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Opinião

Sobre o “diálogo” na educação — Parte 1

Por: SIDNEY NICÉAS
O professor Flávio Brayner compartilha seu ensaio sobre a importância e o significado do diálogo na educação.

Foto: MD Duran/Unsplash

27/09/2023
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*por Flávio Brayner

Uma tradição moderna (e anti-iluminista) que surgiu com o Romantismo e que em matéria educativa ganhou sua primeira e mais alta dimensão com Rousseau, apostou claramente nas virtudes contidas na natureza, na valorização da infância (diferentemente do desprezo e do escândalo que ela provocava num Descartes, por exemplo, em função do fato de que nela estava ausente a razão) e num desenvolvimento harmonioso (que dizer em « harmonia » com a Natureza e com uma natureza interna) dos indivíduos, priorizando a « sinceridade » de seus sentimentos (palavras seminais no dicionário rousseauniano), investindo igualmente numa dimensão educativa em que o « diálogo » entre educadores e educandos aparecerá como condição estruturante. Tradição que se opõe criticamente à educação chamada de « tradicional » , entendida como excessivamente centrada na transmissão magistral de conteúdos e numa relação pedagógica onde apenas um dos polos da relação (o professor) detém a palavra e o poder, ela terminou por fazer fortuna e produzir uma imagem idílica da infância como época da vida em que não éramos contaminados com os vícios e perversões da idade adulta e, por conseguinte, digna de respeito, audiência e proteção. Esta tradição se prolongará nas variadas experiências pedagógicas da Escola Nova (e das Pedagogias Ativas, de uma maneira geral) e chegará aos nossos dias sob uma forma escolar própria, as chamadas « escolas alternativas » e de onde deriva, igualmente, toda um conjunto de correntes « psicologistas » da educação.

Esta tradição rompe, assim, com o privilégio da palavra magistral, agora compreendida como « normalizadora », « adultocêntrica », « hierárquica », « autoritária » ou « bancária », para abrir espaço para uma relação dialogal, mesmo ali onde as competências linguísticas não estão ainda estruturadas, valorizando-se toda forma de expressividade das crianças (gestuais, pictóricas, afetivas, relacionais, etc)  tornadas, todas elas… «expressivas» !

De minha parte, vejo nesta concepção de educação dialogal uma forma de romantização da infância, algo do domínio do ficcional que formulamos a respeito de nós mesmos e de nossa própria história, uma maneira de fornecer sentido e narratividade à nossa existência, mas que raramente coincide com experiências reais que teriam sido vividas concretamente da forma como a memória –afetivamente seletiva- as retém. Além do mais, como diz a professora  Jeanne-Marie Gagnebin, « numa época de desencantamento como a nossa, numa época que não consegue mais crer nem na vida depois da morte, nem no progresso histórico, nem na emancipação da sociedade, esforçamo-nos para, pelo menos, acreditar ainda na possibilidade da felicidade individual. E nisso a construção de uma infância idealizada nos ajuda: fomos, sim, crianças felizes e inocentes, e nossos filhos só podem (e devem) ser, igualmente, belos, alegres, ingênuos e despreocupados ». O psicanalista Contardo Calligaris é ainda mais severo : « delas (das crianças) esperamos que nos ofereçam a imagem de uma plenitude e de uma felicidade que não é, e nunca foi, a nossa, mas graças à qual, podemos amar a nós mesmos ».

É evidente que uma tal idealização romântica, que mais tarde irá implicar em cuidados às vezes excessivos que prolongam a infância para muito além do admissível e em torno da qual se constroem espaços sociais reservados, arquiteturas e designs específicos, indumentárias próprias e adaptadas, legislações específicas, carta de direitos, etc., não poderia impedir a esta infância, obrigatoriamente presente no espaço escolar, o uso da palavra. E assim, as pedagogias « pós-tradicionais » introduzem o diálogo como um esteio da relação pedagógica.

Mas, o que é exatamente este « diálogo »? Qual o estatuto que ele adquire nas diferentes equações pedagógicas (mas também políticas)? A sala de aula é já um lugar de diálogo (e entre que dialogantes?), quero dizer, o diálogo já dispõe de uma legitimidade que antecede a entrada dos dialogantes em seu exercício? Ele exige dos dialogantes potenciais uma competência específica?  Ela –a escola- é lugar DE ou preparação PARA (o diálogo)?

Receio que aqui eu esteja pisando num terreno pantanoso e correndo o risco de fornecer munição a todo aquele que vê, precipitadamente, nestas observações a marca ideológica do conservantismo ou da regressão a uma escola autoritária e monológica.  Porém,  tenhamos o cuidado de não confundir diálogo com simples « bate-papo » e, ademais, guardemos no espírito o fato de que qualquer que seja a forma da « democracia » interna à sala de aula, ela tem alcance bastante limitado e raramente atinge o coração de decisões institucionais ou propriamente políticas. O professor da Universidade de Franche-Comté, Alain Mougniotte, observa que « quando os teóricos da cooperativa escolar estimam que a experiência da discussão na sala de aula prepara para a discussão democrática, é pela via de uma transferência de atitudes; é ainda ao método de ‘simulação’ que se recorre como, também, se instaura os ‘delegados de classe’. Com efeito, aqui não é tratado a diversidade de regimes. O efeito esperado é indireto e a iniciação à política, entendida como objeto cultural autônomo e específico, é omitida». Assim, antes de aceitarmos o « diálogo » como algo já dado e que praticamente « precede » uma relação pedagógica democrática seria, ao menos, razoável tentar definir o estatuto que lhe é atribuído no interior de concepções filosóficas e pedagógicas preocupadas com a formação da opinião crítica e com a construção de espaços sociais mediados pela palavra, e veremos que, ali onde pretendemos estabelecer consenso e harmonias através do diálogo, nos deparamos já de saída com um conceito de « diálogo » que não é, ele próprio, consensual !

 

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Flávio Brayner é Cidadão Pernambucano, Mestre em História pela UFPE, Doutor em Educação e Pós doutor em Filosofia pela Sorbonne (FRA), Professor Titular Emérito da UFPE e ex-secretário adjunto de educação do Recife (2009-2010).



 

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