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Opinião

Vinícius e a barbearia

Por: SIDNEY NICÉAS
Zé Amorim chega no Tesão com uma crônica sobre Vinícius de Moraes, e mais, sobre sua crítica às barbearias.

Foto: Sinval Carvalho/Unsplash

15/09/2023
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*Por Zé Amorim

Vinicius de Moraes era um homem d’altri tempi, um escritor que teve várias fases, várias faces e várias paixões, como exalta a biografia escrita por José Castelo. Poeta do copo, dos corpos e da amizade. Foi crítico de cinema, suas letras encantaram o mundo com a bossa nova, passou pelos afrossambas e canções infantis que marcaram a minha geração. Drummond dizia que Vinicius viveu em estado de poesia. Nosso poeta da paixão era erudito e, ao mesmo tempo, tão popular que teve versos de seus poemas que  se tornaram adágios: "Que seja infinito enquanto dure", "Meu tempo é quando" e "Beleza é fundamental". Este último, o mais polêmico de todos, é quase um slogan de salões de beleza, barbearias e clínicas de estética, pois, apesar de ser o seu verso mais criticado, as pessoas cada vez mais buscam por esses serviços. 

O "poetinha", assim chamado por alguns, colocava os críticos em contradição, tanto é que Bruno Tolentino, poeta e cri-crítico, dizia que não elencava Vinicius de Moraes entre os melhores poetas do Brasil, porém era o que ele mais gostava, por ser o mais carioca. 

Acredito que entre os cinco poemas mais conhecidos de sua lavra estejam "Soneto da fidelidade", “Soneto da separação", "Operário em construção", "O dia da criação” e "O Desespero da Piedade". Neste último, Vinicius dedica uma estrofe às barbearias:

"Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros/Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias/ Mas tende mais piedade ainda dos que cortam o cabelo:/Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!"

O poeta faz uma crítica às barbearias de sua época, aliás, pede mais piedade dos clientes que dos profissionais. Ele é enfático e finda uma progressão frasal evocando a Deus: "que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!". Vinicius condenava a fila de espera que havia nas barbearias. Se era ruim para o cliente que ficava, de boa, sentadinho, imagina para o barbeiro, sem saber a que horas iria comer, quando iria usar o banheiro, a que horas fecharia o salão, tendo por isso, obviamente, de trabalhar às pressas, o que nem sempre acabava bem. Enfim, o sistema de ordem de chegada era um caos para ambos, tanto para o cliente quanto para o barbeiro. Aos saudosos desse tempo, duvido que hoje teriam a santa paciência de esperar quatro pessoas cortarem o cabelo para então serem atendidos.

O mundo se modernizou e a barbearia também. Acredito que Vinicius de Moraes iria gostar da minha barbearia com decoração contemplando as artes, com empréstimo de bons livros, com ótimos vinis, frases em latim e poemas rabiscados nas paredes, cafezinho passado na hora, violão à disposição e, é claro, atendimento com hora marcada. Só ficaria devendo a sua bebida preferida, o uísque. Não vendo bebida alcoólica na minha barbearia, não porque eu não a aprecie, muito pelo contrário, mas porque quem bebe, fica. E isso eu não quero, pois preciso aproveitar ao máximo meu tempo livre –  enquanto o barbeiro descansa, o poeta trabalha.

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

 

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

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