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Opinião

Conexão SP: Mituti, Tolstói, Sócrates, Chico Xavier e a Morte

Por: SIDNEY NICÉAS
Livros ensinam a morrer. Uma turbulência também. Ricardo Mituti traz em sua nova crônica o clássico medo de morrer com uma leveza que só lendo

Foto: Trollinho/Unsplash

27/12/2020
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*Por Ricardo Mituti

O médium Chico Xavier, ícone da doutrina espírita no Brasil, também teve medo de morrer. Pelo menos uma vez.

Contava ele que, certa ocasião, o avião no qual estava enfrentou um fenômeno chamado vento de cauda, que inclinava a aeronave de um lado para o outro com intensidade considerável. Diante da catástrofe iminente, não restou ao simples homem outra alternativa que não fosse se juntar aos mortais em pânico e gritar com algum escândalo – palavra dele, registre-se.

Instantes depois, Emmanuel, o mentor espiritual de Chico (espécie de “anjo da guarda”), teria se materializado à sua frente, contrariado. A esta pitoresca aparição teria sucedido um diálogo mais ou menos assim:

- Por que você está gritando?

- Porque estamos em perigo de vida. O senhor não acha?

- Acho. E o que é que tem isso?

- Se estamos em perigo de vida, então eu vou gritar. Sou humano como todo mundo, e todo mundo está gritando. Nós vamos morrer. E eu estou apavorado.

Emmanuel, talvez por já estar morto – pelo menos em carne e osso –, parece ter tido pouca empatia com o pobre religioso amedrontado.

- Está bem. Mas então trate de morrer com educação. Cale a boca e pare de gritar, para não afligir ainda mais a cabeça dos outros passageiros.

Contava o médium, conhecido também por sua fleuma, que ainda lhe sobrou coragem para retrucar algo do tipo “só queria saber como é que a gente pode morrer com educação”.

Compartilho desta dúvida de Chico Xavier. Sobretudo quando subo num avião. Tenho pânico daquele troço. E isso porque também tenho pânico da morte.

A primeira coisa que faço quando sento na poltrona de uma aeronave – depois de afivelar o cinto e começar a suar frio – é desdobrar a folha já amarelada na qual meu pai escreveu para mim, especialmente para essas ocasiões, a oração de Nossa Senhora do Loreto, Padroeira da Aviação. E olha que eu sou um homem de pouca fé – exceto nessas horas, claro, em que peço a proteção do meu anjo da guarda e emendo uma Ave Maria, um Pai Nosso e uma Salve Rainha com fervor de fazer inveja ao querido e igualmente apavorado Chico.

Mas a verdade é que, depois de muito sofrimento (e alguns vexames) em viagens aéreas, parece que encontrei respostas para a inquietação xavieriana – e minha – de como morrer com educação. Aliás, descobri até que existe uma “receita para uma ‘morte correta’” (e uso a expressão entre aspas porque a retirei de um livro de sociologia intitulado “A Construção Social da Realidade”, de Peter L. Berger e Thomas Luckmann).

Pelo menos em termos sociológicos, dizem os autores que a morte estabelece também a mais aterrorizadora ameaça às realidades asseguradas da vida cotidiana. Sua legitimação social, prossegue a dupla, difícil de ser realizada, fornece ao indivíduo uma receita para uma “morte correta”. E que no caso ótimo esta receita conservará sua plausibilidade quando a morte do indivíduo estiver iminente e lhe permitirá, de fato, “morrer corretamente”.

Fosse esta crônica minha futura dissertação de mestrado, tal referencial teórico talvez me rendesse algum comentário elogioso da banca. Mas não. Esta é apenas uma crônica despretensiosa, e os sociólogos somente corroboraram algo que eu já havia aprendido com Liev Tolstói, Sócrates e Platão. Foram eles quem me ensinaram a morrer com menos temor e mais sabedoria.

Aprendi com Ivan Ilitch, protagonista da novela tolstoiana “A Morte de Ivan Ilitch”, que o final de uma vida leve, decente e agradável pode ser solitário e assustador. Que a aproximação da morte, para quem não compreende os reais valores da vida, é quase como ser empurrado à força para o fundo de um saco preto, sufocante, sem a mínima chance de reação. E tudo isso porque, muitas vezes, quem morre primeiro é a alma, empenhada à vida tal qual ao Diabo, em troca de tudo aquilo que um túmulo não comporta.

Um colega, ao refletir sobre esta narrativa num encontro de Laboratório de Leitura, compartilhou uma provocação bastante humana para o momento atual: “será que eu já morri e não percebi?”. Não sei se Hamlet diria um that’s the question ou algo do tipo. Mas eu, que não sou príncipe ou filósofo, jamais pude me esquecer dessa pergunta. Pelo menos até ler o clássico “Apologia de Sócrates”, de Platão.

Seja ou não esta narrativa uma transcrição fiel às reflexões de Sócrates durante seu julgamento, a realidade é que os ensinamentos acerca da morte deixados pelos gregos são quase um tratado sobre a única certeza que se tem na vida: [...] temer a morte, ó homens, assemelha-se a parecer ser sábio sem o ser; é pensar que se conhece aquilo que não se conhece. Na verdade, ninguém sabe se a morte é ou não o maior de todos os bens para o homem, mas as pessoas a temem como se soubessem, com certeza, que é o maior dos males. E não é a mais reprovável forma de ignorância acreditar que se sabe algo que não se sabe?

Apelei? Você é que pensa! Pode ser ainda mais profundo – ainda que um tanto óbvio, embora relutemos em assim enxergar a realidade das coisas: Podemos ainda considerar que há razões para se esperar que a morte seja um bem, porque morrer é uma ou outra destas duas situações: ou não há nada e o morto não tem percepção de coisa alguma, ou é, como se diz, uma mudança, uma migração de alma deste lugar para outro. E se a morte for a privação de todas as sensações, como um sono sem sonhos para quem dorme, que presente admirável seria!

Com todo o respeito e admiração que tenho por Chico Xavier, suspeito que o grande médium brasileiro desconhecia essas linhas filosóficas - ao contrário de Emmanuel, que, não bastasse conhecê-las (pelo menos nos meus devaneios ficcionais), ainda teria a desleal vantagem de poder contestá-las, se assim quisesse. Literalmente.

Já eu, que de fato naveguei por tais linhas, por via das dúvidas vou colocar a oração de Nossa Senhora do Loreto no meio da “Apologia” e me dirigir ao meu anjo da guarda pelo nome de Sócrates da próxima vez em que embarcar num avião. Vai que vem um vento de cauda...

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Ricardo Mituti é jornalista, escritor e coordenador do Laboratório de Leitura. Atua como assessor de comunicação desde 2000. É coautor de O Brasil do Sol Nascente, autor de Histórias (Quase) Verídicas - adaptado para websérie - e Órfãos de São Paulo. É, ainda, idealizador e apresentador do talk show lítero-cultural Epígrafes, no ar na internet entre 2016 e 2018, e da vivência lítero-humanística Viva Livros - Uma Experiência Literária. Também é palestrante, redator, roteirista, produtor, editor, ghost writer, narrador de audiolivros, mediador de debates, mestre de cerimônias e consultor para assuntos do mercado editorial e livreiro. É mestrando em Saúde Coletiva na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), na área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, com pesquisa em "Humanidades, Narrativas e Humanização em Saúde".

 

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