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Literatura

“Voto para impedir a marcha do Brasil ao abismo”

Por: SIDNEY NICÉAS
Com grande lucidez crítica, Cristovam Buarque lança novo livro e dá aula sobre os problemas do país

Foto: Reprodução/Correio Braziliense

17/04/2022
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*por Sidney Nicéas

Estar inquieto com o mergulho do Brasil no caos é comum nos dias de hoje, especialmente para quem procura compreender a realidade e encontrar formas de agir pelo bem comum. O pensamento crítico é, sem dúvida nenhuma, a base para qualquer transformação. Conversar com o ex-governador e ex-ministro Cristovam Buarque ajuda a ter esperança em tempos melhores. Lançando novo livro, “O Mundo é uma Escola - O que Aprendi em Viagens” (Ed. Jaguatirica, 2022), Cristovam apresenta crônicas diversificadas, repletas do seu amplo conhecimento de mundo. A obra foi lançada no último dia 05 em Brasília e chega ao Recife nesta terça (19), às 19h, na Livraria Leitura do Shopping Riomar.

“O Mundo é uma Escola” traz 85 histórias, vividas ao longo de décadas em dezenas de países. Cristovam Buarque percorreu lugares ao redor do mundo e trouxe para as páginas deste livro o seu maior tesouro: a aventura de aprender. Da China até Zanzibar, passando pelo Catar, Índia, Haiti, indo desde a Dinamarca, França e Kyoto até a África do Sul ou a Bolívia, Sri Lanka e Arábia Saudita, a “aventura do pensamento” comprova que, por trás de todo fascínio, há um aprendizado, um encontro com o novo e quebras de paradigmas e ideias pré-concebidas.

Não bastasse a delícia de conferir tudo isso, o autor ainda apresenta um glossário de termos criados a partir das suas percepções, num passeio literário questionador, onde é preciso estar em sintonia com as transformações do mundo. As lições abarcam mergulhos como o estímulo dos fracassos e sucessos, a consciência dos privilégios, exemplos de resiliência, adaptação, solidariedade e sustentabilidade, os riscos e desafios da democracia, e a fragilidade das civilizações.

Viajante assíduo e leitor contumaz, Cristovam sabe que é nos livros que residem as grandes viagens. “Ler é a grande sacada para todos, inclusive para aqueles que têm dinheiro e saúde para viajar. Para quem não pode viajar, leitura é a maneira de ir a todas as partes; quem pode viajar, viaja melhor lendo sobre os lugares onde vai. É por leitura que viajamos pelo espaço sideral ou para o fundo do oceano ou dentro dos vulcões. Sem falar que é por viagem que visitamos o íntimo das pessoas, graças aos romancistas”, explica com sabedoria.

O livro acaba apresentando uma visão de vida ampla, com assuntos viajando entre filosofia, economia e política. Mas não dá para conversar com Cristovam Buarque sem tocar em temas que lhe são plenos, como a educação, a cultura, o livro e o cenário político brasileiro atual. “É pela escola que aprendemos a ver o mundo: saber suas características, entender suas sutilezas, deslumbrar-se com suas belezas, respeitar sua diversidade. Indignar-se com suas injustiças. Aprendi sobretudo a ver como somos diferentes e, ao mesmo tempo, semelhantes”, afirma. Nesse tom, revela que, como cidadão, precisa votar “para impedir a marcha do Brasil ao abismo”. Afirma que “Lula e Bolsonaro não representam o que o Brasil precisa para dar coesão e rumo, mas felizmente temos Lula para enfrentar Bolsonaro e nos dar tempo até 2026”. E não poupa críticas. “Apesar da visão nostálgica de alguns dirigentes ao redor do Lula, com posições reacionárias disfarçadas de esquerda, ou eXquerda, acho que ele é o único que parece ter condições de vencer Bolsonaro. E não vai ser fácil”.

Na entrevista exclusiva que fizemos com ele, Cristovam ainda fala sobre a relevância da escola e das transformações que necessitam, sobre a vida, a morte, a democratização da leitura e se ainda tem Tesão Literário para seguir lendo… Confira abaixo na íntegra e, ao final, todos os detalhes sobre o lançamento do seu novo livro no Recife.

 

TESÃO LITERÁRIO- O mundo é mesmo uma escola? O que o senhor aprendeu na sua própria jornada?

CRISTOVAM BUARQUE- “O mundo é uma escola”, mas ele começa na escola. É por ela que aprendemos a ver o mundo: saber suas características, entender suas sutilezas, deslumbrar-se com suas belezas, respeitar sua diversidade. Indignar-se com suas injustiças. Aprendi sobretudo a ver como somos diferentes e, ao mesmo tempo, semelhantes, apesar de tudo; aprendi a ver que o diferente não é inferior, apenas diverso e não cabe preconceito contra a diversidade; que as soluções para os problemas podem ser diferentes do que pensamos; aprendi que há muitas formas diferentes de beleza. E o mundo melhor e mais belo não é necessariamente como nós imaginamos.

TL- O senhor utiliza a expressão “aventuras do pensamento” para se referir aos textos do seu novo livro. Num país com sérios problemas estruturais - inclusive econômicos, que impede a maior parte da população de desfrutar de viagens, por exemplo -, ler é a grande sacada?

CB- Ler é a grande sacada para todos, inclusive para aqueles que têm dinheiro e saúde para viajar. Para quem não pode viajar, leitura é a maneira de ir a todas as partes; quem pode viajar, viaja melhor lendo sobre os lugares onde vai. Ninguém consegue ir a todos lugares onde deseja. E tem lugares que você não deseja porque não sabe existir. É por leitura que viajamos pelo espaço sideral ou para o fundo do oceano ou dentro dos vulcões. Sem falar que é por viagem que visitamos o íntimo das pessoas, graças aos romancistas.

TL- Complementando a pergunta anterior, como democratizar a leitura no Brasil, já que esse é um gargalo tão ou maior do que os demais que temos que enfrentar?

CB- Podemos aumentar um pouco a leitura, espalhando bibliotecas. Inclusive bibliotecas domiciliares: colocando livros em casas que trocam entre elas suas minibibliotecas. Mas a verdadeira forma de aumentar a leitura é graças à escola de qualidade para todos. Colocando leitura como parte da qualidade. Para isto, no Brasil, precisamos implantar um Sistema Único Público Nacional/Federal de Educação de Base, com máxima qualidade e qualidade igual para todos, independente da renda e do endereço da criança e sua família. 

TL- Indo para a realidade brasileira, temos visto muita gente da classe média matriculando seus filhos em escolas públicas, por conta da crise econômica. Isso pode gerar um efeito mais participativo e de consciência no uso do que é público? Ou basta uma melhora na situação para tudo degringolar novamente?

CB- É positivo o movimento de famílias para a rede pública. As classes médias reclamam e cobram mais das escolas e dos governantes. Por isso apresentei um Projeto de Lei no Senado que obrigava os políticos com mandato a colocarem seus filhos na escola pública. Mas não vai bastar. Os municípios e os estados não têm recurso suficiente para oferecer escola de qualidade para todos: pagar muito bem aos professores, ter a quantidade necessária de professores, edificações com a máxima qualidade e equipamentos de última geração, todas em horário integral. Mas, quando passar a crise, é possível que todos que podem voltem para a rede privada. A desigualdade escolar foi o antídoto que as elites econômicas usaram para se proteger da Lei Áurea. Quando foram obrigados a libertar os escravos, criaram a desigualdade escolar para separar seus filhos dos filhos dos pobres, descendentes sociais dos escravos. A população pobre, até porque não tinha escola antes, aceita a escola dos filhos sem qualidade. Para ela a escola atual é boa, comparada com o seu tempo. Por isso a desigualdade vai continuar até surgir uma consciência de que é preciso levar a sério a Lei do Ventre Livre: uma pessoa nasce duas vezes, ao sair do ventre da mãe e ao entrar em escola com qualidade. A Lei do Ventre Livre, de 1871, só entrará de fato em vigor quando tivermos um Sistema Único Público/Federal de Educação de Base.

TL- Este ano eleitoral se constitui, talvez, como o mais nocivo da história democrática brasileira, onde as fakes news se consolidaram como arma viral e abjeta. Sabemos que somente o pensamento crítico é solução para buscarmos um norte democrático mais seguro. Esse é um remédio utópico?

CB- Não é utópico, nem no sentido de desejado, nem de possível. As fake news atingem a todos, especialmente aos que não têm o senso crítico, que se forma na escola. É a educação de qualidade, crítica, que vai permitir rejeitar as manipulações de informações e de ideias falsas.

TL- Em recente artigo (que muito em breve publicaremos na íntegra aqui no Tesão), o senhor afirma categoricamente que o encerramento da janela para mudança partidária aos que desejam ser candidatos em outubro representou golpe fatal para a nossa democracia. Temos visto, passivamente, parlamentares legislarem em ‘causa própria’. Onde vamos parar?

CB- Boa pergunta. Não sabemos onde vamos parar, mas sabemos alternativas. Uma explosão social ainda maior daquela em marcha sob a forma de violência urbana, ou uma tomada de consciência de que a política precisa construir coesão social e definir rumo para o país.

TL- Lula ou Bolsonaro representam de fato o que o Brasil precisa? Aliás, de todos os postulantes à presidência, na sua visão, qual possui projeto de governo bem alinhavado aos grandes problemas nacionais?

CB- Lula e Bolsonaro não representam o que o Brasil precisa para dar coesão e rumo, mas felizmente temos Lula para enfrentar Bolsonaro e nos dar tempo até 2026, para que surja uma proposta que empolgue a população, definindo o rumo que o Brasil precisa. Se não em 2026, 2030 ou depois. 

TL- Como Cristovam Buarque vota? Com consciência de dever cívico? Sentindo-se obrigado a escolher “o menos ruim”? Revoltado com a panaceia da política brasileira? Todas as alternativas são verdadeiras? Todas as alternativas são falsas? Como tem sido ir às urnas?

CB- Voto para impedir a marcha do Brasil ao abismo. Apesar da visão nostálgica de alguns dirigentes ao redor do Lula, com posições reacionárias disfarçadas de esquerda, ou eXquerda, acho que ele é o único que parece ter condições de vencer Bolsonaro. E não vai ser fácil. Não diria que voto no “menos ruim”, porque Lula foi um bom presidente, apesar dos equívocos e do aparelhamento da máquina do Estado que terminou levando à corrupção em estatais e fundos de pensão. Acredito que ele poderá não apenas barrar Bolsonaro, como também fazer um bom governo, embora não me empolgue, ao pensar que ele não vai colocar educação de base como prioridade. Ele ainda é um político da economia, não da educação, e mais comprometido com o ensino superior do que com a educação de base.

TL- Voltando ao seu novo livro, ele traz uma riqueza enorme nos olhares para a vida, afinal, viver é a mãe da experiência. E morrer? Como o senhor encara a morte e, acima de tudo, analisa que tipo de legado é possível deixar para os que, temporariamente, ficam?

CB- Esta pergunta merecia ser a única. A morte é um sono e sono não é ruim em si. Ela só desagrada porque sabemos que algumas pessoas sofrerão e porque não acordando não poderemos ver, no sentido de sentir; produzir, no sentido de escrever. Como legado fica esta entrevista. Apesar de ter tido centenas de alunos, escritores, diversos livros, na política ajudado a criar políticas públicas, acho que a criação de certas palavras é um legado. Não sei legado duradouro. Mas ao criar uma palavra, fica a marca da criação de uma ideia. Gostaria de ficar conhecido como uma pessoa de ideias. Tive eleitores, mas gostaria de ser lembrado mais pelos leitores.

TL- Como foi criar o glossário de verbetes, que fica no final da obra? Explica essa maravilhosa viagem…

CB- Bom você perguntar pelo glossário: criar palavras foi a parte mais divertida das viagens e da redação do livro. Ao longo da redação surgiam ideias que me provocavam a criar novas palavras e novos conceitos. Eu até gostaria que lessem mais o glossário do que o próprio texto do livro.

TL- A memória, já dizia Le Jeune, não existe sem um tanto de ficção. Como foi trabalhar com esse recurso tão fantástico para dar vida às crônicas deste livro?

CB- Escrevi sem consultar anotações. Ao olhar a quantidade de cadernetas que usei, fico em dúvida se o livro ficaria melhor ou não. Fico feliz quando alguém me chama para dizer que estava presente em algum dos relatos. Um destes dias foi um amigo, Pedro Américo, que estava comigo no aeroporto de Botswana quando li no jornal anúncio do governo, buscando contratar carrasco para atender a demanda dos que esperavam no corredor da morte. Perdi o jornal mas fiquei com uma boa estória, que permitiu uma das melhores reflexões do livro.

TL- Como anda o seu Tesão Literário?

CB- Sem necessidade de ajuda química, embora um café forte ou uma taça de vinho ajudem.

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SERVIÇO
Lançamento do Livro "O Mundo é uma Escola - O que Aprendi em Vuiagens", de Cristovam Buarque
Terça-feira, 19 de abril de 2022, às 19h
Livraria Leitura do Shopping RIomar

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