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Opinião

Reginaldo Rossi (parte 3): as letras e o coração

Por: SIDNEY NICÉAS
Continuando a série, a escritora e cineasta Geórgia Alves analisa as letras das músicas, a ligação de Rossi com a terra e a conquista do coração das pessoas.

Foto: Patrick Silva

04/11/2020
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*por Geórgia Alves – com Pollyanna Alves e Robson Batista

+caso não tenha lido as partes anteriores desta série, clique abaixo:

PARTE 1: https://www.veragora.com.br/tesaoliterario/artigo/roma-e-amor-parte-1-reginaldo-rossi-a-roma-do-recife

PARTE 2: https://www.veragora.com.br/tesaoliterario/artigo/reginaldo-rossi-parte-2-o-brega-o-classico-e-o-popular

O gênio musical não está tão acima da genialidade – e simplicidade – de suas letras. Principalmente quando voltamos ao início da carreira e aos três primeiros discos: O Pão, A festa dos pães e O quente. Continuam atuais e falando de temas que jamais vão se esgotar. O amor é o mais fundo dos sentimentos que a comiseração, a compaixão, a piedade para com as falhas e as imperfeições humanas. As limitações do homem diante dos deuses. Tudo isto é pouco ou quase pouco diante do que nenhum estudo ainda disse, nunca um artista como Reginaldo Rossi seria alvo de estudo por parte da crítica. O que significa dizer que até os dias de hoje, não apenas a obra como a personalidade dele é pouco estudada e compreendida. O que RR pensava, como enxergava a relação do artista com o público. O que tinha a fazer diante dos olhos sedentos de alguma poesia que pudesse ser entregue do modo mais fácil, mais simples e terno. Sem espirais e jogos complicados, difíceis de compreender como as equações matemáticas.

Este momento, a história dessas composições ainda é muito nebulosa. E pela morte do ídolo e o tanto que se desfez de sua história pelas naturais perdas ocorridas durante o tempo e dos laços de amizade que vão ficando ao longo do caminho. Esta bibliografia não objetiva reunir dados nem análises mais a fundo do significado e da Poética contida nas letras. Espera apenas estar conferindo uma justiça à performance melodramática e romântica que caracterizam a obra e o estilo de Reginaldo Rossi. Sobretudo por compreender suas fundas influências na memória (hábitos e cultura) do povo pernambucano. Há alguma verossimilhança a ser estudada. Alguma coisa entre o trágico e o épico. Sob raros aspectos que envolvem não apenas as letras das músicas, mas o modo como elas conquistavam o coração das pessoas. O que há, afinal, no coração das pessoas? Por que o gênero do brega não deve ser esquecido, por mais que esteja perdendo seus espaços para o sertanejo o funk e o techno-pop guarda da ironia e do humor que as caracterizam? A biografia que recuperar alguns dos momentos mais bem humorados e o que fez este homem um fenômeno. Um deus de um gênero, ainda que com seus desastres e idiossincrasias não pensasse jamais na morte. Como seu estilo exerceu por tanto tempo tão forte “influência” na “cultura local”, de orgulho e ufanismo pelas “coisas da terra” e os “modos românticos” de uma figura masculina que sempre se coloca de modo vulnerável diante da beleza da musa. Também de forma significativamente afirmativa de sua autoestima masculina e sua “vocação” para despertar paixões.

A química tão bem-sucedida entre o artista, a cidade e os personagens que o inspiraram que ainda resistem nos Carnavais e recantos da boemia. Uma prática respeitosa entre os adeptos, chegando a ser sagrada e sacramentada como um ritual de introdução a um mundo adulto e cheio de permissividades que a infância jamais deveria conhecer.

Exemplos como do garçom, da mulher ideal, da leviana, do amante irresistível, do marido traído, da cidade idolatrada (quem sabe, posteriormente, contar com uma versão do teatro criado por Reginaldo Rossi. Sim porque na literatura, na composição das letras dele, ficou mais que bem impressa de uma dramaticidade. O mais importante é entender que os capítulos desta obra estão intimamente relacionados com as figuras populares celebradas pelo artista em suas letras de músicas. As canções traduzem uma memória cultural que está profundamente associada a lendas e histórias antigas do Recife, das periferias e mesmo dos salões da burguesia, que disfarça sua hipocrisia com um desconhecimento velado do fundo das coisas. Partimos dos personagens para chegar aos contos, com elementos cênicos que perduram como Leitmotiv de tantas narrativas históricas e até bíblicas. Que traduzem nossa humanidade e que permeiam o nosso imaginário porque nos toca tão profundamente que não poderia senão culminar como um objeto de desejo e de afinação popular, um fenômeno de massa. Estes mistérios vencidos e decodificados para o itinerário a ser percorrido, quem sabe de volta à fagulha divina que criou a matéria do ídolo.

Da simplicidade do gênero da música brega com canções de letras simples e muito facilmente apreendidas pelos ouvidos dispostos das massas. A sensibilidade poética para a força da personalidade romântica à referencialidade das letras que guardam elementos tão semelhantes e estão por trás do trágico, do inconciliável. Do que existe no espaço a ser percorrido entre o grotesco e sublime na busca para alcançar o estágio da arte. Reginaldo Rossi não falhou em sua empreitada. Talvez tenha negociado com impulsos menos elevados, e tenha ficado entre o profano e o sagrado como o próprio filho de Deus entre as cruzes de Dimas (o bom ladrão) e Simas (o mau ladrão), depois de ser trocado por Barrabás. Ninguém jamais contou o histórico de vida do Rei entre a ida até a “exclusão” do eixo Rio-São Paulo, nem, por outro lado, detalhou o que o consolidou como Rei na própria terra. Como no mito de Efebo, Reginaldo Rossi é encontrado com a cabeça entre o pensamento melodramático das elites em ascensão e o corpo em meio às massas que consomem a “carne” entre frustrações amorosas e “Pileques” assistidos por garçons, madrugada a fora. Dos ricos que não suportam o lugar das máscaras. A riqueza que guarda também tanta mesquinhez e desafetos.

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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