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Opinião

Silke Weber: a Universidade como modo de vida

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor e professor Flávio Brayner traz um texto que homenageia a brilhante professora da UFPE Silke Weber.

Foto: Reprodução/adufepe.org.br

23/08/2023
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*por Flávio Brayner

A Associação dos Professores da UFPE (ADUFEPE) tomou a honrosa iniciativa de homenagear a professora Silke Weber, cuja trajetória intelectual e acadêmica, caso eu precisasse repertoriar, ocuparia mais do que apenas um artigo aqui neste site!

Silke, embora sergipana, fez sua vida acadêmica aqui em Recife, e seu vastíssimo currículo acadêmico –e espero não estar errado- tem início na sua participação no Movimento de Cultura Popular, na gestão de Arraes como prefeito do Recife. Pertencente ao grupo que circulava em torno do educador Paulo Freire, desde lá, ainda na casa de seus vinte anos, afirmara a condição profissional que nunca mais a abandonaria: educadora, militante engajada nas causas da democracia e pesquisadora rigorosíssima. Apenas para ilustrar o respeito que se tinha pelo seu brilho e seriedade intelectual, quando Paulo Freire, já exilado no Chile, estava terminando sua Pedagogia do Oprimido, enviou para ela – que estava estudando em Paris (ela também estudou em Bremen e em Londres)- os manuscritos daquela famosa obra para obter sua abalizada opinião. As observações e comentários que fez sobre aquele manuscrito fizeram com que Freire se sentisse obrigado a escrever mais um capítulo de sua célebre pedagogia!

Não enumerarei aqui as incontáveis qualidades que foram elencadas naquela homenagem da ADUFEPE: ocuparia outro número deste JC! Mas penso que Silke encarna aquilo que Péricles, o estadista ateniense, disse da Pólis: não era um lugar para onde se vai, mas algo que se leva dentro de si: uma prontidão espiritual para regular os conflitos entre os homens através da palavra. A Pólis era, rigorosamente, um MODO DE VIDA! Estou certo de que, para Silke, a Universidade nunca foi apenas um lugar para onde se ía “ganhar a vida”, “passar um tempo da vida” ou “se preparar para a vida”... Não! Para ela, assim como a Pólis de Péricles, a Universidade é algo que se leva dentro de si: uma disposição para buscar um saber que se torna conhecimento; uma vocação (um “chamado”) para praticar a crítica como equipamento que submete nossas experiências ao “crivo” (mesma origem de crítica!) de uma razão política ou moral; o uso da palavra argumentada para esclarecer e tornar minimamente inteligível o problemático mundo em que nos encontramos.

Sua passagem como Secretária de Educação no segundo e terceiro governo de Arraes, mereceu do próprio Arraes a declaração de que “Silke é a linha mestra de meu governo!”. Bastaria lembra as iniciativas políticas e pedagógicas que tomou ao inovar os processos da formação continuada dos professores (da qual eu mesmo participei!) em articulação com a UFPE, a mudança no estatuto funcional dos antigos “supervisores”, a democratização das decisões técnicas e pedagógicas, os instrumentos que criou para aproximar a escola estadual das comunidades inclusivas, os mecanismos de participação da sociedade civil na definição dos conteúdos de aprendizagem e a atenção especial que deu à chamada “Educação de Jovens e Adultos”, creio que um atavismo pedagógico herdado do inesquecível MCP! Tudo isso aliado a um grave respeito pela coisa pública, um exercício cotidiano de virtude republicana, admirado e reconhecido por qualquer pessoa com um pouquinho de discernimento e seriedade.

Isso bastaria para inscrever o nome de Silke no Panteão dos grandes educadores que passaram por este Estado: Anita Paes Barreto, João Francisco de Souza, Edla Soares, Luis Delgado, Carneiro Leão...

Sua atuação na origem da ADUFPE e na organização sindical dos professores da UFPE, mostra que, ao lado da consciência moral e da competência acadêmica, residia também a militante da causa universitária, que não pode ser senão “PÚBLICA”, em profunda e vertical articulação com demandas sociais, transparente, democrática e republicana. Sem esses adjetivos nenhuma universidade merece o nome que tem!

São pouquíssimos os acadêmicos que podem ser tratados como patrimônio intelectual da Universidade, ao lado dos Paulo Freire, Ariano Suassuna, Manuel Caetano, José Antônio Gonsalves, Bacarelli, Pinto Ferreira, Jarbas Maciel, Maria José Baltar, Manuel Correia de Andrade, Socorro Ferraz, Amaro Quintas, Sérgio Rezende, Tânia Bacelar... Silke é apenas o nome de batismo de uma coluna de sustentação de nossa Universidade. Se ela – a Universidade- desabar (e tem muita gente querendo isso!) permaneceria aquela coluna “silkeweberiana”, indestrutível em sua altivez  republicana.

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Flávio Brayner é Cidadão Pernambucano, Mestre em História pela UFPE, Doutor em Educação e Pós doutor em Filosofia pela Sorbonne (FRA), Professor Titular Emérito da UFPE e ex-secretário adjunto de educação do Recife (2009-2010).

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