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Literatura

Que nos dizem as sereias — Um elogio

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor e psicanalista André Resende traz mais um de seus textos reflexivos ao Tesão, dessa vez sobre diálogo

Foto: Arte/Fernando Burjato

19/08/2023
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*por André Resende

 

“(...) Cai num lenço, todo branco pelo aceno de despedida."

 (Paul Celan/Claudia Cavalcanti)  

      

AS SEREIAS ME INTERESSAM MAIS. Me interessam mais que qualquer personagem da Odisseia. A maioria ameaça, quer meter medo. As sereias chamam para conversar. Se, com seus cânticos, ainda hoje, atemorizam argonautas, é prova de que o diálogo com aquelas que querem conversar ainda mete medo.                                        

   A mim, não. As sereias me interessam mais. Me encantam mais que Odisseu, de quem se poderia falar com certos cuidados, como se fala de Dom Quixote e de sua estrutura psíquica frágil. Dizer que um herói da cultura ocidental tem uma estrutura psíquica frágil...  As sereias, portanto, me interessam mais: até mais que Odisseu/Ulisses, se me permite a indelicada rudeza com o herói Ocidental e intelectual.                                                    

   Em seu encantador romance "Ítaca Para Sempre", Luigi Malerba nos conta das expectativas e dos receios de Odisseu e, com menos força de delírio, dos de Penélope, antes de se reverem, tanto tempo depois. Malerba cria um lindo encontro, com intuições, lances sensitivos, silêncios e recusas (ainda não se sabia que era o amor).                                             

   Que me espantou ontem, quando pensava em movimentos de sereia, foi uma percepção sem querer de Malerba: não é um diálogo. Penélope segue encantada pelo discurso fechado de Odisseu. Discurso delirante, persecutório, triunfalista que logo vai ser castrado. Odisseu, que andou o mundo do Mediterrâneo e passou das colunas de Hércules, não sai de seu discurso fechado de personalidade autoritária: em uma escuta psicanalítica, se poderia chamar de "inconsciente a céu aberto"- como nos mostrou a psicanalista Colette Soler - , se estabelece como exercício de existência, em uma rede de verdades feridas que "justificam" uma concepção de mundo e um sentido de permanência social à deriva, sem um lugar pleno de evolução em sociedade.                                          

   Ontem, e não antes, ontem, pela manhã, pensei: caberia um capítulo de Malerba sobre a passagem de Odisseu pelas sereias, enquanto elas cantavam, se é que cantaram, se não era um convite, um apelo, para conversar: "Ó, Odisseu. Vem ouvir de perto este canto para você. Vem, Odisseu, conversar, falar do mundo, trocar ideias conosco. Nós não temos medo de trocar ideias, nem de dizer quem somos, que desejamos. Não tenha medo, como outros, Odisseu."                                                                        

Nenhum canto, a não ser seu próprio enamoramento consigo, alcança Odisseu. Ou a maioria dos homens. Ele, personalidade autoritária. Inconsciente a céu aberto, bem mais que narcisismo. Arrodeado e enodado em seus delírios, verdades feridas e renúncias existenciais por contingência persecutória: desafortunado. Sustentado em seus medos, fantasmas e delírios, psíquicos. Uma crosta ressentida e aturdi(t)a. Em um discurso aleatório de por onde andou e como chegou, se é que chegou a Ítaca, a Penélope, a Telêmaco e a quem mais, se mais houvesse - se é que não continuou em si mesmo, por dentro, em suas guerras e batalhas morais.  Batalhas mascaradas de atitudes políticas e de grandezas retóricas desconfortantes e inquietas, mas esperadas, carregadas de sinais familiares. No fundo, simplesmente, fragilidades psíquicas. Nada mais. Um nada mais que não se basta nas próprias palavras, pois seria preciso que viessem aturdi(t)as pelos sinais de como as ordenações (des)amorosas de pai e de mãe impactam no modelo de agir, viver, pensar e julgar.                                                             

   Odisseu não dialoga com Penélope, não dialoga com ninguém, fala com sua imaginação delirante, talvez com mais ninguém, e isso encanta Penélope, o mundo fechado, sem saída, lugar que não vai dar em nada, sem segredos desconhecidos, somente fantasmas e alucinações, discurso dolorido, promessas de uma vida cumprida e a cumprir, exílio, desterro.                                                                  

 Na Odisseia, Odisseu/Ulisses é amarrado ao mastro da embarcação, passa sem diálogo pelas sereias. Em "Dialética do Iluminismo"/"Esclarecimento", Adorno e Horkheimer nos dão uma linda construção da dialética Civilização-e-Barbárie na escolha de Odisseu perante o perigo de sucumbir à ameaçadora possibilidade de ouvir as mulheres/sereias e dar a elas oportunidade com paridade de diálogo.                         

   O encantamento por personalidades autoritárias, todos masculinos, que falam consigo e para si, em um mundo fronteirado por sua existência atormentada e carente é um traço da recusa à paridade emocional e intelectual (mesmo que não exista paridade de nenhuma ordem, é uma utopia aceitável e bonita que age como energia emancipatória e igualitária). Ainda apaixona mais mulheres que homens, encantadas com personalidades autoritárias (não necessariamente brutas e iguais a tiranos) que não lhes dão diálogo, nem lugar de pensadoras, nem "lugar de fala", mas de adoradoras, seguidoras e submissas. São mentores, professores, condutores. Um lugar de submissão.                              

   Li "Dialética do Iluminismo", pela primeira vez, em voz alta, de pé, encantado, andando dentro de casa de um lado para outro. Traduzi o conto curto "O Silêncio das Sereias", de Kafka, e quase fiz isso de pé. Em Kafka, Odisseu se amarra à embarcação e veda os ouvidos com cera e pano nos olhos. Ele não quer saber que as sereias têm a dizer. Vindo delas, só poderia ser sedução e derrocada do saber, desvio de uma rota de vida da qual não tem a menor ideia de que seja, uma vez que, assim se supõe, voltar para casa para rever Penélope não era a primeira opção. Ele não escuta, tampouco vê as sereias cantarem: sente apenas o frenesi flamejante da tripulação masculina entesurada pelo canto - a mensagem e o chamado ao diálogo - das sereias na trepidação do assoalho, que o fazia tremer somente de imaginar que poderia ouvir, e talvez concordar, e talvez dialogar com elas, e talvez mudar de ideia (acho que melhorei a cena, aqui). Naturalmente, como é de meu gosto, fui a Capri e à possível passagem do encontro deles. Naturalmente, fui a Positano atrás de vestígios da aura das sereias no cotidiano das pessoas que acreditam que a cidade foi fundada por Odisseu - assim como se supõe de Lisboa - e que três ilhas de frente à cidade se formaram dos corpos das sereias precipitadas com a recusa de Odisseu ao diálogo, a ouvir que elas tinham a dizer.                                         

   Nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, encontramos em uma das paredes tombadas, o relevo de uma sereia. Na cidade "fundada" por Odisseu, nada mais aceitável, mesmo entre carmelitas, que houvesse vestígios da aura de sereias. Em Nápoles, em uma igreja à beira-mar, há um túmulo cultuado como pertencente a uma sereia.                                                  

   As sereias me interessam mais que qualquer outra personagem da Odisseia. Talvez da literatura. Ou da vida.             

   Odisseu resistiu às sereias por medo de trocar ideias com mulheres e porque esperava voltar para casa e, talvez, para Penélope, mas isso só veremos de algum jeito em "Ítaca Para Sempre", de Malerba , e é duvidoso que personalidades autoritárias, ou aquelas com estruturas psíquicas frágeis e impactadas por verdades feridas e ressentimentos, saibam construir um plano de vida estabelecido pelo diálogo e por interesses comuns. Malerba nos mostra o encantamento, no olhar de Penélope, por Odisseu, um homem cujos olhos - parte do cérebro que salta de dentro para ver que existe do lado de fora do corpo - só consegue olhar para dentro, em micromundo imaginético inventado para se suportar.                      

   Gosto da imagem das sereias porque elas parecem propor conversar algo com os homens, os argonautas, mas, na alegoria da Oidsseia, contada por Odisseu, aqueles que se aventuraram conversar com as sereias, precipitados, morrereram.                       

   Nunca tive medo de conversar com sereias. Desde ontem, no entanto, confesso que não havia pensado que as sereias poderiam se sentir deserotizadas de sua potência de ser quando com homens em um lugar de diálogo, de procurar algum tipo de paridade e de construção de oportunidades compartilhadas, sobretudo, se houver uma fenda paterna - ou familiar -, implicando em uso pragmático de argonautas. Que as sereias só se sentiriam amorosamente mexidas se fosse elogiado qualquer coisa, menos a cabeça ou o coração. Que algumas, designadas por (des)ordens (des)amorosas familiares, se encantam pelo discurso alucinatório ou narcísico do homem para poder se anular como ser que age, vive, pensa e julga e, nessa renúncia, a si como ser pensante e a qualquer outro que anuncie diálogo: prefere admirar e se encantar com personalidades autoritárias ou por aquelas - se não for a mesma, dois em um - com o inconsciente a céu aberto.                                                                      

   Se Odisseu tivesse conversado com as sereias, se não tivesse temido as sereias... Se as sereias não temerem aqueles que dão diálogo, algo a mais que compulsões inscritas em seus significantes psíquicos... As sereias me interessam mais, exceto se, pelo avesso, preferem se esconder de um diálogo para iguais.
 

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André Resende é escritor e psicanalista. Nasceu no Recife e mora em São Paulo. Como escritor tem onze livros publicados. Como psicanalista, faz atendimento e supervisão individuais e Coordena grupos de diálogo em torno de Micropolíticas Cotidianas e Dos Masculinos há quase uma década.

https://www.facebook.com/andre.resende.14289 

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