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Literatura

Paulo de Carvalho: Literatura se faz na rua

Por: SIDNEY NICÉAS
Lançando sua autobiografia, o poeta Paulo de Carvalho narra a história de um autêntico poeta de rua

Foto: Rafael Furtado/Divulgação

10/04/2022
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*por Sidney Nicéas

Não há palco mais poderoso para uma obra do que a rua, o corpo a corpo com o leitor, os sins e os nãos que são a verdade para o escritor. Isso é o que pensa e vive o poeta paraibano Paulo de Carvalho, nascido em Igaracy e radicado no Recife há quase 50 anos, que se tornou figura conhecida na capital pernambucana, especialmente nos mercados públicos, por vender seus livros nesses espaços, travando duelos de resistência num Brasil que pouco lê. Paulo está lançando esta semana uma autobiografia em 3ª pessoa, intitulada A Palavra Local Contra a Estrangeira, que conta sua saga de vida, os projetos na música, cinema e teatro e, acima de tudo, a sua labuta poética (confira os detalhes do lançamento mais abaixo).

Paulo de Carvalho é graduado em Letras e em Filosofia. Estudou piano e fez aulas no Conservatório Pernambucano de Música. Teve experiências marcantes no cinema, especialmente com o cineasta Simão Martiniano. Foi ativista do Grupo de Poetas Independentes no Recife, lançando livro pela Edições Pirata e participando de antologias poéticas da Livro 7 - e também de muitos saraus no conhecido Beco da Fome. Teve contato com a poesia popular muito cedo, por influência do seu pai, que costumava levá-lo para assistir rodas de viola e o introduziu no universo dos folhetos de Cordel. “Isso me fez quem sou”, assume.

No cinema, o trabalho mais reconhecido foi com o filme Traição no Sertão, dirigido por Simão Martiniano, conhecido como o “camelô do cinema”, onde atuou, foi assistente de direção e ainda ajudou na captação de recursos para viabilização da obra. Também teve textos encenados no Teatro. Mas foi e é na Literatura que ele se estabeleceu, publicando inicialmente O Ódio em Câmara Lenta, um longo poema em livro que lhe valeu grande reconhecimento; O Sábio Pássaro, obra infanto-juvenil que foi também adaptada para o Teatro; e O Poeta e Seu Ofício, que já vai na 4ª edição e foi traduzido para o Espanhol. A sua autobiografia chega com uma prosa vigorosa, produzida em parceria com um Ghost Writer - ou escritor fantasma.

“A ideia foi mesmo contar essa história ousada que é a minha vida. Saí um garoto que vivia no meio literário, dos movimentos da escola, até a cidade grande. No Recife foi outra realidade, pescar pra comer, correr pra pagar as contas, querer ser um pianista ou um escritor sem ter dinheiro. Tem que batalhar. É difícil sair do Sertão paraibano e chegar numa cidade como o Recife e ter essa dedicação pela arte. Não é fácil. Mas foi uma escolha”, conta, orgulhoso.

O livro alia essas dificuldades de migração do sertanejo paraibano à vida que se estabeleceu no Recife e que ajudou a fazer o poeta. “As horas perdidas nas noites do Recife foram “ganhos” para a Poesia. E virou herança para esses jovens que hoje visitam os mercados sem saber porque é que entre tais paredes, no vazio daqueles espaços, circula uma aura do legado de uma cidade de poetas e artistas. Uma cidade de gente que não se conhece. Que mal sabe de onde veio e para onde vai. Que se subdivide, desde os séculos passados, em nomes de bairros – Sou de Casa Forte, da Madalena, das Graças, do Espinheiro... E você? O cantor e compositor Lenine responde de lá: "Sou de Pernambuco, eu sou o Leão do Norte...". Nosso poeta é da Paraíba. Que já foi uma coisa só. Como uma coisa só para fora daqui é quem vem do Nordeste. De um outro Brasil, que não pertence a si mesmo. Assim como a cidade. Mesmo que dividida em gentes de bairros, desta ou daquela família, é uma mesma cidade. A gente ainda não sabe, mas, ao fim do fim, é”. (trecho do livro)

Como um autêntico poeta de rua, daqueles que sorve o cotidiano, vive os ares urbanos e ressignifica tudo pela palavra, Paulo de Carvalho tem muitas histórias para contar nessas andanças. “Literatura se faz na rua. Tem muita coisa nessas andanças. Dia desses um cara comprou quatro livros e deu a cada um que estava com ele na mesa. Vi um deles pegar o livro e botar no bolso. Voltei e devolvi o dinheiro, indignado, e pedi os livros de volta. O cara não entendeu e expliquei que não dá pra admitir o cara botar o livro no bolso e sentar em cima, meu livro não é papel higiênico. O cara que pagou tirou por menos, manteve a compra e começou a tirar onda com o amigo. O gelo foi quebrado, mas eu não gosto dessa desimportância que muitos dão ao livro”.

Crítico contumaz do péssimo nível da política feita no país, que também teima em perpetuar o descaso com a literatura, a arte, a cultura, Paulo tem palavras duras para tentar explicar o Brasil. “Quanto mais o povo for burro, melhor para os políticos. Eu vivo vendendo meus livros na rua, mas tem hora que dá vontade de chorar quando alguém me diz que não gosta de ler ou que não tem nenhum interesse na leitura, que prefere tomar uma birita do que comprar um livro. Vivemos outrora em tempos de ditadura e parece que não aprendemos”, diz, contundente.

Paulo não esconde o orgulho da sua história, agora em livro. A obra será lançada na próxima quinta-feira (14), às 19h, na Confraria do Poeta (Rua 7 de setembro), oportunidade ímpar de conhecer o poeta e adquirir o livro. A gente bateu um papo com Paulo de Carvalho sobre o livro, as curiosidades da sua lida cotidiana nas ruas, a política brasileira… Confira abaixo a entrevista na íntegra e, ao final, confira também os contatos do poeta.


TESÃO LITERÁRIO- O que mudou em você desde a saída da Paraíba até hoje?

PAULO DE CARVALHO- Mudou tudo. É um filme que você começa a rodar na sua vida. Saí um garoto que vivia no meio literário, dos movimentos da escola, até a cidade grande. No Recife foi outra realidade, pescar pra comer, correr pra pagar as contas, querer ser um pianista ou um escritor sem ter dinheiro. Tem que batalhar. É difícil sair do Sertão paraibano e chegar numa cidade como o Recife e ter essa dedicação pela arte. Não é fácil. Mas foi uma escolha, não fui expulso de casa. Saí com 12 anos e vim batalhar. Encontrei um mundo diferente, que bota medo, que assusta, porque você não confia em ninguém. Meu primeiro emprego aqui, por exemplo, era como prestanista. Eu vendia prestação de porta em porta. Fui estudar e me envolvi em alguns movimentos, como o Grupo de Poetas Independentes, o GPI. Publiquei um livro com Jaci Bezerra, que era das Edições Piratas, ao qual tenho enorme respeito. Conheci muita gente boa, como Alberto da Cunha Melo, César Leal, Gilvan Lemos. Daí continuei com meus estudos de piano no Conservatório, fiz recital para renovar bolsa, tocava Beethoven, Tchaikovsky, Liszt… Foi lá que passei a ganhar dinheiro com compra e venda de piano. Comprava o piano velho, reformava e vendia. Ou seja, sempre desafiante fazer minha vida aqui no Recife. Faria tudo de novo, se preciso fosse. São lembranças memoráveis, lembrar essas coisas, da família. Como diz Valdir Oliveira, Eu sou quem eu sou graças ao meu pai. Foi ele quem me introduziu no universo da literatura, do cordel, das rodas de viola. Isso me fez quem sou.

TL- Que paralelos você faz das suas próprias mudanças com as do nosso país? O Brasil mudou?

PDC- Não mudou muita coisa, especialmente na política. Todos querendo levar vantagem, nenhum político trabalha pela saúde ou pela educação, só se preocupam com os próprios bolsos. Político não gosta de Cultura, gosta de obra, que dá voto e dinheiro. Quanto mais o povo for burro, para eles, melhor. Eu vivo vendendo meus livros na rua, mas tem hora que dá vontade de chorar quando alguém me diz que não gosta de ler ou que não tem nenhum interesse na leitura, que prefere tomar uma birita do que comprar um livro. Vivemos outrora em tempos de ditadura e parece que não aprendemos. A política brasileira tem uma ditadura dentro da democracia. Fui vítima disso no Mercado da Boa Vista, a Prefeitura quis proibir que eu vendesse meus livros. E olhe que são socialistas. Ignoraram minha luta para educar e fazer as pessoas lerem. Não é fácil ser escritor nesse país. Mas não posso reclamar. Tenho um público leitor diversificado, mas com muitos jovens. Se ao menos a maioria dos políticos gostasse de ler, a coisa poderia avançar. Mas…

TL- A sua trajetória é marcada por uma espécie de peregrinismo literário. Desde cedo você viajava com livro debaixo do braço, promovendo seu trabalho. Lugar de poeta é mesmo na rua? Que lições você tira da sua própria experiência?

PDC- Minha trajetória é marcada pela minha necessidade de fazer e agir. Não tive padrinhos. Tive que ser protagonista. Viajei muito com livro debaixo do braço, vendendo, ganhando conhecimento. Nos anos 80 a gente encontrava muita gente boa nos circuitos, sempre fui muito bem recebido por notáveis. Essas experiências me fizeram crescer muito, na literatura, nas artes, como pessoa. Fiz lançamentos em Teatro, em boteco, isso é muito gostoso. Nunca tive ninguém pra me dar nada. Muitas vezes somos contestados pelas pessoas próximas, dentro de casa, mesmo assim é preciso ir adiante. Quando lancei O Ódio em Câmara Lenta, fiz muitos amigos nas minhas andanças pelo país, tive muito destaque na mídia. O mesmo aconteceu com O Poeta e Seu Ofício. Hoje, nem crítico literário temos mais, são poucos. Mas eu continuo dando minha cara à tapa, vou inscrever essa biografia em prêmios, ganhando ou não estou no circuito. Após essa biografia, já tenho outro projeto de livro, O Arquiteto das Letras, outra obra bilingue de poesia; tenho também um livro ilustrado de pensamentos. Não paro. Como não uso drogas, a Literatura é meu vício.

TL- Você tem casos interessantíssimos resultantes da lida com o povo, vendendo seus livros. Alguns deles remetem a uma espécie de medo do livro, outros a um tipo de pena do poeta, alguns ainda de desprezo pela leitura... Conta um pouco dessas experiências. 

PDC- Tem muita coisa nessas andanças. Dia desses um cara comprou quatro livros e deu a cada um que estava com ele na mesa. Vi um deles pegar o livro e botar no bolso. Voltei e devolvi o dinheiro, indignado, e pedi os livros de volta. O cara não entendeu e expliquei que não dá pra admitir o cara botar o livro no bolso e sentar em cima, meu livro não é papel higiênico. O cara que pagou tirou por menos, manteve a compra e começou a tirar onda com o amigo. O gelo foi quebrado, mas eu não gosto dessa desimportância que muitos dão ao livro. Outra vez encontrei um argentino que recitou poemas meus em Espanhol, gente que valoriza. Muitas vezes registro essas leituras e permuto pelo livro, para divulgar. Tem gente que pensa que tô vendendo alguma coisa de outro planeta, aí brinco, isso é um livro, não dá choque não. Tem gente que sequer abre o livro, parece algo estranho. Já vendi muito livro fiado também, já que tô sempre nos locais em que faço as vendas. Já levei cano, mas tem muita gente que honra. Outra vez autografei um livro para o Prefeito João Campos e, quando o reencontrei alguns meses depois, ele disse que não havia lido. O pior foi que eu, de sacanagem, autografei como João Cão e ele sequer percebeu, nem a dedicatória havia lido - quando falei isso, o assessor dele não gostou e, claro, retifiquei, rasurando para Campos. Infelizmente são experiências que não deviam acontecer com frequência. Tem gente que quer fazer um Pix sem querer o livro e eu não aceito. Quero que o livro circule e as pessoas leiam. Não é esmola não. Piedade de Pix tá virando moda ruim. Mas há aqueles que valorizam. Certa vez fui surpreendido por um adolescente de uma escola em Aldeia e ele estava com o meu livro bilingue. Ele me chamou e pediu que eu autografasse. O menino era poliglota, parecia ter uns 12 anos de idade, pagou em espécie e ainda pediu pra tirar uma foto comigo. Isso deixa uma esperança de que as coisas não estão totalmente perdidas.

TL- Complementando a pergunta anterior: um dia seremos um país de leitores? O que pode nos dar alguma esperança nesse sentido?

PDC- Difícil. A juventude poderia salvar, mas a maioria vive consumindo as bobagens do mercado comercial e tem muito dinheiro envolvido nisso. A tecnologia tá deixando essa turma sem interesse em ler. Vamos trabalhar, mas os velhos vão morrendo e poucos surgem para substituir. Difícil, mas precisamos ter esperança, é o jeito. Outro dia, no Mercado da Boa Vista, havia uma confraternização de formandos em Direito. Ofereci o livro e ninguém se interessou. Questionei se o desinteresse pela leitura não atrapalharia a vida profissional deles e a resposta foi que o Google bastava. Se os profissionais que se formam estão assim, imagina o resto? No jornalismo mesmo é muita coisa rasa. Nem debate há mais. Às vezes até professores mostram um desinteresse absurdo pela leitura. Tá tudo muito raso.

TL- A ausência de políticas públicas sérias para o livro é uma questão básica desse tema no país, todavia, parece que os escritores pouco se mexem para mudar esse cenário. O que você pensa disso?

PDC- Como já disse, político não gosta de arte, cultura, educação. E os escritores estão muito ligados à políticos muitas vezes pra não perder a boquinha. Estão nem aí para o compromisso que a literatura necessita. Em muitos saraus vejo que a coisa é muito superficial, não funciona. Tem escritor que vira político, ganha eleição mas não se mexe de verdade para incentivar a cultura. Eu fico muito chateado com isso.

TL- Você tem apostado em traduções das suas obras para explorar o mercado internacional, mais notadamente da América do Sul. Essa luta árdua tem funcionado? Ou a coisa tem ficado mesmo no esforço?

PDC- Eu tô feliz com essas traduções. Fiz quatro edições de O Poeta e Seu Ofício e vendi mais de dez mil livros para vários lugares do mundo, principalmente da América do Sul. Chile, Peru, Equador… Tudo certo, com Nota Fiscal. Tenho rodado meus livros em São Paulo, bem mais barato do que aqui no Recife, para poder conseguir ter preço. A solução está sendo traduzir e buscar leitores e parcerias lá fora.

TL- Sua autobiografia traz como título A Palavra Local Contra a Estrangeira. Isso traduz bem uma luta pela identidade, não somente a sua, mas do nosso povo. Em pleno 2022, com uma globalização que parece engolir até os regionalismos da língua, como você avalia essa questão?

PDC- É isso, essa necessidade de valorizar o que é nosso. O livro deu muito trabalho até ser finalizado e traz essa luta que também é minha, parte viva da minha história. Em tempos de tanta baboseira global na internet, precisamos fincar o pé e valorizar a nossa palavra.

TL- A sua experiência no cinema veio em meados dos anos 1980 com o filme Traição no Sertão, em que você atuou, produziu e foi assistente de direção de Simião Martiniano. Essa foi uma experiência traumática diante das tantas dificuldades enfrentadas? Ou foi apenas mais um exemplo de que fazer arte nesse país é mesmo um tormento?

PDC- Foi uma experiência difícil, mas maravilhosa. O filme tem roteiro de Simião baseado num livreto de Cordel. Estudei muito para ajudá-lo na produção, como lidar com os espaços acidentados, continuísmo, os atores, captar recursos etc. Vale lembrar que naqueles anos 80 estávamos na ditadura e a coisa era complicada. Se com essa democracia doida tá assim, imagina naquela época? Lembro que não conseguimos captar dinheiro com nenhum político, foi uma luta árdua. Mas valeu muito. Do cinema passei pelo teatro e tudo foi abrindo muitas portas, até a literatura. Aprendi muito com essa experiência. Pretendo fazer mais coisas no cinema.

TL- Música, cinema, teatro, literatura, os movimentos marginais do Recife, o corpo-a-corpo da poesia... Paulo de Carvalho é uma soma multiplicada de tudo isso. O que falta?

PDC- Tudo isso sou eu. Tem muito poeta aí que se considera marginal, mas nem sabe o que é isso. Fiz minha trajetória nesse conceito de poeta marginal, fora do circuito convencional. Tenho muito orgulho da minha história, dela ter virado livro. e espero que possa ser lida pelas pessoas.

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SERVIÇO: Lançamento do livro A Palavra Local Contra a Estrangeira, quinta-feira (14), às 19h, na Confraria do Poeta (Rua 7 de setembro, 345 - loja 02).

CONTATO COM O POETA: https://www.instagram.com/natuba.paulo/ 

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