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Opinião

Quantos desterros cabem em nosso mundo escatológico?

Por: SIDNEY NICÉAS
A escritora Iaranda Barbosa inicia o ano em grande estilo com uma resenha sobre o livro

Foto: Reprodução/www.patriciatenorio.com.br

04/01/2024
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*Por Iaranda Barbosa

Diversos manuais de escrita insistem na afirmativa de que escrever é, sobretudo, técnica e que a inspiração e o dom até existem, mas ocupam pouco espaço na criação. Raimundo Carrero faz coro a esses teóricos e, em “Os segredos da ficção”, delineia de forma bastante didática a diferença entre ‘escrever bem’ e ‘escrever ficção’. Consoante com essas perspectivas e imersa no grande oceano da escrita criativa, Patricia Gonçalves Tenório se apresenta como uma escritora que alia técnica e vocação para o sensível, características essas presentes em “Exílio ou Diário depois do fim do mundo”.

            Parte integrante de uma trilogia (composta também por “Setembro” e “Poemas de cárcere”) lançada em dezembro de 2020, “Exílio ou Diário depois do fim do mundo”, como o próprio título indica, é um diário no qual a autora revela a sua rotina durante a pandemia de Covid-19. Dividido em 5 partes, o livro contempla os meses de março a agosto e é um convite para conhecer um pouco sobre a intimidade da escritora, mãe, professora, coordenadora, filha, amiga e várias outras personalidades que habitam uma mulher que desempenha diversos papéis e, inclusive, procura não enlouquecer durante o período do desterro:

 

Porque este diário é um registro dos dias enlouquecidos, e eu desejo compartilhá-lo com outras pessoas que mergulharam nesses dias. No período de isolamento, todos os nossos instintos, bons ou ruins, vêm à tona e ficam acordados na superfície do corpo, da mente.

 

            Mais que um simples diário, “Exílio ou Diário depois do fim do mundo” apresenta em seu bojo o processo de escrita no qual é revelado o ato de escrever, corrigir, revisar, reescrever e deletar pautado em escolhas lexicais e seleções de acontecimentos mais (ou menos) relevantes que definem o que omitir, o que expor:

 

Sábado, 11h31. Revisei o que escrevi ontem e retirei alguns trechos desnecessários, que expunham a minha intimidade e a dos meus filhos, e não acrescentaria nada a este relato.

 

Nesse sentido, a obra em tela faz lembrar uma declaração de Juan Rulfo a Eduardo Galeano na qual o autor mexicano diz escrever mais com a borracha do que com o lápis, pois nem tudo deve, precisa, pode ser dito. Nesse exercício de dizer, silenciar, esconder e revelar, é possível recorrer à reflexão que Raimundo Carrero realiza sobre o gênero biografia ao considerá-lo uma criação, tal qual a obra ficcional, e aplicá-la ao gênero diário e, mais especificamente, a “Exílio ou Diário depois do fim do mundo”.

Com grande domínio da técnica e da criatividade, Patricia Gonçalves Tenório produz uma narrativa sensível, intersemiótica e dinâmica ao citar filmes e intercalar trechos de leituras teóricas e literárias com as experiências vivenciadas por ela no momento da escritura, configurando o diário um espaço para recordações tanto de um passado recente quanto longínquo. Tais referências são assimiladas junto com a rotina de atividades que se apresenta em uma espécie de looping, pautada basicamente em organização, limpeza e medo de um inimigo invisível que a qualquer momento pode entrar em casa:

 

Sábado, eu e Bruno limpamos a sala, as varandas, a biblioteca e o lavabo. Hoje, a área de serviço lavanderia, cozinha, o lavabo novamente, corredor, os quartos e banheiros. São cerca de quatrocentos metros quadrados que precisamos manter o mais limpo possível.

 

Não seria exagero afirmar que as ações e os cenários descritos aproximam a narrativa de Patricia Tenório ao conto "Casa tomada", do argentino Julio Cortázar. Casa, ambiente este que é o personagem principal do projeto de Patricia Tenório para 2021 em "Os mundos de dentro", no qual ela visita e investiga as residências de escritores e poetas brasileiros. Ao longo da narrativa a autora também revela as ideias e o início do processo de escrita dos outros livros que fazem parte da trilogia, em especial, “Setembro”, livro no qual podemos perceber, totalmente inserido em seus estudos teóricos sobre autobioficção, um alter ego da autora.

A subjetividade de Patricia Tenório é exasperada quando ela se semidespe de privacidade e permite que adentremos nas inseguranças, nos medos, nas frustrações, nas angústias, nas saudades, na solidão, nos sonhos e nas fragilidades de sua alma. Percebemos que, mesmo compartilhando de mundos e realidades diferentes, é possível nos identificar com muitas situações e sentimentos:

 

Sempre sinto esse medo, sempre me ronda a insegurança. Por maiores que sejam as conquistas, por mais difíceis os desafios, sempre sinto que não conseguirei. E então consigo, e me surpreendo, em vez de saber desde o início que eu seria capaz.

[...]

Tenho vontade de ficar dormindo para sempre. De me encolher no meu quarto, na minha cama, e nunca mais me levantar. Mas não posso, cheguei até aqui, irei mais adiante, mais um pouco, um passo de cada vez. Um leão por dia.

 

            “Exílio ou Diário depois do fim do mundo”, portanto, é um convite, ou melhor, uma chance para nos desarmarmos de estereótipos, preconceitos, arquétipos, intolerância e pré-julgamentos que muitas vezes apenas enxergamos nos outros. A leitura é uma oportunidade de exercitarmos a empatia a partir do momento em que eu compreendo que meus problemas não são maiores ou mais importantes que o do outro, mas sim que o mundo no qual vivemos carrega consigo dificuldades e desafios condizentes com cada realidade.

Iaranda Barbosa é professora, escritora e crítica literária. Doutora em teoria da Literatura pela UFPE, é autora da novela histórica Salomé (Mirada, 2020), obra finalista do Prêmio Literário Maria Firmina (2021). Também foi curadora e uma das autoras da Antologia das Mulheres Pretas (Mirada, 2021) e de Artemísias: vozes de libertação (Mirada, 2021). Possui tanto textos críticos quanto literários publicados em coletâneas e colabora com o Blog Tesão Literário, de Sidney Nicéas. No perfil pessoal do Instagram, quinzenalmente, realiza o Resenharia. destinado à análise de obras de mulheres vivas. 

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