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Opinião

Problemas estruturais de um mercado de trabalho ainda guiado pelos preconceitos

Por: SIDNEY NICÉAS
Alfredo Bertini retorna com mais um de seus textos críticos, agora falando sobre os problemas e consequências dos preconceitos dentro do mercado de trabalho.

Foto: Reprodução/folhape.com.br

09/08/2023
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*por Alfredo Bertini

O sonho de uma Deusa do Ébano, por mais que seja derivado de um mérito pontual, tem lá seu enorme significado. Particularmente, refiro-me aqui aos exemplos do bloco Ilê Aiyê, do tradicional Carnaval da Bahia, que na intenção de fazer valer todo simbolismo cultural da identidade afro, promove o concurso da "Deusa do Ébano".

Tão ou mais importante que enaltecer as belezas próprias de excelências pretas que dão viço à natureza da nossa etnia, está o sentido de ampliar na sociedade uma revisão conceitual, capaz de exaltar a consagração do nosso marco civilizatório. Desta vez, pelas lentes do comprometimento com a inclusão social. Uma tentativa tardia de resgate sociocultural, por conta da incompletude brasileira de não consolidar suas conquistas históricas, sobretudo, quando se mexem em situações estruturais que causam incômodos aos que exercem seus poderes. 

Atenho-me agora à história de uma Dalila soteropolitana, absolutamente distanciada da narrativa bíblica e influência  cultural, que derivou de uma outra mulher de nome igual, mas que na origem rival (dos povos filisteus) foi por quem Sansão se apaixonou e por ela se sentiu traído, mesmo que na sua força incomum. Aqui, destaco Dalila enquanto instrumento de força diferenciado, dentro desta minha singela análise. Por ela, quero exprimir a dimensão de uma formação étnica tão  calorosa quanto valorosa, com a cara do respeito a uma diversidade, tão bem abraçada pelos cívicos exercícios da baianidade.

Para dar sentido à minha interpretação econômica, atrevo-me numa ilação sobre a luta particular de uma Dalila, antes daquela conquista de "Deusa". O que quero me antecipar com tal enunciado é partir de um contexto que raspalda bem o que acontece no mercado de trabalho brasileiro, conforme dados recém-lançados por pesquisas confiáveis. Afinal, se na essência dos diferentes meios de  gerações de postos de trabalho, a mulher preta não está tão bem representada como deveria, imaginem-se aqui outras circunstâncias de ser nossa Dalila uma mulher, nordestina e de condições de renda bem distanciadas do topo da pirâmide. Por conseguinte, partícipe de um quadro de desigualdade, no qual a realidade dada está representada por um padrão inadequado de educação, saúde, saneamento básico e moradia.

O tamanho dessa luta, tão cabievel à população feminina da raça preta, está agora ao alcance de números sofríveis, derivados de estatísticas da PNADC/IBGE. A preocupação tem todo significado pela declaração efetiva de uma população assumidamente negra (pretos e pardos) e que faz a diferença na composição demográfica. Somente em termos de População Economicamente Ativa (PIA), a evolução desse grupo racial das mulheres evoluiu de 26% para 28%, entre 2012T1/22T2. Enquanto isso, no mercado de trabalho, esse mesmo grupo proporcionou a menor participação, em comparação com os demais grupos demográficos. A queda dessa taxa, entre 2016 e 2019, foi de 52% a 45%. Pior: nas estimativas levantadas mais recentemente, das 48,8 milhões de mulheres negras em idade para trabalhar, apenas 51% estão no mercado de trabalho, estejam elas na busca por empregos ou ocupadas.

Pelo visto, em 25 de julho passado, data reservada às mulheres negras latinas e caribenhas, não houve grandes motivos para se comemorar. Pelo olhar que reservo aos números acima. A resistência histórica que tem gerado tanto esforço identitário por igualdade de oportunidades e representatividade, leva-me a crer que a trajetória a ser cumprida pelas mulheres pretas parece ser uma corrida longa e com barreiras.

Apesar dos passos representativos que significaram a conquista da nossa Dalila, ainda é difícil de acreditar na dimensão do desafio. Pelos preconceitos que injustamente pairam sobre o mercado de trabalho. E pela dissimulação da parte poderosa da nossa sociedade, em manter nosso marco civilizatório distante de uma construção social harmoniosa e sintonizada com  realidade do mundo.

 

Infelizmente, a luta de Dalila e outras mulheres iguais a ela, ainda irá continuar.

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Alfredo Bertini é Economista.

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