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Cultura

Por que a urgência do Carnaval?

Por: SIDNEY NICÉAS
Nada de quarta-feira ingrata: Geórgia Alves nos brinda com belo texto sobre o Carnaval pernambucano

Foto: Fotos Públicas/Luiz Felipe Bessa Secult-PE/Fundarpe

22/02/2023
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*por Geórgia Alves

Carnaval urgia, urgia e ainda urge como nunca antes. Urgia em nossas retinas e urge em colorido desmesurado. Urgia e urge em nossas mentes a ideia de que não estamos “liberados do trabalho”. Em liberdade até por não ter como motivo da folga louvar santa ou santo, a pátria. Ainda que para alguns afortunados, Carnaval significa pausa. Pausa para louvar nenhum lugar ao céu, por nenhum motivo “legitimado pelo bom funcionamento da sociedade”, é feriado. Aliás, a fantasia do povo “junto e misturado” mais que urgia. É. A ideia de que existe lugar, ou tempo, só por três dias, onde somos iguais, persiste na fantasia. É. Claro que nem mesmo no Carnaval a conta fecha. Tal equação, na real, nunca bate. Enquanto uns brincam, outros salvaguardam trocados, trabalham pelo título de reis e rainhas, trabalham também o ano inteiro para o reinado da folia. Que tem data de validade. Prescreve rapidamente, dolorosamente. 

Para o bloco dos “não quero dinheiro, só quero amar e sinto livre para não ser amado” dura um instante. Ô, brevíssimo reinado. Da hipnose, da mágica, da invenção do desejo. Nunca reinventaram o desejo como neste Carnaval. Talvez de quem quer ser visto, ser olhado, com a estranheza do “não te ligo espelho, espelho meu”. Por todo o ano a outra imagem repousava. Seja porque o Carnaval liberta das “obrigações”, e sem explicação se pode ser, não mais que de repente, engraçado. Ou bem mais que qualquer isso. Pode-se pendurar a plaquinha no pescoço “ando à procura de espaço”, justo naquele imprensado. Pode-se viver de enunciado utópico. Confesso que este ano nem fui ver cada espetáculo. Somente o Marco Zero, na extraordinária abertura de apresentação dos “Anjos Tronchos”, ao vivo e a cores. E foi quando vi o moço que fez como eu, de plaquinha, a dele dizendo: “nú-vem”, cabendo várias interpretações. 

Valeu a emocionante saída do Homem da Meia-Noite, do tradicional Pitombeiras, do Enquanto Isso Na Sala de Justiça. Eu acho é pouco e tantos “bom demais”. Este ano fantasiei de foliã que vai pra folia e pronto. Nada mais que o essencial. É fato que faltou aquela alegria descompromissada em mim, ainda não baixou depois de tantas perdas... Mas vai passar. Vai passar nesta avenida um samba popular e cada paralelepípedo vai... Ainda sou mais lembrança e ato invenção que fato e impulso inato à alegria. Ato de ir só por ir e voltar logo para a segurança do lar. Se é que me entendem, fantasio ser alguém com disposição e saúde a enfrentar ladeiras e multidões. Ponto. 

Saudades tive demais. Fantasiada sem a bobeira de alegriazinha sempre necessária para acertar nos adereços e maquiagem. Mas fui, sobretudo para encarar o medo da trágica fragilidade que carrego e nunca soube bem o motivo. Por que temer as ruas em dias de Carnaval? O risco de assaltos, assédio, calor e qualquer outro tudo que cresce no asfalto todo dia tem. Celular roubado, por exemplo, no Carnaval é para quem não tem noção de que pode passar três dias longe dele. Todo folião sabe que tem direitos, pode e deve usar bem os cotovelos, dizer não às mãos bobas no instante mesmo em que se manifestam e por ali e acolá, no jeitinho de se adequar ao imprensado, vai. É bem verdade que os novos códigos despertaram espertezas maiores, tipo dar cabeçadas, ninguém me contou, eu vi! Diante do palco, o touro-homem faz parecer casual... Das artimanhas velhas de aproveitar o ruge, pegar na cintura da mina e dizer qualquer coisa que pareça confusão mental: “Estava te protegendo”, na fila Indiana? Haja hoje. 

Com toda malícia ainda urge sair a ver de perto os Carnavais de Recife e Olinda, Bezerros e Nazaré da Mata. Urge não se conformar com o que as plataformas e canais mostram. Trabalhei quando o investimento em coberturas era de grande porte e, mesmo à época, saía com a impressão de que não é possível traduzir com fidelidade a aura que cobre estes dias. Não por ser romântica a ponto de ignorar o sol e o esforço das pernas. Como disse, é nesta hora que a saúde se põe à prova, mais que em qualquer outra data e celebração. No entanto, onde e quando seria possível ver Jesus de mãos dadas com Diabo Louro? Onde Mario e Luigi assumiriam, com amor, o beijo que atribui pontos à vida de ambos? Em que outra cidade do Brasil seria possível ver a vovó bolsonarista fumando como caipora, brincando o mesmo carnaval contra o qual fez tanta campanha? Dizem os compreensivos, “ah, mas isso foi antes, bem antes”. Já parece outro século só porque já é Carnaval. Sim. Graças a “Deus”, e pessoas como eu que não engoliram a corda do “não vou me vacinar”. E escolheram uma via mais bem pautada. 

Bem antes, havia a dúvida na população brasileira de que há uma chance remota dela ser feliz. Bem antes. É verdade, Carnaval não é um cachimbo, vovó. E isto foi antes dos clarins de Momo soarem no Bairro de São José, de onde saiu o maior bloco em linha reta do planeta! O galo preto, em sua Ancestralidade, anunciando um Marco Zero cheio de gente colorida, numa inigualável mistura de povos e raças, antes de minhas lágrimas rolarem diante do show de Caetano. Chorei durante todo o repertório de seus frevos e marchinhas. E ainda tive até medo dos céus desabarem sobre nossas cabeças quando afirmou que o Carnaval da Bahia é uma homenagem grata ao gesto de Dodô e Osmar à presença de Vassourinhas, na pré-história do Carnaval da Bahia. “Porque atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. Eu senti de novo a paz que só se encontra na gratidão. Na comoção existir, a certeza de estar viva transcende qualquer desejo. 

Enxerguei tudo aquilo que não via antes de chegar o Carnaval, agora, podemos ver e num súbito surto de clareza Béla Bartók. Maestro - que por estudos de música clássica e fusões de raízes folclóricas - legou o máximo recado da sabedoria popular. Nem mesmo o maestro saberia explicar como é possível ver tantas orquestras tocando debaixo de um sol particular desses como o de Pernambuco, em fevereiro e março. É verdade que uma moça beijou um repórter, inesperadamente. É verdade que o Galo da Madrugada mais uma vez aconteceu sem intercorrências. Que o bonde do brega teve espaço antes reservado a nomes como Geraldo Azevedo e que Elba Ramalho ouviu mais o nome de Lula ao dela ser aclamado. Que para Alceu Valença, no coração do povo não tem pareia, que Tieta do Agreste, lua cheia de tesão foi a canção mais pedida que qualquer outra do homenageado da festa. E foram tantas atrações que é melhor vir no próximo ano, não faz sentido listar aqui. 

Vou encerrar com frase de sábia amiga, que, saudosa, de Portugal assiste, à distância dos olhos - não do coração - nossa brincadeira: “Carnaval em outro lugar? Não justifica”, disse ela

Faz todo sentido.

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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