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Opinião

Senso Coletivo Não Deve Ser Experimento Ideológico

Por: SIDNEY NICÉAS
O economista Alfredo Bertini traz seu primeiro texto do ano, dissertando sobre o senso coletivo e suas implicações.

Foto: Volodymyr Hryshchenko/Unsplash

17/01/2024
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*por Alfredo Bertini

Dois fatos distantes, mas conexos, marcaram-me neste início de 2024. Até faço questão de evidenciar o tempo, porque é importante lembrar para certos desavisados que, apesar de a gente oscilar entre a razão e o desejo (mais um aforismo do excepcional Fernando Pessoa), o tempo voa e a gente precisa se adaptar às novas circunstâncias. Ademais, a mais óbvia lembrança para esses seres que só enxergam seus umbigos, é que já vivemos no esplendor de uma era digital, ditada pela informação,  tecnologia e criatividade. Só neste quase quarto de século, muitas coisas mudaram. E como. 

Pois bem, vou direto ao ponto. O aspecto essencial a considerar é algo indispensável no meu conceito de enxergar a vida: saber entender e aplicar o senso coletivo. Os episódios que irei tratar são o recente acidente aéreo do Japão e um simples diálogo que travei com turistas, aqui mesmo, num paraíso do litoral pernambucano.

Antes de relatar uma oportuna conexão desses episódios, recolho-me no sentimento do quanto me representa o sentido conceitual de respeito ao que julgo ser algo precípuo para qualquer sociedade: o valor e o respeito ao coletivo. Como ser humano, posso até incorrer em equívocos pontuais, no exercício espontâneo da minha individualidade. Mas, de forma geral e em respeito aos limites próprios dos outros, costumo encarar a solidariedade e o senso comum como valores pétreos e vitais. Entendo que isto seja uma atitude válida, sobretudo, para uma sociedade que queira, de verdade, exercer sua concepção de desenvolvimento, com pluralidade e soberania. Enfim, a aposta intransigente vista apenas pela ótica e pelo valor individual, desfaz a ideia concebida sobre a vida em sociedade. É lamentável que hoje a gente tenha uma distopia que fragiliza o conceito de sociedade.

Minha primeira referência sobre o valor inestimável desse viés coletivo derivou de uma tragédia acidental, que poderia ter sido de maior proporção. Refiro-me ao recente acidente aéreo, ocorrido  em solo japonês. Com minhas apropriadas desculpas sobre o impacto dessa tragédia em si, o fato da mesma ter-se dado no Japão, serviu-nos (para o Brasil e o resto do mundo), que agir em prol do senso coletivo é atitude cultural e educativa. Jamais pode ser vista como uma imprópria questão ideológica, amparada no preceito de que pensar no coletivo seja regra para socialistas ou comunistas. As lições que se extraem daquele gesto de disciplina em nome do coletivo, no momento de evacuação dos mais de 300 passageiros, numa aeronave tomada pelas chamas, pareceu algo surreal. A  mesma sociedade japonesa que, como exemplo de cidadania aplicada à vida comum, aprende que essa condição pode começar com a limpeza da sala de aula, ou mesmo, das arquibancadas de um estádio, não é diferente daquela que gira sua economia pela dinâmica prevalecente do capital. Só que para esse padrão, outros valores humanistas são indispensáveis e sinérgicos para o processo de desenvolvimento tão bem planejado.

Penso na extensão desse significado numa sociedade como a brasileira, infelizmente, ainda mais aprofundada em valores que só distinguem seus cidadãos. Nosso apartheid é imoral e amoral, por ser extremamente amplo e estupidamente desigual. Seja pelo nível de renda, pelas definições raciais, pelo gênero e outros tantos princípios tratados pelos preconceitos mais desumanos. Na lógica do acidente aéreo diante o padrão comportamental da nossa sociedade, talvez tal tragédia fosse escrita de modo bem mais melancólico. 

O outro aspecto que aqui trago para dar mais evidência à essa questão,  teve cunho pessoal. Deu-se à beira-mar numa conversa despretensioso com turistas que estavam como admiradores de uma das nossas praias badaladas. No meu jeito meio atrevido de tentar me comunicar, até mesmo com estranhos ao meu convívio, exerci meu relacionamento social com quem estava ali ao meu lado. Sem qualquer visão coletiva, mesmo que exercida de modo sutil, uma das pessoas desse grupo destilou seu preconceito contra a região e seus pobres. Logo o assunto derivou para uma extremidade política venenosa, num ataque não menos preconceituoso, dessa vez contra o perfil e a responsabilidade atribuídos ao atual governo. Tudo destilado em tom de agressão, justo no trato das questões que dizem respeito ao caráter estrutural da sociedade brasileira. Desnecessariamente, ao se colocar como representante do dinâmico setor do agronegócio, colocou toda sua aversão pelo discurso imponderado contra as políticas sociais e sua própria "independência" do poder público. 

Francamente, penso que esse turista assim fez questão de se apresentar, por ser portador de uma soberba própria, quando disse: "atuo numa área que faço o quero e não preciso de setor público para nada". Hma infeliz narrativa, pois por mais que a políticas públicas destinadas ao setor não lhe atenda na plenitude esperada, não há mesmo "individualismo" que não careça de regras e disciplinas, capaz de se curvar ao coletivo. Vou além: será que seu negócio prosperou sem a orientação da EMBRAPA? Será que o BNDES ou outro banco público não lhe concedeu alguma linha de crédito? E os momentos de subsídios e incentivos de distintos governos não valeram de nada?

Bem, entendo que nesses exemplos do cotidiano recente, os limites entre o que é individual e coletivo estão claros. Por ter que tolerar tantos comportamentos incompatíveis com o clássico conceito de sociedade, tenho mesmo que aceitar uma das máximas de Luís Fernando Veríssimo, de que o "mundo não é tão ruim assim, pois só está mal frequentado". 

Como humanista juramentado e utópico realista ainda aposto que outros ciclos hão de vir diferentes.

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Alfredo Bertini é economista e desportista.

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