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Literatura

Sidney Rocha no Tesão: “É preciso recuperar o bom senso e o bom gosto”

Por: SIDNEY NICÉAS
Conversamos com o premiado escritor Sidney Rocha, que lançou As Aventuras de Ícaro com uma ação social

Foto: Heudis Régis

22/01/2023
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*por Sidney Nicéas

O escritor Sidney Rocha é (re)conhecido não somente pela sua elogiada obra, também pelos seus posicionamentos firmes sobre temas diversos, mais ainda em relação à escrita literária. Goste-se ou não, há sempre debates necessários saindo da sua boca - e da sua escrita. Cearense morando em Pernambuco há algumas décadas, Rocha lançou recentemente seu novo livro, As Aventuras de Ícaro (Iluminuras, 2022), junto com uma ação social relevante: cada exemplar vendido gerava a doação de outro, entregue gratuitamente, para alunos da rede pública. E tanto o livro quanto a ação não ficaram imunes à contundência do seu olhar sempre arguto.

Classificada como romance infanto-juvenil, o autor rechaça a visão meramente classificatória. “Não existe isso de público infantojuvenil. Essa é uma divisão mercadológica que, claro, é importante, mas isso não define o livro”, crava. Quanto à ação realizada, Rocha não credita nenhuma função social ao escritor em relação à formação de leitores; para ele, a coisa vai bem além. “A formação de leitores tem a ver mais com educadores (se são escritores e escritoras ou não, isso é outra questão). A formação de leitores é assunto mais complexo. Se não temos plano mais amplo que envolva a sociedade e não esse muitas vezes zumbi social que se chama escritor e escritora, aquele e aquela alienados, longe da luta cidadã, não dá para se pensar muito em formação de leitorado. Pobres escritor e escritora brasileiros: não conseguem leitores nem para seus próprios livros. Imagine “formar” leitores”.

Ciente dos gargalos existentes no país, Sidney Rocha sabe que o caminho para a transformação deve partir de focos específicos até uma amplitude maior. “Não se pode melhorar o geral sem se melhorar o específico e o diverso. O interesse pela literatura não melhora se não melhorar o interesse pelo teatro, pela música, pela dança. Vivemos nos últimos quatro anos uma crise ética, mas também estética. É preciso recuperar o bom senso e o bom gosto. É preciso parar de pensar a cultura e as linguagens de modo esquizofrênico, partido”, explica, salientando que esse hibridismo nas artes que ele defende é parte indissociável do seu próprio trabalho literário. “Minha obra é uma obra híbrida. E cada vez menos “literária”. Sabe quem a lê”.

O escritor recebeu, no segundo semestre do ano passado, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco, marcando de forma certeira a sua obra e atuação literária - todavia, ele não deixa de creditar esse feito a toda uma geração de autores. “Não considero um título pessoal. Mas, como disse na ocasião: um título geracional, para uma geração brasileira que apostou na política e na literatura. Claro, levou-se em conta o conjunto da minha obra, minha atuação na escola pública, na luta democrática, no espaço público, na formação de leitores. Importante que a universidade deu o título a um escritor, e isso sinaliza como uma universidade lúcida abre as portas para outros saberes. Para mim o gesto representa muito”.

Leitor crítico, Rocha compreende a leitura como algo além do tempo gasto diante das letras; é construção. “O ato de ler deve se relacionar ao ato de construir consciências. Isso tem a ver com o individual e coletivo, com nossos dramas, nossas tramas, nossas escolhas (de onde vem a palavra “leitura”) e a realidade. Portanto é ato que coloca o cidadão no centro do (seu) mundo, que o faz protagonizar, de estabelecer o domínio da linguagem, de se afirmar como sujeito, no controle de sua existência, da formação como ente político, da elaboração coletiva do espaço público, inclusive”.

A entrevista que fizemos por e-mail com Sidney Rocha é necessária. Leia abaixo na íntegra. Ao final, saiba como adquirir o novo livro do autor e como contatá-lo em suas redes sociais.


TESÃO LITERÁRIO- Você fez uma ação na época do Natal que deveria ser seguida pelo meio literário - cada exemplar vendido do seu novo livro “As aventuras de Ícaro” gerou a doação de outro exemplar para um estudante da rede pública. A escassez dessa ‘função social’ do autor é um dos problemas para a formação de leitores no país?

SIDNEY ROCHA- Não. A formação de leitores não tem a ver com isso. Tem a ver mais com educadores (se são escritores e escritoras ou não, isso é outra questão). A formação de leitores é assunto mais complexo. Se não temos plano mais amplo que envolva a sociedade e não esse muitas vezes zumbi social que se chama escritor e escritora, aquele e aquela alienados, longe da luta cidadã, não dá para se pensar muito em formação de leitorado. Pobres escritor e escritora brasileiros: não conseguem leitores nem para seus próprios livros. Imagine “formar” leitores.

TL- Expandindo a pergunta anterior, o que pode funcionar para melhorar o quadro geral da Literatura no Brasil - escritores, editoras, leitores, livrarias, políticas públicas?

SR- Não se pode melhorar o geral sem se melhorar o específico e o diverso. O interesse pela literatura não melhora se não melhorar o interesse pelo teatro, pela música, pela dança. Vivemos nos últimos quatro anos uma crise ética, mas também estética. É preciso recuperar o bom senso e o bom gosto. É preciso parar de pensar a cultura e as linguagens de modo esquizofrênico, partido. Nisso se insere parte importante da cultura: a economia. Se escritores não são dignamente remunerados pelo que fazem, nem dramaturgos, nem atores, nem cineastas, ruim para todos. Para melhorar a literatura é preciso, primeiro, melhorar a literatura. Depois, a base da educação, os incentivos para que o livro chegue a quem precise, e não somente o livro, mas a difusão das linguagens todas, a leitura; depois o entorno econômico. Pronto: se tudo funcionar, recuperamos os vinte anos que perdemos nesses quatro ou seis e podemos começar do zero de novo. Não que tenhamos avançado muito nos últimos vinte. Mas já é um começo.

TL- Você participou da criação do PELLLB e o novo Governo Federal acaba de criar a secretaria de Formação, Livro e Leitura. Esse é mesmo um caminho sólido para fortalecer a literatura como um todo, já que cria interseções importantes entre governo e sociedade?

SR- Não. O assunto deve envolver menos o “governo e a sociedade”, e mais “o estado e a sociedade”. Se certas questões sempre parecerem “políticas de governo” e não de estado, não evoluiremos muito, como não evoluímos até agora. O que fortalece a literatura do país é o que fortalece o país: a economia: o feijão e o sonho. No momento, é preciso cuidar do feijão. “Tem gente com fome, tem gente com fome”. Portanto, é preciso cuidar disso, antes. Estou na luta pelo livro e leitura há décadas. Já vi secretarias e os nada secretos movimentos. Conheço o MEC e sei como não funciona. E o FNDE, e como funciona. Mas é cedo para avaliar a secretaria e o MEC, há vinte dias de governo.

TL- A formação de escritores também passa longe do ideal no Brasil. As oficinas de escrita criativa (mesmo com uma popularização questionável) acabam sendo um caminho para atenuar o problema?

SR- Não. Há escritores e escritoras demais. Se precisamos de mais não sei dizer. A questão é que se busca a escrita como se todos devessem ser escritores e escritoras profissionais. Há poucos escritores e escritoras profissionais no país. E nem todos nem todas são excelentes. Sobre oficinas, cada um faz o que bem entende e dá para se conseguir o feijão do Eu com o sonho do Outro. Ainda bem.

TL- Nesta semana o Centro Cultural Banco do Brasil lançou o edital 2023, fomentado pelo MinC, e nele não havia nada para a produção literária - após uma certa pressão, foi aberta uma rubrica específica. O que esperar da Cultura após tanto tempo de revés?

SR- Não. Não li o edital e soube há pouco. Claro, se não tem literatura é pior. Se não tem arte popular, arte de rua (mesmo que seja um edital para espaços do CCBB, pelo que soube), se não tem fotografia e cinema, dança, fica incompleto. Se atende somente projetos em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, sempre esses brasis primeiro, fica incompleto. Vão colocar os bancos regionais nisso, dizem. Veremos. Podiam ter anunciado isso mais globalmente, mas não estou lá para avaliar o que dá e não dá. Mas esse termo que você usa “produção literária” é curioso. Ele frequenta os debates e não quer dizer muita coisa, tanto pelo termo “produção”, quanto pelo seu vizinho: “literária”. A literatura pode ser inserida na dança, na arte popular, na fotografia, em tudo, a meu ver. Faço isso. Minha obra é uma obra híbrida. E cada vez mais menos “literária”. Sabe quem a lê. De todo modo, editais e festivais não são políticas públicas, de estado. São arremedos. Precisamos de políticas mais abrangentes e duradouras.

TL- Já tendo lecionado em pós-graduação em Escrita Criativa, como você vê esse tipo de formação acadêmica? Faltam mais cursos na área? É também parte da solução? Ou estamos falando aqui de coisas isoladas que acabam se perdendo diante da realidade brasileira?

SR- Não. Faltam cursos de alfabetização e de formação cidadã. Deles dependem se teremos melhores escritores e escritoras e leitores e leitoras ou não. A solução está na educação básica. Se há especializações e mestrados e doutorados, ok. Dei aulas em cursos de pós e sei como funcionam. As faculdades privadas não estão interessadas. Vejo coordenadores desses cursos e outros correndo atrás de cliente para “formar turma”. Nem sempre conseguem. É deprimente. O nível dos estudantes é sempre muito baixo, mas dizem que isso é o quadro geral.

TL- Falando agora sobre seu novo livro, “As aventuras de Ícaro” tem uma proposta de aprofundar questões atuais para um público não somente infanto-juvenil. O que de diferente você buscou no processo de construção dessa obra?

SR- Não. Não existe isso de público infantojuvenil. Essa é uma divisão mercadológica que, claro, é importante, mas isso não define o livro. Dizem que é um dos melhores romances que escrevi, mas talvez porque nele esteja bem claro o quanto me diverti construindo as peripécias. Espero que divirta quem lê. Sem etarismos.

TL- Fala um pouco da sua experiência na presidência do Conselho Editorial da CEPE e do trabalho da editora na área literária, que tem tido resultados interessantes.

SR- Não posso falar do assunto agora, ou ainda. Mas temos de ver o que você chama de resultados interessantes.

TL- E o título de Doutor Honoris Causa pela UFPE? O que representou para um cearense tão pernambucano quanto você?

SR- Não considero um título pessoal. Mas, como disse na ocasião: um título geracional, para uma geração brasileira que apostou na política e na literatura. Claro, levou-se em conta o conjunto da minha obra, minha atuação na escola pública, na luta democrática, no espaço público, na formação de leitores. Importante que a universidade deu o título a um escritor, e isso sinaliza como uma universidade lúcida abre as portas para outros saberes. Para mim o gesto representa muito.

TL- Há uma discussão sobre escrita e arte e sei que você considera que escrever não é arte. Por quê?

SR- Não conheço grandes discussões nesse sentido. Explico isso bem na aula 13 ou 18 do meu curso. Envolveria muito blábláblá, Aristóteles e os gregos antigos, coisas sem tesão para o leitor desse meio. Mas há debates que quem se interessar pode acompanhar pelo meu instagram: sidneyrochasr.

TL- O que você tem lido de escritores contemporâneos e como analisa a produção atual brasileira? Estamos num caminho frutífero?

SR- Não. Não dá para dizer. Literatura demora a frutificar. Só saberemos se estamos em um caminho importante daqui há uns cinquenta anos. Mas dá para dizer que pelo menos nos últimos cinquenta anos, de 1973 até 2023, há bons exemplos, bons nomes, mas não há tanta coisa assim a se celebrar. Mas posso estar enganado. De todo modo, é ter calma. E aguardar.

TL- Ler é… 

SR- Tentarei responder a esta pergunta para fins do seu estudo, como me pede. Porque tenho medo das respostas simplistas, mas não das simples. Mas o ato de ler deve se relacionar ao ato de construir consciências. Isso tem a ver com o individual e coletivo, com nossos dramas, nossas tramas, nossas escolhas (de onde vem a palavra “leitura”) e a realidade. Portanto é ato que coloca o cidadão no centro do (seu) mundo, que o faz protagonizar, de estabelecer o domínio da linguagem, de se afirmar como sujeito, no controle de sua existência, da formação como ente político, da elaboração coletiva do espaço público, inclusive. Às vezes, o ato de ler está ligado à ideia do livro. Noutras vezes, não. É antes sobre o mundo, como diria o Freire da Educação.

 

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CONTATOS COM SIDNEY ROCHA:

@sidneyrochasr

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