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Cultura

Publius no Tesão: “A poesia sempre vai transbordar”

Por: SIDNEY NICÉAS
O cantor pernambucano Publius estreia show do seu novo disco Bleus no Recife. A gente conversou com o artista

Foto: Divulgação

05/03/2023
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*por Sidney Nicéas

Um artista que se alimenta de arte costuma ser melhor. Verdadeira ou não, essa máxima acaba sendo combustível instigante para o cantor e compositor pernambucano Publius, que acaba de lançar seu novo disco, Bleus, nas principais plataformas de streaming, e vai estrear show no Recife na próxima sexta (10), às 20h30, no Poço das Artes (mais detalhes ao final). Devorar discos, livros, filmes e peças teatrais acaba ampliando o olhar artístico de Publius, o que parece transparecer bem na profundidade de Bleus, obra com muitas tintas autobiográficas e mergulhada em parcerias.

Bleus era o apelido de Publius quando criança. Utilizar isso como nome da obra acaba revelando muito do caráter de pessoalidade da obra. “Esse apelido ganhei desde os tempos do Colégio de Aplicação da UFPE, nos anos 1980. Bleus é como todos os meus discos solo: um mergulho. Uma Imersão nas próprias memórias em forma de canções. Um mergulho poético-musical em temas universais como o amor, o tempo, a vida e a natureza. E, dessa vez, resolvi despretensiosamente ousar gravando e arranjando sozinho violões, guitarras, violas, bandolins, vocais e voz. Talvez esse seja o disco que tenha de um modo bem presente a minha assinatura musical por isso”, explica.

Mas, além do caráter individual que moldou a obra, Publius explica a ‘liga’ que o trabalho acabou ganhando através das inúmeras parcerias, que ele faz questão de valorizar. Nomes como Juliano Holanda, Tonino Arcoverde, Zeh Rocha e sua esposa Lis ajudaram a ampliar a ideia por trás da obra. “Não se faz nada sozinho. Colaboração, a brodagem que herdamos dos mangueboys e manguegirls, é fundamental nas artes. Acredito que as redes de afeto, os coletivos, são um grande motor de expansão e uma tendência na música popular contemporânea. As parcerias também são fundamentais para o nosso crescimento como artistas”, complementa.

Enquanto artista independente, a relação comercial na Música transformada com o surgimento dos streamings, para Publius, se compara com outras transformações no século passado. “É um impacto que pode ser comparado ao do surgimento do fonógrafo e do rádio no início do século XX. E ainda vai transformar muito o mercado da música”, afirma. Para ele, o artista independente precisa focar no trabalho para seguir buscando espaço, todavia, as transformações trazem perdas e ganhos. “Perdemos receita sem a venda de discos físicos, é verdade, mas ganhamos mais agilidade na distribuição das nossas músicas, de certa maneira”.

Com um trabalho focado na profundidade poética da música, Publius acredita na força da arte como asas para a própria criatividade. “Faço a minha música como um alimento para as nossas almas. Vivo sempre ouvindo música no streaming, escuto também cds no carro, para ampliar o meu repertório criativo. Tenho ouvido grupos novos da música brasileira. Na literatura, tenho curtido os poemas maravilhosos de Cida Pedrosa. No cinema, tenho acompanhado filmes pernambucanos e assisto sempre em casa o canal Curta. No teatro, posso destacar a releitura dos poemas de João Cabral de Melo Neto feita pelo grupo Magiluth”, revela.

Adepto da resiliência como antídoto para tempos em que a arte anda sofrendo revezes impensáveis, Publius conversou com o Tesão Literário também sobre o processo de criação de Bleus, os efeitos da Pandemia, o show de lançamento do disco no Recife, dentre outras coisas. Confira abaixo a entrevista completa e, ao final, além dos contatos com o artista, os detalhes do show que acontece na próxima sexta (10).

 

TESÃO LITERÁRIO- Bleus, seu apelido de infância que intitula seu novo disco, parece uma imersão em temas muito afeitos a você. Fala desse processo pra gente…

PUBLIUS- Bleus, o título do meu disco, é um apelido que ganhei desde os tempos do Colégio de Aplicação da UFPE, nos anos 1980. Bleus é como todos os meus discos solo: um mergulho. Uma Imersão nas próprias memórias em forma de canções. Um mergulho poético-musical em temas universais como o amor, o tempo, a vida e a natureza. E, dessa vez, resolvi despretensiosamente ousar gravando e arranjando sozinho violões, guitarras, violas, bandolins, vocais e voz. Talvez esse seja o disco que tenha de um modo bem presente a minha assinatura musical por isso. Mas não se faz nada sozinho. Nada. Convidei o meu velho amigo e primeiro parceiro musical Mozart Ramos para tocar flautas comigo em “Várzea”, canção que fala sobre o bairro onde nos criamos e onde vivo até hoje. Ele também acabou gravando flauta transversal em “passarim”. Vale destacar também no disco “Bleus” o trabalho dos parceiros no quesito produção musical: Paulo Umbelino, André Oliveira e Chris Lemgruber. Eles também foram fundamentais trazendo suas boas ideias no design de som e na captação dos melhores takes de gravação.

 TL- Como tem sido a mudança na música, das gravadoras para os streamings?

P- Toda mudança no sistema capitalista tem seus prós e contras. No mercado da música não seria diferente. O surgimento das plataformas digitais de streaming na minha opinião tem um impacto que pode ser comparado ao impacto do surgimento do fonógrafo e do rádio no início do século XX. E ainda vai transformar muito o mercado da música, acredito. Com as plataformas digitais de streaming e os smartphones mudou muito a forma de consumo da música em todo o mundo. A vida de um artista independente não é fácil, mas prefiro focar no trabalho, superando os desafios e tentando produzir cada vez mais singles, discos e EPs de qualidade para distribuir nas plataformas digitais de streaming de música.

TL- Complementando a pergunta anterior: o que um artista feito você perde e ganha com os streamings?

P- Perdemos receita sem a venda de discos físicos, é verdade, mas ganhamos mais agilidade na distribuição das nossas músicas, de certa maneira. Chegar até os mais distantes países com a nossa música talvez seja um pouco mais fácil hoje.

TL- Aliás, o disco traz inúmeras parcerias, só possíveis diante da ausência de contrato com gravadoras, o que facilita tudo. Para muitos artistas, esse colaborativismo é a grande tendência da música daqui para frente?

P- Sim. Ser um artista independente não é tão favorável economicamente, mas facilita alguns aspectos, como o trabalho em rede. Fiz parcerias com Xico Bizerra, Juliano Holanda, Tonino Arcoverde, Pabulus Lentulus, Paulo Marcondes, Zeh Rocha e Emídio de Miranda no “Bleus”. Arranjei a composição de minha parceira de vida Lis, “au bord de la mer”. Colaboração, a brodagem que herdamos dos mangueboys e manguegirls, é fundamental nas artes. Acredito que as redes de afeto, os coletivos, são um grande motor de expansão e uma tendência na música popular contemporânea. As parcerias também são fundamentais para o nosso crescimento como artistas. Através das parcerias podemos enxergar novas maneiras de criar e sentir nossas canções.

 TL- Como foi o processo de seleção das músicas que integram Bleus, diante de duas décadas de composições? Havia coisas tocadas ao vivo e não gravadas, sobras de outros álbuns, coisas inéditas? Ou foi um pouco de tudo isso?

P- Foi um pouco de tudo isso. Foi um processo bem afetivo mesmo. Comecei gravando  “Várzea”, que é uma composição antiga, uma feliz parceria com Juliano Holanda. “A Natureza tem um desejo para mim” é um poema de meu irmão Pabulus que musiquei em 2020, e lancei como single em 2021, em plena pandemia da COVID-19. “O harmônio”, soneto de Emídio de Miranda que musiquei, foi fruto de uma sobra de gravações de estúdio do meu disco solo (2013) no estúdio Malunguim, que Chris Lemgruber mixou e masterizou.

 TL- A poesia é parte indispensável do seu trabalho autoral, o que sempre enriquece a música. O que você acha desse ‘esvaziamento poético’ na música, com tanta coisa fazendo sucesso sem nenhum ‘tutano’ de letra e som?

P- Faço a minha música como um alimento para as nossas almas. Sempre faço o que o meu coração mandar. Acho que a poesia sempre vai transbordar. E como diz a canção “a gente vai levando essa chama”, mesmo com todo “esvaziamento poético”.

 TL- Você faz show de Bleus na próxima sexta (10), no Recife. Em que pé está a sua agenda de shows? 

P- Sim. Vou cantar na próxima sexta-feira às 20h30 no Poço das Artes, lugar intimista no charmoso bairro do Poço da Panela. Quero reencontrar as pessoas e entoar minhas canções. Os shows estão voltando. Ainda bem! Sempre procuro movimentar minha agenda. Sempre estou em movimento.

TL- Voltando à questão dos streamings, tem aparecido boas propostas para apresentações ao vivo? 

P- Tem melhorado muito a questão das propostas de trabalho na música, mas ainda espero mais convites de outras cidades, estados e países para levar minha música cada vez mais longe.

TL- Mas isso melhorou ou piorou?

P- Melhorou, sem dúvida.

 TL- Além da Pandemia de covid-19 e sua quarentena, que inviabilizou muitos profissionais, a arte e a cultura passaram também por um período de revés nos últimos anos no Brasil. Quais lições é possível tirar de tudo isso?

P- Resiliência. Tudo passa. Até os mais difíceis momentos na vida passam. Nuvens passam. Ainda bem… Bleus também fala sobre resiliência em canções como “passarim”, letra minha musicada por Tonino Arcoverde.

 TL- Além da vacina contra a covid, quais antídotos os artistas, e a cultura de modo geral, necessitam para que o Brasil faça jus à sua riqueza cultural, desde o ‘consumo’ da arte até as políticas públicas?

P- Estímulos à criação artística, mais editais e oportunidades, democratização do acesso à cultura para a população são fundamentais para o desenvolvimento da nossa cultura popular. A nova Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo devem trazer mais recursos para as artes e dinamizar a cultura popular brasileira e, consequentemente, a nossa economia.

 TL- O que o artista Publius tem escutado na música, lido na Literatura, assistido no cinema e Teatro? 

P- Tenho ouvido grupos novos da música brasileira, como as meninas e os meninos da banda “bala desejo”. Tenho frequentado shows e festivais de música. Fui aos shows de nossos cânones da MPB Milton Nascimento (Bituca) e Chico Buarque. Ouço sempre as novidades dos artistas ligados aos coletivos Reverbo, Avoada e A dita curva. Na literatura, tenho curtido os poemas maravilhosos de Cida Pedrosa, como “Araras Vermelhas” e “Solo para Vialejo”. Sempre tenho por perto o livro “Miró até agora”. Li recentemente 100 crônicas escolhidas de Mauro Mota. No cinema, tenho acompanhado filmes pernambucanos como “Bacurau” e “Clarice Lispector - a descoberta do mundo” e também filmes como “Aftersun”. Assisto sempre em casa o canal Curta, que sempre exibe excelentes filmes. No teatro, posso destacar a releitura dos poemas de João Cabral de Melo Neto feita pelo grupo Magiluth! Excelente releitura!

TL- Você é daqueles cuja criatividade se alimenta também da arte? Como é a sua relação com a produção de outros artistas?

P- Vivo sempre ouvindo música no streaming, escuto também cds no carro, para ampliar o meu repertório criativo. No carro, por exemplo, estou ouvindo agora o lindo disco da cantora Riáh, que foi produzido por Hugo Linns. Adoro ouvir novidades, inclusive as antigas, como os geniais João Donato e Jards Macalé. Tenho curtido muito eles dois. A música e as artes alimentam a nossa alma inquieta. Minha musa inspiradora é Lis, que escreveu e cantou “Au bord de la mer”, que fecha com muita leveza o disco Bleus.

 TL- Para ouvir: vinil, CD ou streaming?

P- Todos. Mas há quem diga que o vinil é mais bacana. Por todo o ritual envolvido.

 

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PUBLIUS E O SHOW DE LANÇAMENTO DE BLEUS NO RECIFE

Sexta-feira, 10 de março de 2023, às 20h30, no Poço das Artes (Rua Álvaro Macedo, 54 - Poço da Panela - Recife-PE)

Couvert: R$25 (em espécie ou Pix)

Reservas pelo Whatsapp (81) 99817.1464

 

CONTATOS COM O ARTISTA

https://www.instagram.com/publius_/ 

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