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Opinião

Samir Abou Hana: a invisibilidade é o nosso destino

Por: SIDNEY NICÉAS
A morte do comunicador Samir Abou Hana levanta questões que merecem profundas reflexões

Foto: Reprodução/Facebook

12/12/2021
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*por Sidney Nicéas

Não tem jeito; envelhecer é o grande mote para a invisibilidade. Salvo raríssimas exceções, raríssimas, o senso de renovação vigente joga o aposentado para os aposentos. E se ele, o ‘velho’ aposentado, for produtivo, a máquina de correr trata de ir moendo tudo. Até que a morte chega, os louros surgem onde antes só havia negativas e silêncios, as portas se abrem após tantos ferrolhos travados, já desnecessárias. Escutei isso do cineasta Fernando Spencer poucos meses antes da sua morte (com outras palavras, evidentemente). E também do comunicador Samir Abou Hana, há cerca de um mês, ou seja, um mês antes do seu falecimento, acontecido na última sexta-feira (10). Não há coincidência. Nosso sistema (nós!) teima em ir apagando aos poucos aqueles que muito fizeram e que ainda têm caldo para dar. 

O mundo mudou!, claro, ele muda o tempo todo, mas não é a mudança a questão: é o valor. Um cara como Samir Abou Hana quebrou paradigmas ao levar o povo para o centro da notícia. Não por menos ficou conhecido como Secretário da Cidade, tamanha a dimensão do que fazia. Marcou o rádio e a televisão com sua “ternurinha”. Conseguia aliar religião às pautas políticas e sociais sem o maniqueísmo e o manipulismo que acabaram se tornando padrão hoje. Seu legado tinha valor antes da sua morte, tinha, mas só após partir que voltou às ‘manchetes’. Logo ele, que abriu espaço para tanta gente, foi cancelado antes mesmo de morrer. Lutou bastante para retomar seu programa na TV e no rádio, mas… nada. Chegou a produzir um programa na internet, o Café com Samir, que não durou o tempo que deveria. A Pandemia tratou de piorar tudo, assim como um acidente em casa que feriu um dos seus olhos. Junte tudo isso e o grande comunicador foi ficando… invisível. A invisibilidade nos persegue; aliás, é ela o nosso destino. Samir que o diga. Da social, passa agora para a do corpo e imerge na da alma, que volta para o invisível.

É fundamental, claro, separar a invisibilidade natural da morte com o ostracismo imposto e o que hoje se chama de cancelamento, especialmente da mídia, ainda mais na velhice. Não é porque se está no período final da vida que se deve morrer. Samir preparava um livro para lançar em fevereiro próximo. Vínhamos trocando mensagens via whatsapp vez por outra com planos para entrevistá-lo aqui no Tesão, também para agitarmos depois com a obra em questão, para tomarmos um café. Não deu tempo (o livro, quiçá, sairá e estaremos nessa sim!). Resta-nos, então, manter o seu legado. Que o valor negado no período final da sua vida seja realçado daqui pra frente, afinal, conforme grafado numa das coroas de flores em seu velório, Samir fez história. Fez mesmo.

SAMIR E EU

Conheci Samir Abou Hana como convidado do seu programa na TV Nova Nordeste, em 2015 (salvo engano). Alguém me indicou e acho que o Nicéas do meu nome deve ter chamado a sua atenção - é que Samir foi alçado no rádio pelo meu avô, Amarílio Nicéas, que enxergou no então adolescente potencial para crescer - vovô tinha mesmo esse olho clínico -, foi o próprio Samir quem me contou essa história, mais de uma vez. Daí a sintonia foi imediata. Não nos víamos com a frequência desejada, mas era sempre uma alegria revê-lo. Participei do seu programa (na TV e na internet) várias vezes e batíamos muito papo em off. Além de vovô, Samir falava sempre muito bem do meu tio Cléo Nicéas, que por muito tempo foi Diretor Regional da Rede Globo Nordeste. Era quase como um membro da família. Tê-lo como amigo foi (é!) uma honra imensa. Tê-lo como leitor, um privilégio. Ontem fui ao seu velório e pude reencontrar amigos como Rominho (Som da Terra) e Ciro Bezerra (Rádio e TV Jornal), todos nós, de alguma forma, ajudados por ele em épocas distintas. Conheci Paulo, seu filho, e reencontrei as queridas Edwilma, sua esposa, e Cristina, sua filha e que produzia os seus programas. No ataúde, um corpo. Não era ele quem estava ali, não mais. Donde está, sabe que nos reencontraremos um dia. Até lá, amigo Samir! Uma ternurinha pra você!

VERDADE

Ontem, logo no início do velório, um senhor pediu a palavra. Chapéu preto na cabeça, camisa do Sport surrada, calça social velhinha e chinelo nos pés, falou simples e firme sobre o caráter de Samir e não mediu palavras para dizer que tinha muita gente agora querendo pagar de amigo ou se achando maior. Um flash de verdade em meio a tanta convenção social. Assino embaixo.

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Sidney Nicéas é editor do Blog Tesão Literário. Escritor, tem cinco obras publicadas. Colunista de Literatura das Rádios CBN e Transamérica CNN, preside a Ideação, co-realizadora da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. É sócio-fundador da UBE Olinda (PE). Prepara dois romances para breve, um biográfico e outro de ficção. Também é Relações Públicas com MBA em Gestão de Pessoas, Pós-Graduado em Escrita Criativa e titular da própria assessoria de comunicação, a Sidney Nicéas Comunicação Integrada. Ministra oficinas e workshops de criatividade e escrita e ainda integra os projetos sociais Sertânia Sem Fome e Mundo do Lua, além de promover diversas ações que visam a inclusão social pela Literatura.

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