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Opinião

Violão vegano

Por: SIDNEY NICÉAS
Zé Amorim, nosso barbeiro-poeta, volta ao Tesão com mais uma de suas crônicas bem humoradas.

Foto: 42 North/Unsplash

02/02/2024
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*Por Zé Amorim

No ramo capilar, há um tipo de franja curta chamada de franja vegana. Não sei se uma veganista de destaque adotou tal estilo e suas seguidoras replicaram, mas o nome pegou. Já no caso de minha crônica, o título não se refere a um corte de cabelo de um virtuose preocupado com as causas animais, muito pelo contrário, se refere ao próprio instrumento, ou melhor, à história dele.

Embora soe estranho nos dias de hoje, os instrumentos de corda eram feitos com tripas de animais. O episódio já aparece lá na mitologia grega quando o deusinho Hermes, já no dia do seu nascimento, pega uma tartaruga desocupada passeando em frente a sua caverna e a sacrifica; depois, seguindo seus instintos de luthieria primitiva, adiciona couro ao casco do bicho, dois chifres verticais como hastes, uma vara de madeira horizontal e sete cordas de tripas de carneiro, e, assim de improviso, constrói uma lira. Apolo — patrono dos artistas, dos músicos e dos poetas — fica encantado (haja lirismo e ouvido absoluto!). Esta passagem é rememorada na canção Choro Bandido de Chico Buarque e Edu Lobo: “Mesmo porque as notas eram surdas/ Quando um Deus sonso e ladrão/ Fez das tripas a primeira lira/ Que animou todos os sons”.

Com o passar do tempo, o mundo foi se modernizando e, com os materiais sintéticos, os instrumentos de corda foram se veganizando, até porque as cordas de tripa desafinavam muito e duravam menos. Aos poucos, O luthier Albert Augustine e o violonista Andrés Segóvia foram aprimorando as cordas de nylon produzidas pela empresa Du Pont. De meados do século XX para cá, as cordas de nylon se popularizaram e substituíram as de tripa. Vale lembrar que nesse período já havia cordas de aço; contudo, para violão dedilhado, só as de nylon faziam a função das de tripa.

Mas não foram apenas os instrumentos de corda que se veganizaram; nem só de tripas vivia a música: com os cornos eram produzidas as cornetas e com os búzios gigantes, as buzinas — ainda usadas em algumas orquestras. Nossos instrumentos tão animados de percussão eram feitos com couro animal, não apenas de gado ou caprino, pois os felinos eram disputadíssimos em época de carnaval para fazer tamborim, como mostra o curta-metragem Couro de Gato, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Nessa época, até o Manda Chuva tinha medo e o Gato Felix não sorria no final. Sobre esse assunto, Moacyr Luz compôs Samba de Fato (samba de verdade no caso, pois fato aqui não significa vísceras, rs): “E um samba de fato eu gosto assim/ Na faca e no prato/ Na mão de um mulato/ No couro de gato/ Que faz um bom tamborim”. 

Já versava Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, ou, se preferirem, as necessidades. Infelizmente, somos pessimistas e achamos que nada muda à nossa volta; porém, se ouvirmos com mais atenção, notaremos que, na linha cronológica dos instrumentos, muita coisa mudou e, às vezes, certos materiais fazem as vezes de outros. 

Por fim, se você é daqueles que adora tocar um violão no churrasquinho de domingo, saiba que, no evento, pelo menos seu instrumento é vegano!

 

 

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

 

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

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