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Literatura

Tocar, retocar e encantar

Por: SIDNEY NICÉAS
De volta ao Tesão, Zé Amorim traz mais uma de suas crônicas bem humoradas, agora falando sobre sobre música.

Foto: Unsplash

09/12/2023
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*Por Zé Amorim

Um cliente, que eu já atendo há um ano, quis mudar o visual e ficar uma década mais novo: resolveu tirar a barba toda. Assim que comecei a raspagem com a máquina, percebi que havia uma mancha no lado esquerdo do maxilar e já o avisei, pois na hora de escanhoar com a navalha poderia estar sensível aquela região que, apesar de não arroxeada, dava a impressão de que se recuperava de algum impacto.

O Victor me disse para ficar tranquilo, pois a mancha nada mais era que um calo de violino. Ainda que eu ache o violino um instrumento com um som lindo, sempre tive a impressão de que seria desconfortável de tocar aquele treco e que teria uma torcicolo vitalícia. Coincidentemente, um dia antes de atendê-lo, a Izaura apareceu com um violino para tocar os parabéns para nosso vizinho de loja. Obviamente que depois da apresentação pedi para me aventurar, ela me passou o instrumento e o arco, não a vara (rs). Brinquei um pouquinho e inferi que aquele gato miante de madeira exige leveza e elegância, duas coisas que não combinam comigo, por isso escolhi as palavras. Como disse José Paulo Paes, os brinquedos “de tanto brincar se gastam. As palavras não: quanto mais se brinca com elas, mais novas elas ficam”.

O violão é, sem dúvida, o instrumento que simboliza a boemia, mas só o violinista tem o instrumento como álibi: pois qualquer chupão no pescoço pode por a culpa no violino. Continuando com as marcas de uso, me veio a teoria das 10 mil horas. Dizem que uma pessoa começa a fazer algo com um nível de mínimo de excelência a partir dessa carga horária. Que o meu cliente tem um nível de excelência é evidente, do contrário não tocaria na Camerata. Agora, quantas mil horas são preciso para que o violino imprima sua digital na face do instrumentista? Essa resposta as formigas jamais saberão, somente as cigarras. 

Por falar em música clássica, me lembrei de um vizinho que tive em 2012. Quando o vi chegar com o pinho, perguntei o que tocava, e ele me disse que era professor de Violão na UDESC. A princípio não dei muita importância, até porque, na universidade, conheci professores de Literatura que eram péssimos poetas. Passou-se um mês e Jorge, morador de outro bloco, me disse que eu era um privilegiado e que o meu atual vizinho era violonista foda. Ao pesquisar seu nome, vi que ele não era foda, e sim fodástico, e possuía um currículo cheio de honrarias.

Luiz Mantovani foi meu vizinho durante um ano e, frequentemente, eu o ouvia executando violão, baixinho e comedido, nos caprichos de um virtuose. Isso que naquele período estava tocando pouco, pois, segundo ele, o cargo de coordenador do curso o consumia muito. De todo modo, foi a época em que mais escutei música clássica em toda minha vida, praticamente um concerto por dia. Inclusive, ouvi o ensaio com o Brazilian Guitar Quartet, grupo com que ganhou o Grammy Latino, em 2011, com melhor álbum de música clássica. Saudades do camarote da minha sacada.

Uma vez Marcel Powell contou que ao pedir ao seu pai para lhe ensinar a tocar violão, Baden lhe alertou que teria que virar escravo do instrumento. Marcel assim o fez.

 

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

 

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

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