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Opinião

Veado Assassino

Por: SIDNEY NICÉAS
Ney Anderson, do Angústia Criadora, chega ao Tesão com mais uma de suas críticas literárias, agora a respeito do livro “Veado Assassino

Foto: Reprodução/Angustiacriadora.com

11/09/2023
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*Por Ney Anderson

Em “Veado Assassino” (Cia das Letras), o novo livro de Santiago Nazarian, Renato, um adolescente não binário de Florianópolis, filho de uma professora de escola pública e um pai dono de bar (mais para boteco), ambos eleitores fanáticos do presidente de extrema direita que comanda o país, certo dia decide pegar a arma do pai escondido e matar o mandatário da nação durante um comício próximo de sua cidade.

O leitor já sabe disso logo no início da obra ao acompanhar o interrogatório do jovem, que já está preso, feito por um interlocutor misterioso. O livro, aliás, é todo em diálogos, algo inédito no trabalho de Nazarian, onde se descortinam muito do que acontece no Brasil atual. Não é demais falar que esse é um livro de leitura urgente, na esteira da urgência dos temas que são abordados.

Por incrível que pareça, o assassinato do presidente é apenas um detalhe. Ele já se tornou passado. Em pouco mais de cem páginas, os dois personagens nos apresentam uma visão de mundo mais ampla, que se afasta e se une a todo instante. A novela consegue não apenas prender o leitor, mas levantar reflexões. E ainda consegue deixar o leitor louco para saber qual o final de Renato e dessa história maluca, também saber quem é esta pessoa que o entrevista. Se em “Fé no inferno”, o livro anterior de Nazarian, o ambiente era o período pré-eleição, neste “Veado….” o presidente extremista eleito está morto depois de tanto caos. É página virada. E o que acontece após isso?

Se percebe, mas não de forma explícita e tão lógica, o que realmente está acontecendo durante a narrativa. O entrevistador está a serviço de quem? Qual a verdadeira intenção dele? A fé do jovem (que não se sabe exatamente qual é) parece encontrar aqui, enfim, o seu inferno possível. Logo ele, alguém não binário, sem definições exatas. Obviamente que a questão de gênero permeia toda a conversa, mas o veado do título (mais conhecida como rena), não é usado como um termo depreciativo/homofóbico. Foi pensado cirurgicamente pelo autor, com todo o sarcasmo, ironia e acidez própria da sua forma de escrever.

Afinal de contas, esses animais de certa graciosidade e mistério, podem matar com requintes de crueldade e frieza. Assim como Renato foi capaz de fazer, mesmo ele não sendo viril e masculino igual ao bicho. Um ato em defesa da espécie.

Renato é um adolescente igual a qualquer outro. Consome cultura pop, games, assiste filmes de terror e de super heróis, mas que sofre bullying, inclusive em casa pela família. Mesmo ele não sendo aficionado em política, comete o terrível ato. Algo que ele nunca fez nem minimamente antes. Justamente porque o presidente, segundo ele, representa (ou representava) tudo o que há de pior no país, incluindo o que mais detesta nos colegas, nos pais e na sociedade.

Nessa entrevista/interrogatório vai sendo descortinada toda a relação de Renato com família, a escola e os amigos reais e virtuais, a convivência com uma familiar trans e a discussão da própria sexualidade. É perceptível a visão conflituosa dele sobre a vida. Parece óbvio, mas o interlocutor tenta entender as reais motivações (ou outras) e o que há por trás disso tudo, se há comparsas no assassinato etc, já que tudo parece tão simples. Renato, entretanto, faz parte de uma geração sem rumo. Nada é tão simples quanto parece. Não se sabe exatamente qual foi a real situação de Renato.

Até a noção de realidade é algo questionável. Nazarian vai jogando várias migalhas ao longo dos diálogos e formando algo muito potente. Então, nada é tão linear no texto. O leitor vai tentando descobrir também o que está acontecendo de fato, como um detetive. A leitura flui e é muito rápida, bem característica da prosa do Nazarian.  Se o leitor parar antes do ponto final, corre o risco de perder o fio da narrativa.

Com pitadas de humor e ironia, “Veado Assassino” fala sobre o inferno de cada dia, com o subconsciente julgando e jogando com os sentidos dos dois personagens, tudo isso junto e misturado em uma narrativa embalada em diálogos interessantes.

O que sustenta a trama é a sensação de incompletude que Renato carrega, próprio de alguém da idade dele e da sexualidade. O interlocutor vai tentando juntar esse quebra-cabeças da mentalidade do rapaz, colocando uma opinião aqui e outra ali, que acaba se complementando com os pensamentos do garoto. “Veado Assassino” é muito mais do que apenas a história de um adolescente revoltado. É sobre o Brasil de agora, totalmente corroído, machucado e com as cicatrizes totalmente expostas.

Já no final desta novela, o tom assume outro contorno, com ares à Black mirror, mas com o toque original do autor. Nazarian comprova a sua habilidade em fazer o texto de ficção ir mais além, não apenas no que está escrito, explorando ao máximo, sutilmente, as formas narrativas que têm à disposição.

Nesse “Veado Assassino, Santiago Nazarian lança o leitor no limbo aflito das incerteza. E o pior, com um sorriso debochado e de tridente na mão.

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Ney Anderson (Recife, 1984) é jornalista e escritor, editor do site Angústia Criadora. Autor do livro “O Espetáculo da Ausência”, publicado pela Editora Patuá.

www.angustiacriadora.com 

Twitter: @ney_anderson

www.facebook.com/neyandersoncavalcante 

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