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PORRADA!

Por: SIDNEY NICÉAS
Sidney Nicéas e o conto que espelha um Recife que nem todo mundo olha e vê

Foto: Reprodução/Midiamax/Uol

02/04/2023
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*por Sidney Nicéas

 

PORRADA!

 

I.

Porrada! O velho apanhava feio, prótese ao vento, ímpeto incontrolável contra si. A rua molhada movimentada inane… Morreria? Toda juventude era tempestade explodindo em sua pele flácida olhos queixo maxilar... Tudo tão gasto, agora inchado, ensanguentado. Asfalto era colchão... Morreria?

Somente outra alma jovem para intervir. E foi: o homem parou o carro sob o chuvisco. Buzinas indignadas soavam apenas pelo atrapalho do fluxo, Fodam-se! Atracou-se ao agressor com furor. Nem o amor seria capaz de gerar tamanho atrito. Corpos embargados embebidos atravancados naquela contramão. Agora sim, o tráfego mantinha atenção. A semana começando com meros olhos grudados em músculos murros chutes recíprocos. A inanição do mundo ali permanecia, mas com ar de quero ver quem mata quem e uma indignação covarde pelo senhor brutalmente agredido.

Porrada! O velho via tudo com olhar de assombro ainda no colchão que não o largou. O agressor primeiro a cair, cabeça no chão, desacordado. O jovem forte somente aí percebeu; toda cegueira trazia imediatos tons de consequência. Ouvidos de sirene e pés de fuga. Quem era o velho? Quem era o homem agora estirado no chão? Quem era ele mesmo, aquele ensandecido cujo carro ficara aberto e que o mundo agora mantinha sob olhos encardidos?

O velho via tudo com olhar de assombro ainda no colchão que não o largou. Apenas uma mulher se aproximou com um O senhor está bem? de uma indignação embutida. Um pequeno risinho era janela na boca surrada encarquilhada sem vergonha dele. Samu. Polícia Militar. Guardas de trânsito. O agressor recobrando a consciência num passar de maca. Olhos fixos no velho. A vontade de gritar Pega esse pedófilo filadaputa! retida na momentânea incapacidade de fala. Um pequeno risinho era janela na boca surrada encarquilhada sem vergonha dele. O velho.

 

II.

Menino? O garoto pensou em correr. Sete anos e a responsabilidade de ir sozinho para a escola, pai num sono desempregado, Nasceu macho se vira desde cedo! Na rua, a voz enrugada amoleceu. Tenha medo não, menino. Você se parece com meu neto... Palavras de sorriso. Quer um chiclete? Não, senhor. Olhos mais calmos fitando o boneco. Ah... Sua paixão por bonecos... O ambulante tinha um monte de penduricalhos pelo corpo, a cara das avenidas recifenses, a cara de um povo mascate, a cara de... Avô. Você gosta de bonecos? A afirmativa com gosto de sorriso e um Vamos ali na minha casa que tenho um boneco melhor do que esse pra você... Vacilo. O Papai não deixa eu confiar em estranhos nem saiu, foi engolido pelo desejo de um brinquedo novo. O ambulante ignorou, pegou sua mão, seguiram.

O velho adiou a caminhada de outrora rumo à Avenida Agamenon Magalhães, seu palco de trabalho, e seguiu de volta à própria casa, agora com o menino. A segunda-feira chuvosa foi companhia dos passos em direção à residência. Mas não a única. Na Rua Barão de São Borja um olhar pré-adolescente ao longe, desconfiado, Cadê o pai? Olhos (quase) anônimos que enxergaram o adentrar, o fechar da porta, o silêncio. Andar distante apressado até o genitor do garoto, língua nos dentes. Nunca gostei daquele velho! Olhos arregalados. Agora é comigo!

O homem botou a camisa enquanto perguntava o endereço. O é pertinho daqui nem o afetou. Havia eletricidade em seu pensamento. Aquele pedófilo filadaputa! Pegou o carro, entrou, bateu forte a porta defeituosa pra não ter risco de não fechar e seguiu em disparada rumo à casa do ambulante. Desceu sob o chuvisco sem medo de estar equivocado. Mãos à porta. Novamente. E novamente. Ninguém em casa. Cadê o meu filho? O carro continuou a servir de pernas. Eu acho ele!

Trânsito dos infernos!!! Poucos metros bastaram, todavia, para avistar o menino, boneco às mãos, olhar espantado para o pai. O homem mirou bem o brinquedo, o filho, a rua, Quem lhe deu esse boneco? Choro como resposta... Nem pestanejou. Vá pra casa, Agora! O grito pareceu empurrar o garoto em direção à residência. Foi calado, assustado, estranho. O chuvisco tinha gosto de culpa. Por quê?

O homem acelerou. Tentava se esquivar do tráfego intenso. Olhos atônitos para um lado e outro, Eu vou te achar, miserável... E foi na Rua Manoel Borba que seus olhos alcançaram o ambulante, caminhando calmo próximo ao semáforo de sempre na avenida de sempre, bem mais adiante, carregado de objetos para venda - como sempre. No ombro esquerdo, pendurado, boneco igual ao que o filho tinha em mãos. Filadaputa! E o freio brusco marcou o molhado do asfalto. E o descer irado ignorou o mundo. E o Mexeu com meu filho então vai morrer! saiu junto com um soco. E a rua virou palco estranho. Qual o limite entre honra e justiça? Boato e verdade? Dúvida e certeza? Homem e animal?

 

III.

Havia tons escuros naquela esquina. A luz minguada, o cheiro fétido do canal do Arruda, a mulher com roupas mínimas e vergonha nenhuma. Sim, havia tons escuros naquela esquina. A silhueta da mulher se perdia na penumbra, na calçada encardida, na quase madrugada daquele domingo quase segunda de clima chuvoso. Nem a minissaia vermelha tirava o turvo da cena. Mas há sempre desejo vivo em homens turvos.

O carro champanhe parou cortando luz. A vontade de ir pra casa desacelerou. Enfim, cliente. Cinquentinha pelo menos eu fecho. O E aí, lindo, vamos? se misturou com O quanto é? e resultou na porta aberta. Sentou revelando pedacinho depilado, o olhar do homem transbordando tara estranha, Vamos para um motel, lindo? Silêncio. O carro andando pouco, parando na ruazinha de areia. O cara olhou para todos os lados, membro pra fora, Chupa aqui agora, puta! O Não faço assim não! se perdeu com o apertão no seu braço e a puxada de cabeça até embaixo, a mordida na coxa, o murro na cara, Puta safada!

Os tons escuros da esquina preenchiam também aquele trecho de rua, o homem, a mulher. E foi ela que meteu a mão no cara. O Canalha! saiu feroz num abrir de porta descer correr gritar Canalha! O homem quis ir atrás, só quis. O alvoroço da mulher e a porta defeituosa do carro o impeliram a dirigir logo para longe dali. Ainda sentiu o trincar do vidro traseiro com a pedrada que pegou em cheio. Ainda pensou em voltar, pegá-la à força, Puta é puta!, mas nada. O amanhã é segunda à procura de emprego falou mais alto.

Em casa, filho ainda acordado, Vai dormir, danado, que amanhã tem escola!, amanhã que já era hoje, que embalou o sono do garoto, que viu o homem entrar no banheiro e tocar uma ofegante transbordando toda aquela tara estranha. Puta!, era só no que pensava, Puta! Há sempre desejo vivo em homens turvos.

 

IV.

Hellcife! Voz de indignação, violência, domingo, centro espírita, nada disso parecia combinar. Nada justificava terror e mortes santas, Aonde vamos parar? O jovem forte se lamentava. Medo, inércia, testemunha do caos imposto por sete homens armados em plena palestra dominical. Tarde que ecoaria na imprensa nacional, só assim. Covarde! Ouvia de si: amor e perdão só enfeitaram o pedaço da palestra interrompida. Sentiu raiva dos meliantes, medo ante o terror de minutos antes, ódio da própria inação. Músculos malhados enfeitavam a carcaça e camuflavam sua miudez. Dois bandidos mortos, dois frequentadores também, centenas de vítimas da insanidade humana. Nada disso se sobrepunha ao infame olhar para si.

O jovem pegou seu carro após os ecos do acontecido, que duraram horas. Era noite quando deixou o bairro de Piedade, em Jaboatão, rumo ao Centro do Recife. O apartamento quase luxuoso o aguardava na bucólica área próxima à Praça do Derby. Lágrimas eram espelho no retrovisor apontando o choque ainda vivo e a raiva de si mesmo. Por que não fiz nada? Garagem, elevador, sala, banheiro, quarto, cama. O homem só morando só... Por que não fiz nada? Aquela pergunta se encravou na mente, tanto que sonhou-se humilhado em praça pública, vergonha da família, sonho parecendo tão real... Por que não fizesse nada, porra?

Nenhum corpo está acima da mente, mas o jovem era saco abrigando a própria realidade. Acordou cansado, incomodado, injuriado, reclamão. Segunda-feira chuvosa, Dane-se, vou malhar assim mesmo! Foi o carro importado que o conduziu novamente pela cidade, era o jeito. A academia no bairro da Boa Vista sempre o recebia numa caminhada de aquecimento, mas ali era a chuva, o trânsito sofrível, o rádio repercutindo toda a desgraça da tarde anterior - ele mesmo remoendo a covardia autoimposta.

Foi quando o vermelho do semáforo sintonizou-se com seus olhos. Havia um chuvisco que enfeitava a cena, o homem esmurrando um velho com fúria, um vazio de ajuda o atingindo com um Dessa vez eu ajo! O sinal verde só combinou com sua camiseta; parou o carro repentinamente, abriu a porta e mergulhou no mesmo caos que criticara na tarde anterior. Nenhuma teoria vence a vivência. Hellcife... Violência, segunda-feira, Rua Manoel Borba... Nada disso combinava.

 

V.

Samu, Polícia Militar, Guardas de trânsito, o velho, a calçada, sangue, prótese perdida... Nenhum golpe que recebeu no rosto doía tanto quanto a vergonha. O seu agressor já havia sido socorrido; o agressor do agressor, seu salvador, foragido; a mulher que o ajudou ainda por ali; e a curiosidade atropelando de vez o trânsito. O centro do Recife respirava CO2 e testemunhava o desdobrar de uma cena inacreditável. O PM tentava entender, questionava o velho, ouvia. O menino se parecia com o meu netinho que morreu, seu guarda. Levei ele pra minha casa pra dar um boneco feito esse, só que havia sido do meu neto. Não sei porque aquele homem veio me agredir. Acho que era o pai. Só acho... 

O PM tentava entender. A mulher que ajudou o velho tinha palavras suplicantes para o policial. Eu não tenho muito o que dizer dessa confusão não, seu guarda, mas tenho outra sobre o safado que bateu em mim de madrugada e pegou o velho agora há pouco! O PM riu de leve. Fitou a minissaia vermelha da mulher e vomitou toda a sua ignorância, Puta se queixando de agressão? tenha paciência. vá à Delegacia da Mulher, ora! aqui o assunto é outro! Tantos resmungos e nenhum entendimento. O PM tentava entender.

Aos poucos a rua pedia passagem. E recebia. Tantos urubus de rádios, jornais e TVs se acotovelando pela notícia. Tantos curiosos somente observando tudo, desempregados, futriqueiros, consumidores da miséria alheia. Era o Recife cada vez mais brincando de perigo, cujas ruas seculares mantinham olhos fechados e calçamentos insensíveis.

As sirenes mudas e reluzentes iam pintando o quadro: o homem que agrediu o velho já estava no hospital, sob escolta, e lá mesmo deporia; o jovem forte que agrediu o agressor, ainda foragido, teve o carro - que ficou aberto no meio da via - guinchado. Ele também prestaria depoimento assim que fosse identificado e localizado. A prostituta, mesmo injuriada, aguardou até uma possível ida a delegacia para também depor. Tudo no futuro do pretérito. Sim, o velho não quis prestar queixa. Disse isso com frieza. Limpou o resto de sangue na boca. Ajeitou a camisa. Pegou seus penduricalhos e os espalhou novamente pelo corpo. Saiu mantendo o destino anterior como se nada tivesse acontecido. Percebeu que a imprensa não deixaria aquilo sem respostas, mas seguiu. Ainda ouviu o PM resmungar sozinho, Povo doido! E saiu andando com um risinho sem vergonha, no canto da boca.

 

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Sidney Nicéas é escritor com cinco obras publicadas e editor do Blog Tesão Literário. Colunista de Literatura das Rádios CBN e Transamérica, preside a Ideação, co-realizadora da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Prepara dois romances para breve, um biográfico e outro de ficção. Também é Relações Públicas com MBA em Gestão de Pessoas, Pós-Graduando em Escrita Criativa, professor universitário e titular da própria assessoria de comunicação, a Sidney Nicéas Comunicação Integrada. Ainda integra os projetos sociais Sertânia Sem Fome e Mundo do Lua, além de promover diversas ações que visam a inclusão social pela Literatura.

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