes que a “traiçoeira” me arrebate desse convívio.

Sinto ainda necessidade de registrar algumas lições que recebi do Dr. Arraes que marcam a sua personalidade singular. Coordenei, também com muito orgulho, o programa de eletrificação rural nos dois governos de Arraes, depois reconhecido como o maior programa da América Latina. Criticado por seus adversários sob a alegação de que suas iniciativas não eram estruturadoras para o desenvolvimento do Estado e sua população, Dr. Arraes respondia com muita sabedoria: “Não conheço nada mais estruturador para um cidadão do que uma caneca de água limpa para beber e um bico de luz para alumiar a escuridão”.

Por isso mesmo, peço permissão para quebrar o protocolo e fazer uma digressão que talvez desvirtue o sentido deste evento. São episódios pessoais, mas estreitamente ligados a Dr. Arraes:

Sou um velho já meio cansado que nunca amealhou riquezas, nem colecionou comendas. Não guardo rancores, nem alimento ressentimentos. Mais de oitenta anos de vida dura e difícil – sabe Deus como! – alternando temporais e bonanças, mas sempre adorando a vida que, por vezes, é gratificante. Sempre tive lado e costumo dizer que “A Coerência é o Caminho Mais Espinhoso da Política”.

Tive dois grandes Mestres na vida: o meu velho pai Zébatatinha que me ensinou o roteiro da dignidade, da cidadania e do apreço à família e Dr. Miguel Arraes – meu líder político e amigo durante mais de quarenta anos – que traduziu para mim o dever de servir à população com honradez e espírito público."

Natural de Garanhuns, no Agreste Meridional, nascido em 13 de fevereiro 1928, Ivan Rodrigues da Silva é Assessor Especial do governador Paulo Câmara. Até 2018, foi secretário executivo de Planejamento e Gestão da Casa Civil e possui uma extensa lista de serviços prestados ao desenvolvimento econômico e social de Pernambuco. Formado em Direito pela Faculdade de Direito Caruaru, onde foi aluno laureado e orador da turma de 1966, além de pós-graduado em Administração, Ivan Rodrigues participou ativamente das três gestões do ex-governador Miguel Arraes de Alencar e das duas gestões do ex-governador Eduardo Campos.

Casado, pai de dois filhos e, na época, presidente da Companhia de Industrialização de Leite de Pernambuco (Cilpe), Ivan Rodrigues foi preso, juntamente com o então governador Miguel Arraes, em 1º de abril de 1964, pelas tropas do IV Exército, dentro do Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo do Estado, quando se instalou o Golpe Militar no país. Após a anistia e com o retorno de Miguel Arraes ao Executivo Estadual, reeleito em 1986, Ivan Rodrigues volta ao Campo das Princesas como assessor especial do governador. No terceiro mandato de Miguel Arraes, assumiu as funções de chefe adjunto de Gabinete e de secretário de Governo.

Sua vida política ainda conta com passagens pela Câmara de Vereadores de Garanhuns, onde assumiu dois mandatos. O primeiro de 1959 a 1963 e o segundo de 1974 a 1978, além da nomeação, pelo ex-governador Eduardo Campos como diretor administrativo e financeiro da Agência Reguladora de Pernambuco (Arpe) e secretário executivo de Planejamento e Gestão das secretarias de Articulação Regional e da Casa Civil.

Na iniciativa privada, além de exercer a advocacia, Ivan Rodrigues que é um aficionado pela literatura, sobretudo, pelos livros de Ciência Política, é Professor Emérito da Associação de Ensino Superior de Garanhuns (Aesga), foi supervisor de vendas da Mercedes Benz do Brasil e superintendente administrativo da Companhia Siderúrgica do Nordeste (Cosinor).    

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