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Opinião

Sidney Nicéas: 20/21 de almas-sebosas e almas lavadas

Por: SIDNEY NICÉAS
A última crônica do ano de Sidney Nicéas traz uma memória e algumas metáforas sobre esse 2020/2021 de almas sebosas e almas lavadas...

Foto: Arte Tesão Literário

30/12/2020
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*por Sidney Nicéas

Um frio de lascar. Em pleno Sertão pernambucano, apenas seis graus nos termômetros e sensação de zero grau do lado de fora. Junho de 1984 quase congelante, a bela Triunfo seguia. Eu de casaco grosso desci a ladeira da manhã e fui bater na casa de Seu Fanca, que cuidava da fábrica de polpa de goiaba, à época funcionando. Dona Bibi, sua esposa, de sorriso inesquecível com cheiro de café coado, as galinhas bicando o milho espalhado, a quartinha com água gelada da madrugada (que geladeira nenhuma botaria defeito!), o paninho branco cobrindo, uma vida simples e tão rica. Adorava bater papo com aquela família. Eu me perdia sem precisar me achar, mas mamãe não. Mãe nunca perde o cheiro da cria, Sidneyyyyyyy!!! Às vezes um grito que ecoava, às vezes descia pra me chamar, Vá tomar banho que já já dá a hora da escola, menino! E lá ia eu.

Quem conhece Triunfo sabe que o inverno lá não brinca. Subi pensando em como me livrar daquele banho – sim, tinha chuveiro elétrico, mas não tô brincando, eu, pequeno, prestes a completar nove anos, a água descia e já chegava no cucuruto geladinha (por conta de um cobogó traquino!). Mãe, posso tomar banho de roupa? Deu certo não, levei uma bronca regada a risos! Entrei no banheiro, cabeça a mil, ideia genial: liguei o chuveiro e fiquei fora do box, assistindo a minha alma debaixo d’água. Enquanto o espetáculo invisível ia se desenrolando, abri a torneira da pia devagarinho e fui botando água no cabelo, molhando, tremendo, frio do cão! Lavei os sovacos e o pintinho quase sumido. A cena foi finalizada com o fechar das torneiras, a toalha enrolada, o casaco que em momento algum foi tirado, eu abrindo a porta e resmungando, Meu Deus que frio!

Funcionou. Foram três dias em que minha alma foi lavada com tanto gosto! (depois tomei banho mesmo, nem eu aguentava mais aquilo)

Trinta e seis anos depois eu, que no calor do Recife às vezes tomo 4 ou 5 banhos por dia (!), chego agora ao final do ano com essa memória. Tava aqui pensando em como lavar de novo a minha alma, agora com o sabão da maturidade, no findar de um ano mais intenso do que qualquer frio. Continuo ouvindo mamãe me mandando ir à escola, as aulas nunca cessam, aprender depende de como lidamos com o professor. Tento respirar fundo, a máscara vai piorando a minha sinusite, o cansaço de um ano em que não parei de trabalhar um dia sequer. O casaco está incomodando mas não posso nem pensar em tirar.

Se minha mãe fosse a presidente desse país estranho, tudo estaria resolvido, seus filhos vestidos com roupas de vacina, o frio não estaria tão intenso, o ano findando com sorrisos de esperança. Ainda que isso até doa diante das (in)ações do mandatário do país, graças a Deus mamãe escapou dessa, prefiro assim, ainda que preferisse mesmo seus dons dando outros tons ao comando na nação. Tem nada não, Dona Wolda. Amanhã tem aula, as galinhas continuarão bicando o milho. E ainda que Seu Fanca e Dona Bibi não estejam mais por aqui, vou deixar suas memórias inspirarem a minha crença num 2021 melhor, ou menos ruim. Ainda que tenha nascido na capital, o Sertão sempre me ensinou que só sobrevive quem tem força – de vontade, no lombo, na forma de encarar o que bom não está.

Pra tentar sair melhor de um ano ‘alma-sebosa’ (e cheio delas), vou ali ligar o chuveiro e ver se minha alma ainda sabe se lavar. Vou até deixar o chuveiro ligado por muito tempo. Vai que...

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Sidney Nicéas é escritor e tem cinco obras publicadas. Editor do Blog Tesão Literário, é colunista de Literatura das Rádios CBN e Transamérica/CNN e preside a Ideação, co-realizadora da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. É sócio fundador da UBE Olinda (PE). Prepara dois romances para breve, um biográfico e outro de ficção. Também é Relações Públicas com MBA em Gestão de Pessoas, Pós-Graduando em Escrita Criativa e titular da própria assessoria de comunicação, a Sidney Nicéas Comunicação Integrada. Ministra oficinas e workshops de criatividade e escrita e ainda integra os projetos sociais Sertânia Sem Fome e Mundo do Lua, além de promover diversas ações que visam a inclusão social pela Literatura.

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