Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Cultura

Um tesouro remonta ao modo recifense gentil

Por: SIDNEY NICÉAS
Geórgia Alves, num texto sobre a comunidade do Pilar, no Recife, nos faz admirar e buscar riquezas e conhecimento onde os olhos não alcançam.

Foto: Reprodução/oxerecife.com.br

23/03/2022
    Compartilhe:

*por Geórgia Alves

 

Recentemente, aos 485 anos de Recife, a comunidade do Pilar, que sempre surpreende, deu mais um presente ao recifense. Emitindo sinais de pós-modernidade para o mundo revelou dos maiores tesouros arqueológicos em solo urbano, algo comparável a poucos na história das capitais. 

A comunidade do Pilar, que em tempos remotos já impressionava pela capacidade de luta enquanto resistência às adversidades, mostrou outro lado que, de fato, deve estar relacionado a um passado bélico. Ainda que desperte nosso senso crítico, o modo elaborado no sepultamento de corpos dos gentis expressa como um código post mortem pode nos aproximar ou distanciar. 

Por que este apuro e refinamento tanto incomodam? Salvo conduto da dúvida naquilo o que prezamos ver de modo apenas pacifista, sem mais lenhas nas fogueiras culturais, mais pelo afeto do que plasticistas.

Faz tempo tal região conhecida como Cais da Lingueta, abriga no istmo – faixa de terra que poderia também ser chamada “ilhota”, sendo das partes mais afastada no mapa da cidade – as pistas da vida vivida naquele extremo de terra limítrofe ao oceano nos irmos do século XVII.

Desperta encantamento saber que os que viveram ali se dispuseram em luta, solenemente preparados para a morte de modo ritualístico. Num gesto que congrega, em certa medida, solenidade e vaidade, seus restos mortais são entregues enquanto parte a ser fundida ao solo.

Como seus restos mortais também pertencentes ao barro amalgamaram aos grãos de terra, não se pode chamar “sepultamento". Não tão somente. Confesso, humanamente, que vi na conservação dos ossos uma extrema beleza. Diante da falta.de respeito e qualquer cerimônia com a morte experimentados durante a fase mais aguda da Pandemia de Covid, o respeito, ainda que inócuo perto da pulsão vida, soa gentileza.

O Recife – aqui referindo ao bairro de mesmo nome da cidade – bem se sabe ser dos maiores sítios históricos do Brasil. É aqui não apenas a primeira Sinagoga das Américas – a Kahal Zur Israel –, também detém o primeiro Museu a céu aberto de uma capital. E em virtude deste local conhecido por Comunidade do Pilar, abrigará novo formato de Museu. 

De modo ordenado foram encontrados cento e dez esqueletos, além de centenas de vestígios da vida dos gentios – parte não apenas dos povos estrangeiros que lutaram por este território. Naquele solo arenoso, grãos de areia e a porosidade dos ossos deixou arqueólogos e pesquisadores abismados com a numerosa quantidade de peças achadas no subsolo, bem diante do parque das esculturas. A observação das outras origens civilizatórias que remontam aos anos de 1600 a 1630 – informação que não é recente, mas despertou novos ímpetos de pertencimento. 

O minucioso trabalho de preservação diante destes quarenta mil artefatos, encontrados numa área próxima a uma fortaleza, abre espaços para novos estudos sob a responsabilidade de membros da comunidade acadêmica da UFRPE – Universidade Federal Rural de Pernambuco –, que se dedicarão a examinar finamente, com fidelidade científica, os hábitos e costumes daqueles povos do qual também somos algo novo.

Estudos que nos arremessarão não a pelo menos dez anos de documentação e tratativas com o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –, mas às pinturas de Albert Eckhout e outros artistas que vieram com o intuito de fundar a cidade Maurícia.

Albert van der Eckhout, nascido em Groningen, Holanda (1610 – 1666), pintor, desenhista, iniciou estudos em pintura com Gheert Roeleffs, seu tio, a serviço do conde Maurício de Nassau (1604 – 1679) e permaneceu por oito anos na Companhia de Maurício de Nassau, produziu 400 pinturas, desenhos, esboços dos povos existentes, seus hábitos, culturas, nossa fauna e flora para o Palácio de Friburgo, no Recife.

Uma das mais expressivas descobertas arqueológicas em área urbana, anuncia a atual gestão da prefeitura do Recife, “está inspirando a erguer outro museu. Pelo menos cento e dez esqueletos encontrados até agora, envolvidos em tecidos, conhecidas por mortalhas, e gentilmente acomodadas, cuidados numa forma ritualística de preservação que chega a se preocupar com a fixação das mandíbulas, de modo que, então cerradas, não expusessem ao ridículo".

Lacradas por quê, se nada após à morte parece mais necessário? Talvez, imaginemos, diga que não se possa, pois, não se poderia rir para o barqueiro da narrativa de Gil Vicente, não se pode agir senão em solenidade diante do Anjo da Morte. 

Os vestígios da história de povoação do Recife, diante do Forte São Jorge, havia então um grande povoado. E sua rotina, seu modo de ser, de viver, também seu gesto de antever o futuro do triste e solene instante vivo da morte

Quem pode aspirar o ser ou não ser de Shakespeare após a morte? Ou querer se manter intacto sob as camadas do solo e subsolo da história? Um longo trabalho de educação diante do valor de nossa riqueza cultural e naturalmente patrimonial parece aquecido pela descoberta.

--

Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

https://www.instagram.com/georgia.alves1

https://www.instagram.com/georgialves1

https://www.facebook.com/georgialves 

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook