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Opinião

Vida Livresca

Por: SIDNEY NICÉAS
O poeta Zé Amorim compartilha mais uma de suas crônicas, dessa vez dando mais detalhes de sua relação com os livros e como surgiu o projeto de sua “barbearia cultural”.

Foto: Ed Robertson/Unsplash

01/12/2023
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*Por Zé Amorim

Um dos lugares em que estagiei foi em uma livraria, mas não uma livraria qualquer, era de uma editora universitária: a EdUFSC. Por ser mais focada em publicações do mundo acadêmico, posso dizer que era uma loja com um movimento bem tranquilo, o que me dava tempo de adiantar todas as minhas leituras do curso de Letras. Porém, duas vezes por ano, vinha a paga, o peso do conhecimento no sentido literal: montar e desmontar a feira de livros. Caixas e mais caixas de consignados de várias editoras universitárias, além de todo o nosso catálogo, que obviamente abundava em promoções. 

Os dois anos em que trabalhei lá foram bons demais para mim, conheci pessoas com um capital cultural alto e fiz grandes amizades. Aliás, o Sandro Livramento, que fará o prefácio deste meu livro de crônicas, era meu cliente de lá. Outra coisa que pude perceber nessa época foi a relação que algumas pessoas tinham com os livros. Nunca me esqueço de uma cliente que dizia que gostava de cheirá-los. É sério: ela abria o livro e dava uma cafungada. 

Confesso que nunca fui muito cuidadoso com os meus livros. Sempre fui mais textófilo que bibliófilo. Por isso, valorizo a marginalia com minhas anotações e risco as páginas, sublinhando os trechos importantes. Assim, faço um semi-fichamento. Grandes leitores deixaram suas impressões e apontamentos em muitas obras, o que ajudou a ampliar fortuna crítica de alguns desses autores. Uma vez, nessas minhas anotações, rabisquei a lápis uma edição de 1925: “A barba em Portugal”, de Leite de Vasconcelos. Era tão velha que a capa começou a quebrar. Por outro lado, as folhas estavam boas, foi o único livro que comprei que veio com os cadernos fechados. Quando o folheei, achei que fosse defeito, só depois me dei conta de que a tipografia daquela época era assim mesmo. Caderno — palavra que deriva do número quatro — é o nome de quatro fólios dobrados, que totalizam oito folhas dobradas, isto é, dezesseis páginas, frente e verso. Com uma antiga navalha de lâmina fixa, cortei os cadernos, dobra por dobra, e os li sucessivamente. Imaginem só: um livro de quase um século que nunca foi lido.

Quando montei a barbearia, quis fazer um projeto fora do comum e, através de empréstimo, tirar o objeto livro dos lugares canonicamente estabelecidos, como livrarias, bibliotecas e museus, possibilitando assim que pessoas não inseridas nesse universo pudessem usufruir dele e, ao mesmo tempo, atraindo clientes amantes da literatura, como os que tive outrora. Assim que comecei a divulgar o vídeo do projeto para alguns colegas, o poeta Chacal — cheio dos trocadilhos — me mandou uma mensagem: “É isso aí, Zé! FAZENDO A CABEÇA POR DENTRO E POR FORA”. Está aí um bom slogan para o projeto, pensei.

Um dia atendi um cliente novo que, do nada, me convidou para fumar um baseado. Agradeci-lhe a oferta canábica dizendo que não era adepto do capim maluco, e ele me perguntou o porquê, então, da tal frase. É porque empresto livros, respondi. Ele quis levar um exemplar; certifiquei-me, antes, se as folhas não eram de seda. 

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

 

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

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