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Literatura

Soluções capilares

Por: SIDNEY NICÉAS
O barbeiro-poeta Zé Amorim vem ao Tesão mais uma vez com seus textos bem humorados e ácidos, agora falando sobre os calvos.

Foto: engin akyurt/Unsplash

20/10/2023
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*Por Zé Amorim

Esta crônica é dedicada a você, homem em crise capilaresca, cansado das adjetivações à respeito de sua calva: Canal do Panamá, franciscano, Buda, fundo de piscina, cabeça de roll-on, claraboia, romântico do cinema (sempre com duas entradas!) e cabecinha de motel: entrada, saída e lá atrás tá foda. Eu sei o quão é complicado, a cada ano que passa, fazer um novo Plano Diretor — cada vez com um recuo maior — exigindo o máximo de técnica do barbeiro.

Gostaria de dizer que há soluções paliativas para o seu problema, algumas mais baratas, outras mais dispendiosas. Você poderia fazer uso de medicamentos, mas, dependendo do caso, ainda teria de fazer o papel de técnico e continuar convocando os laterais para o meio de campo, o que nem sempre faz com que seu time vença, além de correr o risco de ser pego no antidoping com Minoxidil e Finasterida. Quanto a boatos sobre impotência causada por esses remédios, relaxe. Você ainda continuará jogador, só que em vez de beijar o gramado para entrar em campo, ficará apenas com a primeira parte.

Outra opção seria uma prótese capilar, que é um nome bonito para uma peruca colada. Esteticamente, algumas ficam melhores que o implante, custam uns 2.000 reais, a aplicação leva em torno de 3 horas e duram de 6 meses a 1 ano, lavando a cabeça duas vezes por semana. Além de se sentir um europeu, você se sentirá um personagem do Bastardos Inglórios, pois será escalpelado quinzenalmente para fazer a manutenção e higienização, o que vai mais uma grana se pensarmos a longo prazo.

Por último, há o implante capilar que, sejamos sinceros, evoluiu na técnica e hoje não há mais aquela cicatriz horrível contornando a cabeça de fora a fora, o que dava um trabalho danado para o barbeiro, uma vez que não podia expô-la. Ouvi dizer que na cirurgia moderna se tira um fio e pulam seis e seguem assim sucessivamente pelas laterais e nuca. Segundo relatos, o paciente fica dolorido por uns dias e o pior é ter de dormir sentado as primeiras noites. Então, se fizer a cirurgia na Turquia, lembre-se de voltar de segunda classe. Vale ressaltar que o implante não é 100% e com a lei da “grave idade” sua calvície poderá expandir.

Semana passada atendi um cliente implantado, pagou 13 parcelas de mil reais para fazer não o telhado inteiro, mas apenas o toldo — dois dedos horizontais no início da testa. Ele veio para o primeiro corte após a cirurgia: raspar o cabelo para deixar uniforme, pois a muda implantada espiga e cai para, só então, vingar. Sabe qual foi a observação que as pessoas fizeram ao vê-lo? “Você fica bem de cabeça raspada”! 

Em uma entrevista, Guti Fraga contou que precisou raspar a cabeça para fazer o clipe “O salto”, da banda O Rappa. E, ao se olhar no espelho, pensou: “Achei a minha identidade, só vou andar assim agora”. Talvez se ele não fosse ator, jamais fizesse tal corte. Fica a dica: raspe a cabeça e faça um teste, quem sabe você não encontra a sua identidade? Eu encontrei a minha, e quando faz frio é só fazer uso do chá, do chapéu!


 

 

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

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