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Literatura

Pretendo me fazer chorar

Por: SIDNEY NICÉAS
Lúcio Pessôa volta ao Tesão com um texto sensível, tocante e dedicado à simplicidade do olhar.

Foto: Reprodução/aguaesolpiscinas.com.br

27/12/2023
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*Por Lùcio Pessôa

Estive debruçado no parapeito da ponte, espiando a movimentação dos carros passando lá embaixo.

o som da cidade era, como sempre, perturbador. com ele, uma sensação incomparável, que é a fragilidade de estar a certa altura, numa condição sugestiva à queda. 

experimentar isso é um atrevimento, comparado ao efeito de uma droga, tamanha a inquietude provocada: algo à beira da vertigem e do caos. 

As pessoas, minúsculas, caminhavam normalmente, enquanto eu doava o meu olhar ao nada, e algumas vezes, às placas indecifráveis dos veículos. 

mesmo estando de costas, e aparentemente concentrado, eu percebia àquela gente. elas atravessavam a ponte, enquanto eu permanecia dependurado, imóvel, quase uma extensão do próprio resguardo, ou o peitoril uma quase extensão do meu corpo. 

casais, crianças, jovens, pessoas sozinhas e, talvez solitárias como eu, se cruzavam, indo de uma avenida para outra, num conflito de direções; cada um no seu cada qual, como tem de ser. 

Alguns arrastavam as sandálias, alimentando a perturbação sonora; outros pisavam firmes, dando a impressão de que queriam perfurar o concreto. 

“agora entendo como as montadoras de veículos sobrevivem, fabricando uma danação de carros. tem quem compre...” 

trabalhei por muitos anos na casa de uma família de muito dinheiro. lá, a minha função era limpar a piscina, e apenas isso. usando uma vara com um saquinho na ponta, uma espécie de rede de pesca, eu ia recolhendo as folhas, que caídas das árvores, ficavam boiando. 

enquanto eu pescava aquelas folhas maduras, quase nenhuma verde..., imaginava aquela piscina como um imenso quadro, e me sentia como se estivesse cometendo o pior dos crimes, removendo as cores daquela tela, desconstruindo a beleza da obra, com o meu inútil ofício. inútil porque nunca presenciei um mergulho sequer naquela piscina. e no meio daquilo tudo, eu apenas torcia para que o vento soprasse, e balançasse os galhos, e que novas folhas despencassem, repintando aquele retângulo translúcido.

outro dia fiz uma arrumação lá em casa, e encontrei em uma das gavetas, uma pilha de fotografias antigas, daquela época ou de bem antes; quase todas já se apagando, as imagens do passado deixando de existir, e relembrei as águas daquela piscina, sem as folhas. 

*

tenho me achado estranho, quando me observo no espelho. percebo a ironia do tempo: os pelos das costeletas embranquecendo, uma cruel constatação de que passei dos quarenta e que sigo ladeira abaixo, o pior dos conflitos de direção. 

*

Quando os meus patrões se mudaram daquela casa, a minha última missão foi ajudar a organizar os móveis, nos últimos dias de aviso prévio. 

Retirei todos os quadros das paredes e fiquei horas observando as marcas encardidas, os decalques no formato das molduras, tatuados pelo tempo, na direção contrária das fotos que encontrei na gaveta. 

Depois que fiquei desempregado, aprendi a engraxar sapatos e a passear com cachorros. o meu recorde são oito cães por vez, quatro em cada mão. às vezes, acontecia um emaranhado de coleiras danado, porque os beagles são bem deselegantes quando jovens. 

Gosto de debruçar no parapeito das pontes. 

Os carros passando lá embaixo, tão minúsculos quanto as pessoas, me trazem pensamentos avassaladores, desde a vontade de pular à outras menos desgraçadas.

Sonhei a minha vida inteira em morar num lugar que tivesse varanda, mas agora estou divorciado. 

Ando pelas ruas nos finais de semana, e participo de cultos: cada domingo em uma igreja diferente. 

Amanhã devo ir a um terreiro de umbanda, depois de regar o coentro que plantei na garrafa pet, cortada pela metade, que segue verdinho de dá gosto.

Hoje não sonho mais em morar numa casa com varanda. 

Às vezes, queria apenas que os meus filhos viessem me visitar de vez em quando, e que as montadoras de veículos fabricassem menos carros. 

Se alguém souber de alguma vaga de emprego para limpador de piscina, eu tenho muito interesse. ainda que seja apenas meio expediente. 

Pré-requisito: ter árvores plantadas em volta, vento disposto e constante, e folhas maduras prontas para despencar.

O pernambucano Lúcio Pessôa é fruto de uma infância interiorana, vivida em um engenho de cana-de-açúcar, na cidadezinha de Itaquitinga, onde viveu antes de residir e degustar da atmosfera inspiradora de uma cidade que é histórica e patrimônio: Igarassu. 

É Terapeuta, Poeta; e Escritor ficcionista, daqueles que transita dos contos à dramaturgia.

Autor de dois Romances (O QUE ACENDE AS ESTRELAS, Editora Chiado, 2013 e QUASE TUDO EM CINCO ENVELOPES, Editora Giostri, 2016); uma obra de Dramaturgia (TEATRO DE LÚCIO PESSÔA, Editora Giostri, 2016) e de duas obras de Poesia (EUTONO, Editora Viseu, 2021 e POEMAS HORIZONTAIS PARA MUNDOS INCLINADOS, Editora Versiprosa, 2023), ele agora passa a assinar uma de nossas colunas, trazendo entre (e dentro da) sua literatura, um pouco do seu olhar terapêutico, mesmo que essa perspectiva esteja menos explícita, quase que num tom subliminar, um convite aos olhares dos leitores, das pessoas, e de todos os seres.

 

Instagram: @escritorluciopessoa

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