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Literatura

“Tudo é Rio não foi uma decisão; foi um acontecimento”

Por: SIDNEY NICÉAS
A escritora mineira Carla Madeira conversou com Ricardo Mituti em entrevista especial para o Tesão Literário

Foto: Reprodução/Versatille/Arte Tesão Literario

06/08/2023
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*Por Ricardo Mituti

Um livro que nasceu como exercício de linguagem, foi abandonado pela autora por 14 anos e se tornou um dos mais bem-sucedidos best-sellers do mercado editorial brasileiro neste século. Esta é a síntese de “Tudo é Rio”, obra da estreia da escritora mineira Carla Madeira publicada originalmente em 2014 e que já vendeu mais de 200 mil exemplares.

O estrondoso sucesso da obra, na opinião da autora, tem uma explicação bastante simples: enquanto o escrevia, Carla não tinha expectativas: “O que aconteceu com esse livro nunca foi objeto da minha preocupação. Eu não tinha expectativas em relação a se faria sucesso, se seria publicado, se não seria publicado”.

Ainda que atualmente o título faça parte do catálogo do Grupo Editorial Record, “Tudo é Rio” foi lançado pela editora mineira Quixote+Do, selo pelo qual teve seis edições e vendeu 10 mil exemplares. “Meu primeiro editor, Alencar Perdigão, falou uma coisa quando foi feita a primeira edição: que na experiência dele de livreiro, ele nunca tinha visto acontecer o que aconteceu com ‘Tudo é Rio’. Ele falou: ‘Eu indico. As pessoas sentem a necessidade de voltar aqui na livraria para me agradecer. E praticamente todas compram um outro livro porque querem dá-lo para alguém”, revela Carla Madeira.

O segundo romance da autora chegou em 2018: “A Natureza da Mordida” também foi publicado pela Quixote, com duas edições esgotadas, até ter os direitos adquiridos pela Record, que o relançou em 22. Um ano antes, porém, já pela Record, Carla publicou “Véspera”.

Ex-aluna do curso de Matemática, a jornalista e publicitária Carla Madeira, sócia-proprietária e diretora de criação de uma agência de comunicação de Belo Horizonte, esteve no fim de julho em Gonçalves (MG), onde participou da segunda edição do Viva Livros, uma experiência literária intimista idealizada e mediada por mim.

Selecionei alguns trechos do bate-papo com os participantes para este Tesão Literário. Confira abaixo.

 

TESÃO LITERÁRIO- Como a literatura entrou na sua vida?

CARLA MADEIRA- Eu me aproximei da palavra com a música. Muito nova eu ganhei um violão. Toquei violão até vinte e poucos anos e compunha. Minha fissura era comprar disco novo, vinil, e ficava louca com os encartes, acompanhando a música. Então eu tenho uma influência profunda de encantamento com a MPB. Mas quem mais me enlouquecia com as letras era a Rita Lee. Ficava louca com aquela liberdade. Depois, fui notando que o que mais mexe comigo é perceber a liberdade que eu percebia na Rita [Lee], que também percebi na Emília de Monteiro Lobato, na Alice no País das Maravilhas do Lewis Carroll, que percebi em Guimarães [Rosa], aquela liberdade de inventar uma língua, de inventar aquela sonoridade, de ir fundo naquela complexidade, na Clarice [Lispector] em “A Hora da Estrela”, em Victor Hugo, cuja textura me encanta. Mas eu me tornei uma leitora muito diferente depois que me tornei uma escritora. Hoje tenho uma relação com a literatura que não me deixa escapar de uma observação estrutural, de recursos, de linguagem.  

TL- Como você recebeu o sucesso de “Tudo é Rio” logo em sua estreia na literatura?

CM- O primeiro livro não foi uma decisão. Não decidi: “vou escrever um livro”. Foi, realmente, um acontecimento, foi acontecendo. Inclusive, da minha parte, sem nenhuma obrigação de fazer aquilo. Comecei muito mais num exercício de linguagem, numa experimentação, numa continuidade de um jeito meu de estar no mundo. Porque desde nova eu sempre fui muito interessada em linguagens artísticas, e eu então, já sendo publicitária, diretora de criação, trabalhando muito com redação, com textos publicitários, senti vontade de começar a escrever, muito mais para experimentar, para ficar brincando, ali, com as palavras.

TL- E nesse processo de experimentação, a primeira versão de “Tudo é Rio” era a mesma que chegou aos leitores?

CM- Era uma outra história. Começava de outro lugar. Começava da história das Marias e Francisca, e eu estava gostando da experiência. E num romance você precisa se afastar um pouco do tema central, porque senão vira um conto; você conta rapidamente aquilo. Para que aquilo tenha estatura de romance, você precisa se afastar, mas precisa se afastar de uma maneira que ao voltar ao tema central você valorizou esse tema, criou alguma coisa de expectativa para esse tema. Então eu comecei a história de Lucy, muito como um afastamento da história das Marias. Eu imaginava uma coisa que não era nada do que acabou acontecendo depois. E quando fiz esse afastamento, escrevi a cena do Venâncio com o filho, e aquilo me chocou de uma certa maneira. Eu não consegui continuar a escrever. Tive uma reação de defesa, eu acho. Larguei o livro. Propus uma situação que eu não tinha, talvez, maturidade. Eu não era mãe, ainda, não sabia resolver aquilo. Aí eu abandonei esse livro, abandonei isso que era alguma coisa que eu não sabia se seria um livro, e fiquei, então, 14 anos sem tocar naquilo ali, mas sempre lembrando. Digo que eu parei de escrever, mas história não parou de ser escrita. Quer dizer, ela me paralisou, me afetou muito, ela foi num lugar que de alguma maneira eu precisava encaminhar. 

TL- E o que te motivou a voltar ao manuscrito 14 anos depois?

CM- Eu tenho pensado muito em retrospecto porque voltei a escrever esse livro. Eu estive no Festival de Cannes pela publicidade. E de repente, num dos eventos onde o grande auditório estava mais lotado, entrou uma moça, vestida quase igual a uma Macabéa, [personagem] da Clarice [Lispector em “A Hora da Estrela”], cabelinho anelado, muito simples, um microfone, e eu não vi, lá, nenhuma experiência parecida com a que a gente viveu com essa moça. Era um foco de luz sobre ela, só ela, e ela era uma poeta. E ela contou uma história. Ninguém nem respirava. Ficou todo mundo tão conectado, e para mim aquilo teve um sentido muito profundo do que é uma conexão. Você pode ter mil ferramentas, mas essa conexão é, de certa forma, mágica, e é o que nos interessa. Então nesse dia eu entendi a força de uma história bem contada, a força da poesia e a força de uma mulher. Então acho que essa experiência me deu vontade de retomar o texto. E aí eu retomei o texto, em oito meses eu o terminei, eliminei tudo o que vinha antes e publiquei. 

TL- E quais eram suas expectativas naquele momento?

CM- Quando lancei o livro, eu já tinha ganho a experiência de escrever, e não tem nada parecido para mim com a experiência de ter escrito esse livro. Foi muito bom, muito intenso. Então o que aconteceu com esse livro depois nunca foi objeto da minha preocupação e nem da minha expectativa. Eu não tinha expectativas em relação a se faria sucesso, se seria publicado, se não seria publicado. Essa publicação eu fiz em coparticipação, foi meio independente. Eu paguei a edição, eu fiz o projeto editorial, fiz a capa, fiz tudo dentro da minha empresa e publiquei o livro. Fizemos uma tiragem de 700 exemplares e eu ainda brinquei. Disse: “Vou fazer 700. Não vou fazer mil porque senão vou ter que ficar panfletando livros. Vai que ninguém quer o livro?” (risos). Mas aí, já na primeira tiragem, mesmo que num universo limitado de 700 cópias, o livro foi sinalizando a força dele no leitor. Porque depois que eu entrego o livro, ele não é mais meu e eu não tenho a menor ideia do que vai acontecer com ele: se as pessoas vão gostar, não vão gostar, se vai fazer sentido, se não vai fazer, se ele vai encalhar, se vai vender. Minha experiência tem que dar conta da minha parte. Eu digo que a minha recompensa é escrever. Depois que você lança, é o leitor que faz acontecer. E é maravilhoso quando acontece; é uma segunda experiência maravilhosa, porque você vê aquilo batendo nas pessoas, vê cada um reescrevendo a história do lugar que está. Porque o leitor, ao ler, não ouve só o escritor; ele ouve todas as suas vozes, todas as vozes que fizeram ele ser o que é. Então ele, de uma certa maneira, reescreve o livro.

TL- E como você lida com essas “versões” reescritas pelo seu público?

CM- Eu tenho, às vezes, tido experiências com clubes de leitura, de encontros com o leitor, e é impressionante. Tem coisas que um leitor percebe, tem coisas que outro não percebe, aquilo que um ama é o que o outro odeia. É de uma riqueza realmente muito grande, muito especial. Mas a partir daí, o livro só fez acontecer para o leitor. E o meu primeiro editor, que se chama Alencar Perdigão, que é da Quixote [Quixote+Do, editora mineira que publicou originalmente “Tudo é Rio” e “A Natureza da Mordida”], ele falou uma coisa quando foi feita a primeira edição: que na experiência de livreiro, ele nunca tinha visto acontecer o que aconteceu com “Tudo é Rio”. Ele falou: “Eu indico. As pessoas sentem a necessidade de voltar aqui na livraria para me agradecer. E praticamente todas compram um outro livro porque elas querem dá-lo para alguém”. Ou seja, um desejo de conversar sobre isso e de ter alguém que passe pela experiência que ela passou. Então eu acho que esse sucesso é super bem-vindo, superquerido, supermaravilhoso, ele é uma parte fundamental, mas eu não tinha expectativa sobre isso. E eu vivo tudo isso com muita tranquilidade, porque já escrevi dois outros livros e sei que o sucesso de um livro não faz nada pelo próximo. Nada! (risos) Toda vez que eu começo a escrever um livro eu sei que estou exatamente no começo de um livro e que tudo isso está valendo.

TL- “A Natureza da Mordida”, seu segundo livro, passou por todos esses mesmos processos?

CM- Eu tinha o desejo de experimentar outra linguagem. Queria a experiência de novo; a experiência de estar inteira, de estar envolvida. Falei: “Não quero uma linguagem poética como a de “Tudo é Rio”. Eu já falei algumas vezes que queria escrever um livro que ninguém quisesse grifar nada, e mesmo assim você não quisesse soltá-lo (risos). Aí algumas pessoas falam: “Carla, você não conseguiu”. Também experimentei, pela primeira vez nesse segundo livro, o narrador em primeira pessoa, que é a [personagem] Biá, que conta algumas questões dela e da história a partir das anotações dela. Ela é uma psicanalista, então as anotações dela são atravessadas por uma linguagem da psicanálise ou por uma observação de uma maneira que foi desafiadora para mim, porque não era uma coisa tão intuitiva. Foi uma coisa mais trabalhosa e mais arriscada. Eu podia fazer uma grande bobagem ali. Já a Olívia é uma jornalista, e eu sou uma jornalista também. Então eu tinha um pouco mais de facilidade para compensar no texto de uma pessoa que fala do lugar de jornalista, um texto menos adjetivado, mais objetivo. Ela tem uma narrativa muito objetiva mesmo, conta sem muita interpretação, é mais ágil. Mas eu estava num lugar pouco confortável para mim por ter uma personagem demenciando, mais idosa. Era tudo que exigia muita curiosidade e imaginação, porque não é a minha experiência. E aí é isso que faz o autor poder falar sobre qualquer coisa se ele for capaz de imaginar e se tiver curiosidade suficiente para fazer essa imaginação ser realmente consistente naquele lugar do qual está querendo falar.

TL- Diante desse desafio narrativo, o resultado de “A Natureza da Mordida” te agradou?

CM- Já mais madura como escritora, depois de terminar “Véspera”, antes de lançar [“A Natureza da Mordida”] eu fiz uma leitura e sentia um artificialismo em alguns momentos que me incomodavam. Foi muito desafiador aquele começo de “A Natureza”, porque eu queria fazer o leitor passar por uma experiência e experimentar, nem que fosse um pouquinho, sensorialmente, o lugar de alguém que está demenciando, que está com alguns buracos das circunstâncias, que está diante da consequência, mas não tem as circunstâncias mais. E eu queria provocar um pouco disso no leitor, e tinha que ter uma dosagem certa. Acho que na primeira edição eu não sentia essa transferência, porque acontece um processo de análise n’“A Natureza”, acontece um processo de escuta daquelas duas mulheres, e eu não sentia que tinha sabido fazer uma transferência, alguma coisa mais afetiva ali no início, que tornasse o voyeurismo daquele encontro alguma coisa que pusesse o leitor também naquela jornada. Então eu reescrevi. Reescrevi, mudei muito pouco, mas hoje eu vejo, na interação com os leitores, a quantidade de mensagens que recebo, vejo justamente os grifos das coisas essenciais que eu mudei. É o que mais aparece.

TL- “Véspera” também pediu essas revisões?

CM- “Véspera” eu lancei tem pouco tempo. Não fiz revisão, mas acho que não farei, porque é o meu livro mais maduro literariamente falando.

TL- Seus três romances, embora distintos, abordam a temática da complexidade das relações humanas. De onde vem a preferência por essa questão?

CM- Eu tenho muita compaixão pela condição humana. Então às vezes, um acontecimento brutal, para além de toda a empatia e respeito que eu tenho com as vítimas, tenho uma dor pelo sujeito que fere, pelo sujeito que de repente está diante de um triz, de uma coisa que ele não deu conta, de transformar numa possibilidade, de ser uma pessoa onde as potências positivas, de alguma maneira, são maiores do que as negativas. Esse equilíbrio entre o bem e o mal me interessa; eu tenho curiosidade com isso. E a gente tem que olhar para essa pessoa e pensar o que nós, enquanto humanos, estamos fazendo que torna possível que pessoas ajam dessa maneira. Também sou muito atravessada na minha obra pela questão da família, da religiosidade e da sexualidade – esta última, tão fundamental para a humanidade.

TL- E quanto aos temas mais sensíveis abordados por sua obra, há uma intencionalidade sua tendo em vista um possível legado reflexivo para seu público leitor?

CM- Eu não tenho nenhuma relação com essa ideia do outro quando estou escrevendo. Não penso em legado, não penso em recado, não penso em posicionamento político, não penso se vai agradar ou desagradar. E isso é para mim, hoje, a situação mais desafiadora: manter o leitor longe do processo de criação. É lógico que eu quero o leitor. Mas, no processo criativo, você não pode ficar levando isso com você, e acho que os livros que tentam esse recado político, posicionamento, cartilha de conduta, para mim não funcionam como literatura. Podem funcionar como outra coisa. Então eu não escrevo para ajudar tantas pessoas ou para que as pessoas leiam e iluminem um território; eu escrevo pela curiosidade do acontecimento, eu puxo o fio do acontecimento. E naturalmente eu imagino que essas questões estejam lá porque estão comigo. Elas me afetam.

TL- Você começa a escrever já sabendo aonde quer chegar ou o texto vai ganhando forma durante seu processo de escrita?

CM- Vai ganhando forma. Imagine uma montanha preta, completamente escura. E tem umas pequenas tochas. São alguns pontos da história que eu sei que eu quero que aconteça. 

TL- Como você lida com as expectativas do mercado em torno de sua produção para que sua liberdade criativa não seja tolhida, tampouco você repita fórmulas?

CM- Meu interesse pela literatura está muito fortemente no processo criativo. É o que eu gosto de fazer, o meu jeito de estar no mundo. A hora em que estou escrevendo é a hora em que estou me divertindo. Quando eu fiz “Tudo é Rio”, a experiência foi intensa, uma loucura, muito visceral. Foram oito meses escrevendo. E eu já tinha essas experiências com outras linguagens. Eu tinha experiência de palco, porque cantei, uma época. Tinha essa experiência com pintura – quando eu estava escrevendo “A Natureza”, fiz 40 quadros; eu me afastava da obra pintando. Sempre tive esse gosto. Então, quando terminei “Tudo é Rio”, e que eu até achava que não escreveria outro livro, pois havia posto tudo ali, naquele livro, logo senti uma história querendo vir. Comecei a fazer umas anotações e a escrever “A Natureza [da Mordida”] muito pouco tempo depois que publiquei “Tudo é Rio”. Tinha para mim que queria viver novamente a intensidade do processo. Queria um processo que me colocasse de novo na inteireza que eu acho que a criação me faz sentir. É como se tivesse um alinhamento total de todas as minhas camadas física, energética, alma e tudo o que a gente puder acreditar que exista numa pessoa. Eu queria repetir essa experiência, tinha esse desejo. E não queria repetir a linguagem de “Tudo é Rio”, porque, para mim, interessa a experimentação. Na hora em que não tiver experimentação, talvez não me interesse escrever. Experimentar, correr todos os riscos, me interessa. E me interessa deixar o leitor do lado de fora. Eu vou virar as costas para o leitor nessa hora. Para o leitor, para a ideia de que posso ser cancelada, não posso ser cancelada. Sabe por quê? Porque se o livro não me der essa qualidade do processo criativo, eu não tenho mais motivo nenhum para escrever. Porque eu não quero mandar recado. Não tenho mais motivo para escrever se o livro não me der esses momentos. Se eu não experimentar, para mim, não faz sentido eu fazer. Hoje eu sei que se eu lançar um livro, tem muita gente esperando por ele. E as pessoas vão ler, e a crítica vai ler, e isso não tem mais jeito; não está mais no meu controle. Isso vai acontecer. Existe uma expectativa do que eu fizer daqui para a frente. Eu, outro dia, disse numa entrevista: “Acho que ‘Tudo é Rio’ só foi o que é porque eu não tinha expectativa, porque eu não sabia disso. Eu tinha a coragem dos ingênuos, a coragem da inexperiência”. O que “Tudo é Rio” me deu, que foi a intensidade da experiência, também é uma coisa que agora eu tenho. Então o que pode compensar o meu medo de experimentar, hoje, por já ser experiente e saber onde eu posso apanhar da crítica, do leitor, eu já não deixo entrar porque eu já tenho a experiência da intensidade, de não deixar entrar. E essa experiência é muito física.

TL- Física como?

CM- Eu de fato tenho uma relação com o corpo muito forte quando estou escrevendo. Eu salivo, na hora que eu acho uma coisa meu marido diz que eu fico muito alegre (risos). Acontece uma coisa no meu corpo que é alinhamento, aquele instante em que você está onde de fato está. Ali eu estou inteira, ali eu sou. Então eu conto com esse corpo para que ele não me traia e que eu não faça concessões.

TL- Suas personagens femininas são muito fortes, mas, de alguma forma, sofrem algum tipo de violência. Como se deu o processo criativo dessas figuras e das situações sensíveis às quais elas são submetidas

CM- O processo criativo é fragmentado, e comigo ele não obedece a uma ordem, porque eu não parto de um tema. Tem escritor que fala assim: “Eu vou escrever um livro sobre violência feminina”, e então ele vai pensar em todas as questões. Mas ele corre mais risco do que eu de ser panfletário, porque ele está ali escrevendo sobre aquilo. Já eu quero escrever sobre a Dalva, sobre o Venâncio [personagens de “Tudo é Rio”]. Então eu olho para aquela personagem que fez alguma coisa, algum acontecimento, e é dali que vou tentar entender como caminha depois do acontecimento e o que vem antes do acontecimento. Nesse sentido, hoje percebo em retrospecto que toquei em questões de gênero, de violência da mulher, na romantização da maternidade, mas em momento nenhum isso foi uma decisão, e por isso não é panfletário. E eu tenho clareza que sou uma autora de ficção; eu não faço autoficção, que é a grande literatura contemporânea hoje. Talvez eu seja até uma autora um pouco anacrônica, porque o tempo é de fazer autoficção. As pessoas estão falando de si. Por isso, a quantidade de inconsciente que vai para os meus livros é enorme, porque estou botando duas forças para funcionar: imaginação e curiosidade. Eu só consigo imaginar aquilo que é possível que eu imagine.

TL- Você já está escrevendo seu próximo livro?

CM- Eu agora estou tentando escrever o quarto livro. Estou naquele processo inicial. Já desde o ano passado que comecei, abri o arquivo, mas estou com muitas questões na vida, e dando conta de muitas coisas, não tenho conseguido uma disciplina. Há uns dias era uma coisa que não estava acontecendo, mas aí começou. E tem a ver com achar. Eu já tinha várias coisas escritas, mas ainda não tinha achado o começo do livro. E agora achei. Posso até não acabar, mas achei o começo (risos). E eu não queria ter começado a escrevê-lo. Queria realmente esperar para ler, ficar com a cabeça mais vazia, mas vivi uma sequência de perdas muito pesada e precisei começar a escrever acho que para dar conta. Nem estou escrevendo sobre isso, mas para dar conta de encaminhar alguma coisa dentro de mim, e a literatura faz isso. Eu tenho muito prazer em escrever. É terapêutico.


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