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Literatura

Pérolas Arrancadas

Por: SIDNEY NICÉAS
O poeta, escritor e terapeuta Lúcio Pessoa estreia no Tesão com uma história misteriosa sobre segredos revelados...

Foto: DaYsO/Unsplash

05/09/2023
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*Por Lùcio Pessôa

 

Aos poucos, tudo foi se tornando um grande mistério: 

Olhares acusadores arremessados à queima-roupa contra o meu peito, pelos bustos debruçados nas janelas das casas altas, da rua da frente. sorrisos indiscretos, desconhecidos. dedos apontados para a minha direção enquanto eu caminhava pelas calçadas, voltando da escola.

A minha única defesa era prestar atenção nas linhas horizontais do piso, e ultrapassá-las com destreza, a passos largos, desafiando-me à proibição estabelecida por mim mesmo, de não as pisar. 

Não seria aquela, uma forma de me esconder. não mais. era apenas uma estratégia inocente para me distrair daquilo tudo, e não perceber os adultos; de não ouvir entre os seus resmungos, o meu nome e o da minha mãe.

*                                                                                                                                                                                                                              

A minha mãe que também estava naquelas coisas ditas pela minha prima, assim, na lata, de bate e pronto, um texto-discurso sem vírgulas, pouca respiração entre as palavras, um quase manifesto que mais aliviou quem o proferiu, do que a mim, alvo defendido. inócuo!   

*

Recém-chegado da aula, a mochila jogada ao chão de qualquer jeito, em qualquer canto do quarto, acomodada de zíper para baixo contra o rodapé avermelhado. feito isso, as canelas postas sobre o colchão duro de capim seco, o corpo franzino finalmente abrigado, dado ao repouso pretendido [duas horas e meia caminhando a pé para escola, parecia fácil. apenas parecia].

Os meus olhos percorriam o teto. contavam os caibros e ripas, da proximidade da janela, subindo até a cumeeira. depois recontavam no sentido contrário. 

A janela verde do meu quarto, entreaberta, mostrava parte do verde do lado de fora, das bananeiras obedientes, enfileiradas, inclinadas pelo peso dos seus filhotes de corações expostos, dependurados, presos aos miolos das mães. 

Por que o nome da minha mãe havia se tornado mais doce do que o doce de banana feito pela minha avó no tacho de ferro, na boca daquela gente desocupada? talvez a minha prima tivesse razão do que havia dito, e eu devesse mesmo ouvir aquele eco insistente reverberando dentro da minha cabeça, como uma pedra jogada numa lata vazia, e outra pedra, na mesma lata, e eu tão cheio, de tanta coisa estranha.

Estranho mesmo era compensar a escassez de móveis naquela casa de taipa de sopapo, com o excesso de baús debaixo da cama da minha avó, os guardadores de vestimentas. todos eram de madeira, de tamanhos variados. quando lhes abriam a boca, o bafo de naftalina nos entontecia. nada de traças a violar o voal dos vestidos, nem as malhas das camisas de festas do seu Homem, tão pouco o chapéu de massa dele, aquele preto, usado apenas nas festividades de Natal e... não lembro qual a outra.

Havia um baú menor, recostado no canto mais distante. parecia não ter sido posto ali de qualquer jeito, tão bem acomodado por trás dos demais. daquele, apenas daquele, eu não conhecia o hálito. de superfície amarelada-encardida, com recortes de uma textura colorida aplicados sobre a tampa..., era o que dava para ver, pelas brechas estreitas, por entre os outros da sua espécie, sob um esforço medonho, tendo que espremer o meu corpo franzino rente ao chão empoeirado. 

Meu olhar acusador de menino curioso, impulsionou os braços finos, outrora sem forças, a afastar aquelas caixas pesadas. sequer lembrei de dá importância à semelhança que tinham com os abrigos de cobras, do homem barbudo vendedor de ervas, assíduo na feira livre dos sábados.

O baú finalmente entre as minhas pernas. 

As nossas bocas escancaradas. 

Havia um único órgão, outrora alvo, dentro daquele corpo. coberto por pérolas até certa parte, dobrado, bem dobrado. e a cada pedaço desdobrado, o hálito forte de um passado desconhecido ocupava aquele vazio. as mangas eram longas, o véu curto, a gola discreta sem decote, um zíper das costas para baixo, o busto sem seios. nada de glamour. 

Por um instante, as pedras pararam de serem jogadas dentro da lata. a janela verde, do quarto da minha avó, permitia que as bananeiras espiassem aquela cena, e censurassem a sua proliferação, fechando os olhos dos seus filhotes com a palha mais larga. 

O busto sem seio..., e a saia. dentro da saia, alguma coisa. aquela mesma coisa dita pela minha prima, agora escrita numa única folha, também encardida pelo tempo. palavras postas em linhas horizontais, que os meus olhos e os meus dedos miúdos, seguindo a leitura, não me permitiram ultrapassar. 

O nome da minha mãe estava lá. completo. com sobrenome e tudo. um tiro à queima-roupa tão certeiro que me trouxeram a nítida imagem daqueles bustos debruçados nas janelas das casas altas, gargalhando alto, me apontando os dedos.

O nome da minha mãe, tão bem escrito naquele papel, pseudo-protegido pelo vestido.

Por um instante eu quis ter uma letra igualzinha àquela. mas logo fui resgatado pelo texto-discurso sem vírgulas da minha prima, agora não mais em verbo, mas em corpo e tecido, de papel passado. 

O nome de um homem estava escrito ao lado do nome da minha mãe. e era bem diferente do nome do pai que eu conhecia. 

A minha prima tinha razão. e agora o meu coração estava exposto ao lado daquele baú. eu não era mais inocente. não havia calçadas para me proteger, nem rabiscos no piso que me distraíssem daquela verdade. resistia apenas o eco das pedras reverberando dentro da minha cabeça. e ele permaneceu comigo, por anos a fio, até um dia desses.

O pernambucano Lúcio Pessôa é fruto de uma infância interiorana, vivida em um engenho de cana-de-açúcar, na cidadezinha de Itaquitinga, onde viveu antes de residir e degustar da atmosfera inspiradora de uma cidade que é histórica e patrimônio: Igarassu. 

É Terapeuta, Poeta; e Escritor ficcionista, daqueles que transita dos contos à dramaturgia.

Autor de dois Romances (O QUE ACENDE AS ESTRELAS, Editora Chiado, 2013 e QUASE TUDO EM CINCO ENVELOPES, Editora Giostri, 2016); uma obra de Dramaturgia (TEATRO DE LÚCIO PESSÔA, Editora Giostri, 2016) e de duas obras de Poesia (EUTONO, Editora Viseu, 2021 e POEMAS HORIZONTAIS PARA MUNDOS INCLINADOS, Editora Versiprosa, 2023),ele agora passa a assinar uma de nossas colunas, trazendo entre (e dentro da) sua literatura, um pouco do seu olhar terapêutico, mesmo que essa perspectiva esteja menos explícita, quase que num tom subliminar, um convite aos olhares dos leitores, das pessoas, e de todos os seres.

 

Instagram: @escritorluciopessoa 

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