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Literatura

Pedro Bandeira: “O sujeito que sabe ler conquista o que quiser”

Por: SIDNEY NICÉAS
Conversamos com o fabuloso Pedro Bandeira, autor de clássicos infanto-juvenis, homenageado do Prêmio Jabuti 2023

Foto: Reprodução/Estadão/Tiago Queiroz/Arte Tesão Literário

24/09/2023
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Por Ricardo Mituti

Quarenta anos de dedicação exclusiva à literatura, mais de 130 livros escritos, incríveis 28 milhões de exemplares vendidos e presença certa nas escolas do País não poderiam resultar em outro fim que não numa homenagem. Mas, ainda que os números sejam superlativos, parece ter sido a perenidade de sua obra o que garantiu ao escritor Pedro Bandeira a indicação de Personalidade Literária da edição 2023 do tradicional Prêmio Jabuti, um dos mais importantes da literatura brasileira. “Se sentir clássico é um negócio gostoso”, admite ele. “Mas tenho impressão que este prêmio vem deste reconhecimento: “Pedro, não é este ano; você é um clássico. Você fez coisas que eventualmente durarão”.

A percepção de Bandeira faz todo sentido. Afinal, alguns de seus títulos alfabetizaram pelo menos duas gerações de leitores brasileiros. “Gosto de escrever para o ser humano em formação”, confessa o autor, 81 anos, natural de Santos (SP).

Otimista inveterado, dono de um sorriso fácil que extrapola o vasto bigode ostentado como marca registrada, o ficcionista diz não temer a tecnologia – nem mesmo a inteligência artificial -, é crítico ao histórico de abandono da educação brasileira e, sem receio de parecer advogar em causa própria, defende a leitura como meio de formação ética. “O sujeito que sabe ler conquista o que quiser; ele sozinho vai aonde quiser.”

Em entrevista exclusiva ao Blog Tesão Literário, neste portal Ver Agora, Bandeira também destaca a importância da literatura enquanto meio de emulação da vida – e, por que não dizer, até mesmo de caminho possível para a manutenção da saúde mental. “Quem lê muito precisa menos de psicanálise. O meu emocional resolve. A literatura economiza o psicanalista. A arte alimenta a tua emoção sem você precisar ter um trauma e tratar com o psicanalista. A pessoa entra no jogo da arte”, garante o veterano autor.

Leia abaixo o papo com Pedro Bandeira. E, para a íntegra da conversa, acesse pelo podcast do Tesão Literário:

 

TESÃO LITERÁRIO- Como o senhor recebeu a indicação de seu nome como Personalidade Literária da edição 2023 do Prêmio Jabuti?

PEDRO BANDEIRA- Recebi com surpresa, mas muito feliz. Não esperava, porque geralmente espera-se de alguém que trabalhe bastante com o mundo adulto, e eu realmente não me interessei em escrever para o mundo adulto. Gosto de escrever para o ser humano em formação. Desde que ele nasce até que fique adulto tem muita coisa boa para ler; ele não precisa de mim (risos). Mas, nesse entretempo, a gente prepara alguém para saborear o gosto de ler. O ler obrigado é a mesma coisa que dizer assim: “você está obrigado a brincar!” Não, você não obriga ninguém ao prazer; você tem que fazer com que ele realmente tenha prazer. Isso é uma questão de introdução desde o berço. Meus maiores prêmios era quando eu recebia cartas, e agora e-mails, dizendo: “Sabe, Pedro, eu não gostava de ler, mas li tal livro teu e agora eu gosto”. Fico muito feliz com isso, porque era isso que eu queria. Esse é o verdadeiro reconhecimento.

TL- Neste ano o senhor completa quatro décadas de dedicação exclusiva à literatura. Neste período, escreveu mais de 130 livros e vendeu 28 milhões de exemplares, tendo sido traduzido para vários idiomas e estando presente em inúmeras escolas de todo o Brasil. Qual o balanço que o senhor faz de sua carreira?

PB- Quando você cria um livro, não imagina que, sem querer, está pegando num mote importantíssimo. O livro “A Droga da Obediência”, por exemplo, foi um brado pela liberdade de pensamento. E de pensamento do jovem. De dizer: “sim, a tua opinião deve ser emitida, sim. Por que não?” Não, ele tem o direito de perguntar, de achar. Isso pegou de tal modo que esse livro vai fazer 40 anos em 2024. Então eu peguei na veia, e não imaginava que estava pegando na veia, e na veia de um jovem. Porque o jovem entendeu: “não, eu não sou rebelde; sou um ser humano. O que eu estou falando é porque eu acho mesmo. E eu tenho o direito de dizer, tenho o direito de fazer”. Afinal, o que é o mundo senão a oportunidade de inventar, de achar uma solução para um problema eterno? E é isso aí que a gente tem que estimular. E os meninos e as meninas adoram essa história, e isso me deixa muito feliz. Alguns outros livros também agradaram muito e até hoje estão vivos. Não sei qual livro juvenil consegue resistir 40 anos como um best seller. “A Marca de uma Lágrima” continua; “O Fantástico Mistério de Feiurinha” também, é um livro muito antigo. Mas por que não morre o “Dom Quixote”? Porque é um clássico. E se sentir clássico é um negócio gostoso. Eu tenho impressão que este prêmio [de Personalidade Literária no Prêmio Jabuti 2023] vem deste reconhecimento: “Pedro, não é este ano; você é um clássico. Você fez coisas que eventualmente durarão”.

TL- Falar com os jovens, hoje, é mais difícil do que nos anos 80, quando o senhor começou?

PB- Creio que não. O jovem de hoje é muito mais bem-informado do que era quando comecei. Quando eu comecei não havia celular, computador, não havia o Google, a possibilidade de você imediatamente acessar uma resposta à sua pergunta. Mas o ser humano, em qualquer tempo, tem emoções. A pessoa, por exemplo, está com ciúme, achando que a esposa dele está olhando mais firme para outro rapaz, mas [William] Shakespeare já escreveu isso em “Otelo”, Machado [de Assis] já escreveu isso em “Dom Casmurro”. E por que continua? Porque o ciúme não morre, o amor impossível não morre, a ambição de “Ricardo III” [peça de William Shakespeare] não morre, a velhice abandonada de “King Lear” [“O Rei Lear”, outra peça de Shakespeare] não morre. A emoção não morre.

TL- Enquanto escritor infantojuvenil, como concorrer de igual para igual com as telas e fazer com que seus livros despertem mais interesse no público leitor do que celulares, tablets, redes sociais e smart tevês?

PB- A gente não deve ficar contra a tecnologia. A tecnologia só vem para ajudar. A gente tem que aplaudir. Há quem diga que as crianças, hoje, ficam só jogando aqueles joguinhos em vez de empinar papagaio, jogar bolinha de gude. Desculpe, mas nós passamos do tempo da bolinha de gude. São muito mais criativos esses joguinhos que as crianças fazem. Elas estão trabalhando muito mais sua inteligência do que ao jogar bolinha de gude ou empinar pipa. Isso era prazer de um outro tempo. Então não é ruim que isso tenha acontecido. Às vezes as crianças ficam lá, assistem à muita tevê. Sim, naquele tempo não assistiam a nenhuma, porque não tinha [tevê]. Você tinha que ir ao cinema para ver alguma imagem. E ir ao cinema demandava várias coisas, inclusive ter idade e dinheiro. Hoje você liga a televisão, vê um filme, vê uma novela, isso é muito rico. A tecnologia está baseada na língua. Se não tiver língua não tem nada. Nem tecnologia.

TL- De que modo a literatura pode ser um caminho para o desenvolvimento socioemocional de crianças e jovens, como o senhor costuma pregar?

PB- Até os primeiros escritores para crianças, que não escreviam, mas inventavam histórias, contavam histórias com algum ensinamento. E essas histórias tocavam no emocional da criança. Até hoje, quem lê muito precisa menos de psicanálise. O meu emocional resolve. A literatura economiza o psicanalista (risos). A arte alimenta a tua emoção sem você precisar ter um trauma e tratar com o psicanalista. A pessoa entra no jogo da arte. Ela consegue sentir emocionalmente o drama da personagem e aprende com o drama sem ter que sofrer na própria pele. Você aprende coisas que mais tarde podiam te levar a um drama, a um trauma. A pessoa que lê muito, e principalmente literatura, como isso ensina! Você viver a experiência do outro é como se você tivesse vivido aquela experiência, e isso enriquece. Essa é a magia da arte.

TL- E qual a importância da literatura enquanto meio de transmissão de conhecimento?

PB- O conhecimento está escrito. Pode não estar só no papel; pode estar na tela, mas está escrito. Se a pessoa não manipular e compreender bem a língua dela, não vai ter acesso ao conhecimento. A vida dela vai ser infeliz. Ela tem que ler bem, rapidamente, compreensão rápida. A vida é essa. O que ela vai ser sem isso? E a literatura surge para que esse conhecimento da língua entre no ser humano de modo gostoso, de modo agradável. História engraçada, histórias que toquem a minha emoção. Assim, sem querer, estou tendo acesso ao veículo que me levará ao conhecimento, que é a compreensão da leitura. A intenção de escritores como eu sempre foi essa: que você se divertisse enquanto aprendia a ler. Porque aprender a ler bem é a única coisa que você precisa na vida. Se você não lê bem, vai mal em História, Geografia e até em Matemática, porque não entende o enunciado do problema. Desculpe, não é que [a leitura] é superior, mas é anterior a qualquer matéria. Sem ela eu não tenho as outras. As crianças que vão mal [na escola] geralmente são maus leitores, foram mal letrados. Então o que a gente faz? A gente dá coisa gostosinha para ela ler. Se você dá um livro chato, ela não vai querer. Você tem que ser o mais emocionante possível, o mais dentro da idade dela.

TL- O senhor costuma dizer que o escritor de literatura infantojuvenil é alguém que se preocupa com a educação. E, logo na homepage do seu site, há uma frase em primeira pessoa dizendo o seguinte: “[...] amo os professores, que são meus heróis, minhas heroínas”. Como o senhor avalia a situação da educação no Brasil?

PB- Me preocupa o abandono da educação desde o berço. Para muitas famílias, educação é problema da escola. Só que a escola entra muito tarde na vida da criança. Se ela antes esteve no colo da mamãe ouvindo histórias, o papai mostrando um livrinho com figurinhas, lendo a história, depois ela pega e fica lembrando, na escola ela vai e não vai abandonar, porque você começa pelo livro, pela historinha que a mamãe conta. Quando chega à escola, ela só vai pegar coisas além; não vai ter dificuldade. O problema é que nós não temos esse costume. Só o Brasil é um país onde as escolas são responsáveis por indicar livros de literatura para seus alunos lerem. Isso não ocorre em país nenhum, porque a família já fez isso. E nós não temos esse costume por uma razão óbvia: nossa educação foi muito ruim; o brasileiro foi mantido analfabeto. Até as elites foram mantidas analfabetas até o começo do século XX. Em leitura nós somos atrasados. O sujeito que sabe ler conquista o que quiser; ele sozinho vai aonde quiser. Agora, se você não dá essa ferramenta a ele, ele não vai sozinho a lugar nenhum. É por isso que o Brasil é atrasado. Não tem outra razão: a história da educação brasileira é um desastre. Estamos agora tentando. Há vagas para todas as crianças no Brasil, e isso já é bom, mas nós precisamos treinar os professores, pagar melhor o professor para atrair gente melhor e convencer esses professores a trabalharem primeiramente em Língua Portuguesa. Não adianta chegar para uma criança de oito, nove anos e falar em História e Geografia; deixe isso para depois. Ela precisa ter é a compreensão, e a compreensão vem lendo livrinho, gostoso, e ela vai rápido para cima.

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*Entrevista completa no Podcast Tesão Literário muito em breve!

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