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Opinião

Sobre o “diálogo” na educação — Parte 2

Por: SIDNEY NICÉAS
Flávio Brayner compartilha a segunda parte de seu ensaio continuando a falar sobre a importância e o significado do diálogo na educação.

Foto: Aidan McGloin/Unsplash

04/10/2023
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*por Flávio Brayner

Diálogo e política em Sócrates/Arendt

Seguramente, o modelo arendtiano do “diálogo” é aquele instaurado por Sócrates, filósofo em quem, -não custa repetir- pensamento e cidadania, ou um pensamento que se exerce no meio dos homens, encontravam perfeita solidariedade. Mas afirmar que o diálogo é uma atividade política coloca alguns problemas: a maiêutica socrática não é a exteriorização do pensamento, processo que Arendt define como fundamentalmente solitário e, portanto, oposto à ação? Além do mais, o diálogo não é uma experiência que se faz a dois, enquanto que a política supõe a pluralidade? 

O diálogo como comunicação a dois não tem nada de político: é uma experiência da intimidade; estar a dois é muito diferente de estar a muitos e a língua grega distingue o dual (unidade do que é dois) do plural. O diálogo socrático tem um alcance político porque ele representa uma forma muito particular e codificada do diálogo. Podemos dizer que o diálogo socrático é político porque ele não se define, imediatamente, como comunicação e que não tem lugar apenas entre duas pessoas. O prefixo « dia » de diálogo não indica dualidade, mas a ideia de « travessia ». Os diálogos são políticos na medida em que eles se dão na praça pública, entre muitos e em função da divisão dos « papéis » que cada um assume : o diálogo supõe uma partilha regulada de papéis e da palavra onde cada um tem uma posição definida a priori. Salvo exceção, é sempre Sócrates que interroga; e ele se recusa sempre a responder às questões que coloca. O diálogo socrático não tem, portanto, nada de uma « troca »: se ele questiona é para testar as opiniões (doxai) de seus interlocutores. Não se pode falar, aqui de uma verdadeira « comunicação », como fazemos comumente nos atos educativos.

No entanto, o diálogo tem uma função política por causa do espaço em que se exerce: não na esfera privada e íntima da família mas na « praça do mercado ». Ele se opõe, logo, à «conversa » que Arendt define como «um fenômeno da intimidade onde almas individuais falam delas mesmas». O objeto do diálogo socrático não é nem Tu nem Eu, mas o mundo que nos cerca e que está entre nós. Assim, o diálogo em Arendt é a “travessia de algo pela palavra” e a palavra travessia, com o que ela implica de continuidade e de constância, se opõe à liberdade de uma conversa. E, seguramente, este diálogo socrático-arendtiano tem suas exigências que ela trata de definir no seu Homens em tempos sombrios: «A esplêndida exatidão da escuta, a constante disposição a se explicar, a paciência de insistir sobre a questão debatida; e ainda mais a capacidade de atrair para o espaço do diálogo aquilo que estamos inclinados a calar, e de fazer disto algo que mereça que se fale, e deste modo, de transformar, de alargar, de afiar tudo na palavra e na escuta » (Arendt).

Por último, há sempre espectadores nos diálogos de Sócrates que podem também tomar a palavra. Na linguagem arendtiana o espectador é sempre e ao mesmo tempo um juíz. Quando Sócrates interroga, quando alguém lhe responde para manifestar o que lhe parece, todos os espectadores que estão presentes aprendem a ver o mundo a partir do ponto de vista de um outro, adquirem uma « mentalidade alargada » que permite  julgar, função política por excelência. O papel de Sócrates é o de desvelar a “doxa”, não de ultrapassá-la para substituí-la pela Verdade (Platão), mas de formular sua opinião e assumí-la.

Em “Verdade e Política” Arendt mostra que há um limite para a liberdade de opinião (coisa que nos falta no uso irresponsável das redes sociais!) e portanto para o debate político. E este limite é o reconhecimento dos fatos. Mas isto não tem nada a ver com um possível resíduo positivista, para quem o « Fato » representaria a « última palavra » e contra o qual « não há argumentos ». Longe disso, para Arendt negar os fatos -porque eles se opõem a interesses pessoais- não é uma opinião, mas uma mentira, e aqui deixamos o mundo da política pelo da violência. Fatos insofismáveis e demonstráveis não são do domínio da política, mas das ciências ou das matemáticas. Na política lidamos com fatos vistos por « alguém », segundo seu « ponto de vista », no sentido mais preciso e simples deste termo: ali onde cada um enxerga o mundo comum.

Mas a virtude política por excelência é a de ver o mundo segundo o ponto de vista dos outros: “Esta espécie de compreensão, ver o mundo, como nós o dizemos trivialmente hoje, do ponto de vista do outro é a intuição política por excelência; se devêssemos definir a virtude política mais eminente do homem político, nós diríamos que ela consiste na compreensão do maior número e da maior variedade de realidades ». A liberdade de palavra que permite a Ágora não pode ser compreendida sob o modo individualista da liberdade de expressão: não é o direito de expressar seu ponto de vista sem levar em consideração o dos outros. O que significa, simplesmente, como diz Catherine Vallée, que “a soma dos monólogos jamais produziu um diálogo”.

Finalmente, mesmo se o diálogo comporta um elemento agonístico, ele representa a conquista de igualdade (ou em termos arendtianos, a amizade), que é o objetivo último de uma sociedade política.

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Flávio Brayner é Cidadão Pernambucano, Mestre em História pela UFPE, Doutor em Educação e Pós doutor em Filosofia pela Sorbonne (FRA), Professor Titular Emérito da UFPE e ex-secretário adjunto de educação do Recife (2009-2010).

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